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Literatura negra: além da recepção convencional

Ronald Augusto [1] Podemos distinguir, esquematicamente, dois tipos de artistas. De um lado, aquele espécime cuja arte se mantém muito rente à vida e ao real; e, de outro, o sujeito que entende a arte como uma transfiguração da circunstância, isto é, sua obra nos faz supor uma indisposição com relação ao real. O senso comum, entretanto, parece disposto a dar mais crédito ao artista do primeiro tipo. Ao contrário do representante do segundo tipo, este artista não pode ser um fingidor. O fruidor admira o poeta que suja suas ferramentas inspecionando os transes do vivido. Assim, o objeto de arte se transforma num sucedâneo sentimental e público de uma singular experiência existencial. Precisei desse preâmbulo pela seguinte razão: há uma percepção de que a verdadeira arte se confunde com a vida e isto, bem ou mal, serve de critério para avaliarmos uma infinidade de manifestações criativas, porém com uma exceção: a literatura negra. Muitos não aceitam que o qualificativ...

felizmente passou

Se os bons escritores apelam à relevância da crítica, os maus escritores a fazem necessária. Bons livros tornam possível e louvável a crítica que reconhece e traz à superfície as qualidades de tais obras. Mas os livros ruins – ainda mais quando tidos e havidos por obras sérias – afirmam o gesto indispensável da crítica que procura revelar esse blefe. Portanto, é justo que sejamos gratos – e críticos com relação – aos livros ruins e àqueles que, seja por boas ou más intenções, tentam nos passar semelhante conversa. Isto posto, passemos ao comentário propriamente dito. Entre as três leituras significativas, deste ano de 2013, que gostaria de destacar – coerente com o parágrafo acima e atendendo à solicitação do Edson Cruz, editor do site de literatura e arte http://www.musarara.com.br/ –, confesso que apenas uma foi efetivamente surpreendente, ou seja, prazerosa, e, por isso, começo por ela. Trata-se do livro Las montañas del oro do poeta argentino Leopoldo Lugones, um do...

a múltipla verdade de pau de mulungo

Daniel Rosa dos Santos é um escritor malandro, quer dizer, sua aposta, sua incisão particular, não está interessada na manutenção da Literatura como sistema; como escritor malandro ele quer perpetuar, na precariedade da fruição, o valor suntuoso do texto; seu ego scriptor não tem muito que ver com a imagem do competente e pálido escritor contemporâneo. A empreitada do livro feito no muque, livro feito à mão (um feito de prazer análogo ao do texto), materializa nesse gesto de oficina irritada (artesanato não-mercantil) a imaterialidade de sua escritura, que é tanto malandragem quanto linguagem. A prosa de Daniel Rosa dos Santos é malandra também na acepção em que Antônio Cândido, no estudo “Dialética da malandragem”, caracteriza o romance Memórias de um sargento de milícias , de Manuel Antônio de Almeida, como o paradigma do “romance malandro”. Um desocupado escritor convoca um desocupado leitor a um jogo de enganos. Pau de Mulungu é mais um lance desse jogo: perpétuo móbile...

a música de madiba

Confesso, em primeiro lugar, que o teor destas anotações relativas a Nelson Mandela e a uma série de coisas que no momento cercam sua figura, será um tanto aleatório e subjetivo; seria descabido tentar fazer as vezes do historiador ou do sociólogo. Meus pontos de vista sobre o assunto são parciais, isto é, por óbvias razões (ao menos para mim) tomo o partido de Mandela. De resto, com um rápido lance de dedos no teclado do computador ou na tela do tablet, o interessado estará às portas da Wikipedia e aí encontrará muita informação sobre Mandela. Ezra Pound disse em algum lugar – se a memória não me engana – que todos os homens deveriam se unir para cantar o Ulysses de James Joyce. Com o pedido entusiasmado, Pound procura dar conta da importância de tal obra, tanto para o seu tempo, como para o que viria a seguir. Trocando duas ou três palavras da frase de Pound, ela caberia à perfeição para traduzir meu sentimento e o de muitos outros em relação a Nelson Mandela e sua simbolo...

sem maldizer

Chão que se foi / ronald augusto [guitarra e voz]  Quem sabe o lado certo de onde vem  O que já foi deixando só escuridão  Quem sabe o lado certo de onde vem  De onde vem  Vento de então  Céu de não mais  Mar sem depois  Chão que não foi  Além do lado esquerdo o que que há  O pé do bêbado lambe a solidão  Além do lado esquerdo o que que há  O que que há  Chão que se foi  Sem perceber  Toca o vazio  Sem maldizer  [guitarra: leandro theisen; baixo: rogério gil; e na bateria: cristiano ungrad]

empresto do visitante, meu igual

Empresto do Visitante pode ser comprado na página da Editora Patuá: http://www.editorapatua.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=193&Itemid=53 Sobre o livro: Contra o gelo do mainstream poético Frédéric Martel afirma, no livro   Mainstream – a Guerra Global das Mídias e das Culturas   (2012), que a poesia morreu, embora sobreviva em pequenos nichos sociais, sem influência alguma sobre a sociedade. Acrescento: ela, no Brasil, quase sempre feita em prosa de comunicação, não traz,  em si mesma, instrumentos culturais concretos e eruditos a permitir o confronto com tal quadro.  Há exceções e, entre elas, encontra-se a poesia de Ronald Augusto, um pensador independente. Seus poemas revelam leitura atenta de algumas tradições, para reativá-las de modo crítico, a desafiar a ordem vigente da indústria do entretenimento e o   statu quo   da própria poesia, hoje, submetido a esta ordem da diversão, do subjetivismo...

vinicius e seu orfeu blackface

Notas sobre alguns aspectos da peça Orfeu da Conceição de Vinicius de Moraes. A dita “tragédia carioca” foi encenada pela primeira vez em 1956 no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Embora a obra de Vinicius de Moraes seja, sob vários aspectos, desbravadora, pois o poeta, se antecipando a muitos autores teatrais, a escreveu para que fosse encenada por um elenco de atores negros – fato até então inédito – revela, mesmo assim, em sua narrativa, representações estereotipadas com relação ao negro. Além desse dilema de fundo, pode-se levar em consideração o êxito de forma com que Vinicius de Moreas, nesse esforço de recriação do mito de Orfeu, transcultura, em termos de sincronia, um item do legado clássico para o interior do tempo que lhe cumpria viver, reinventando-o no cenário de um morro carioca em meados dos anos 50. Não me parece inviável uma leitura onde se considere que os termos “tragédia carioca” podem dizer disfemicamente ou que representem por ausência, por apa...