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dois toques sobre arnaldo xavier (1948-2004)

1. Uma figura possível para representar o paraibano Arnaldo Xavier é a do autor cuja obra e reflexões críticas estão tensamente imbricadas no debate referente aos dilemas de uma vertente negra na literatura brasileira. Mas o odi et amo de Arnaldo Xavier com relação a esta questão, se define mais por uma atitude problematizadora e metalingüística do que por uma afirmação concludente e, de resto, interessada em legitimar tópicos identitários por meio de uma prática literária entendida como testemunho de verdade étnica. Para Arnaldo, literatura negra é um debate que não deve ser lacrado, assim, às pressas. Exceto, talvez, do ponto de vista acadêmico, é algo que não tem de ser resolvido. Mas um poema de verdade não admite solução. 2. Arnaldo pensou as questões étnico-raciais na margem oposta da circunspecção acadêmico-sociológica. Publicou a quatro mãos com o cartunista Maurício Pestana ( http://www.mauriciopestana.com.br/ ), um livro ironicamente intitulado de Manual de sobrevivência d...

quando um não quer dois não brigam

Em matéria publicada há poucos dias (embora a conversa feita comigo e com o Ronaldo Machado seja de 2007), o Suplemento Literário da revista Critério ( http://www.revista.criterio.nom.br ), editada pelo Marcelo Chagas (Santos/SP) quis saber mais sobre a empreitada, os desafios, escolhas e planos para o futuro da editora Éblis ( http://editoraeblis.blogspot.com ). Eis aqui alguns trechos da entrevista. Bom proveito. “…a Editora Éblis vem à luz com uma proposta editorial simples e impertinente: a edição de livros de poesia.” Critério – Apesar de tantas facilidades de meios de produzir e divulgar textos, na opinião de vocês, por que ainda é impertinente a edição de livros de poesia no Brasil? Ou afinal, qual a pertinência da edição de livros de poesia no Brasil? Ronald Augusto : Há, naturalmente, uma intenção crítica (ou uma provocação) contida nesta idéia de impertinência quanto à publicação de poesia. Nossa iniciativa parece ser algo “fora-do-lugar” se pensarmos a poesia num lance de ri...

um percurso textual na ante-sala

Os poemas de Jaime Medeiros Jr parecem confirmar a opinião de um jovem romancista inglês quanto ao lugar do humor no interior de uma obra literária. Isto é, segundo o escritor, o humor é importante, mas não deve ter a prerrogativa de dizer a última palavra. Numa época de predomínio compulsório da ironia paródica, a afirmação desse romancista parece ser ela mesma um chiste de gosto duvidoso. De qualquer sorte, prefiro dar crédito à tese do inglês e pôr em xeque, também, a norma contemporânea do cinismo risonho como forma de abordagem dos nossos dilemas. Na leitura desse pequeno e complexo conjunto de poemas, intitulado Na ante-sala , pude identificar uma inquietação similar. A linguagem abrigada entre as capas do livro de estréia de Jaime Medeiros Jr se desenha sobre uma seriedade (ou gravidade) fugidia; felizmente, ela jamais descamba para uma solenidade retórica, que pressupõe o poema como lugar do dizer altissonante. Na verdade, na primeira seção do livro, o poema - espécie de fabula...

dione em individual

O caso de Dione Veiga Vieira, talvez em função dessa condição privilegiada de criadora ambidestra - haja visto ser poeta e artista visual -, ou que outra explicação se tente, sempre me pareceu interessante. Sua confiança na autonomia da linguagem poética se revela tão jubilosa em sua luminosidade carnal, que não é justo mostrar indiferença frente às imagens que povoam Matiz de Estação (1983), infelizmente, diga-se de passagem, o primeiro e único livro de Dione até agora. Mas, aqui, e por ocasião da exposição individual que em breve será inaugurada, direi algumas palavras sobre sua arte não-verbal. Suas obras plásticas ou seus objetos algo brossianos, de pendor intersemiótico, se configuram numa espécie de outra dimensão dos belos poemas-texto que conhecemos. Seus objetos não-utilitários são coisas-pulsões, signância a contravento de uma ratio medianeira, objetos de linguagem. Mais do que uma representação do mundo, eles se convertem em invenção de um mundo à parte, sem margens precis...

a poesia entrevista (concedida ao poeta paulo de toledo, 2006)

paulo de toledo e eu Para que serve a poesia? Esta pergunta me trás à memória o poema “O porto sepulto” de Giuseppe Ungaretti, do qual destaco o seguinte trecho: “Di questa poesia/ mi resta/ quel nulla/ d’inesauribile segreto”, que me permito tresler assim: poesia, essa coisa nenhuma de inexaurível segredo. A poesia não serve para coisa alguma, nem se presta à transmissão de mensagens. Seu fazer parece querer ficar rente àquelas zonas mais obscuras e imprecisas da experiência. Seu movimento sígnico em realidade busca não dissimular, mas sim problematizar, um aspecto crítico da linguagem, ao qual não se dá a devida atenção, a saber: esta crença infundada de que só a linguagem articulada e seu corolário – uma objetividade desinteressada e quase transparente -, é capaz de iluminar e decodificar o íntimo dos seres e das coisas. Na prática, o resultado é bem outro. Tal pretensão de desvelamento acaba, ao contrário, projetando sombras de sentido e mal entendidos em torno à totalidade dos ob...

máquina zero na cabeça

Os mais arrivistas estão convencidos de que o alto modernismo chegou ao seu limite, e com atraso. No entanto, o baixo modernismo (como contemporaneidade diluidora) a que estamos sujeitos, é experimentado - ou, melhor dizendo -, degustado com uma indulgência de tal ordem, que só seria de causar estranheza se não a entendêssemos como uma espécie de cópia carbono, mas pelo avesso, de um mesmo estado de espírito que, com relação ao modernismo, sempre se mostrou supercilioso, quando não contrário. Sobre Máquina Zero (Scriptum Livros, 2004), entre tantas outras coisas, uma poderia ser adiantada: é um livro não-indulgente com relação ao seu entorno político-sócio-cultural. Contudo, Ricardo Aleixo, coeso com essa apetência mefistofélica que conquista para si na fatura da obra em apreço, sabe que a crítica e o escárnio que a animam só ganham sentido porque ele se reconhece implicado nos horrores dos espetáculos cult e provinciano que traz à baila. Ou melhor, como escreve Sebastião Nunes no pos...

manifesto antropófago, um jovem clássico de 80 anos

Gravura de Theodore de Bry, 1592 O Plano-piloto para poesia concreta , a Tropicália , o teatro de José Celso Martinez, o Antunes Filho da consagrada e transgressiva montagem teatral do Macunaíma (derivação canibal da linguagem do outro Andrade) da década de 1980, a XXIV Bienal de 1998, cujo tema oficial foi a “Antropofagia”, são exemplos consumados e objetivos que por si mesmos já se revelariam suficientes para comprovar, para o bem e para o mal, a efetiva permanência do pensamento-arte do poeta Oswald de Andrade no panorama das reflexões e fatos culturais brasileiros que atravessam o anterior e alcançam, inclusive, o presente século. Com efeito, a álacre vivacidade sintético-crítica da ensaística do movimento concreto da primeira hora, é haurida na doutrinação cubo-futurista da prosa por justaposição dos Manifestos de Oswald. De outra parte, a canção popular a partir das décadas de 1950/60 ganha outras dimensões com as radicalizações da Bossa nova e da Tropicália . Evoco aqui o tro...