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A indústria do vanguardismo pós-tudo

[joan brossa e um de seus poemas visuais] Cada vez mais me parece interessante experimentar uma suspeita reflexiva com relação a uma ideia que, aqui e acolá, insiste em aparecer em alguns textos ou comentários críticos. Trata-se da ideia que estabelece similitudes entre vanguarda e progresso. Um vício diacrônico, além de messiânico, serve de nutrimento a uma noção de vanguarda enquanto conquista de territórios, acúmulo de feitos num ensaio de totalizações. Movimento que visa a uma etapa final ou a um éden. Vanguarda que se apresenta como ponto de otimização da história. Devir utópico calcado sobre linearidade progressiva, causal. Um dogma: a vanguarda não corre o risco de infectar-se com o vírus do retrocesso. Talvez no âmbito da estratégia dos exercícios de guerra, ou mesmo na arena da politicagem estético-literária, tudo isso ainda faça algum sentido, pois aperfeiçoamento pressupõe a aceitação de exclusões e obsolescências cujo questionamento — a bem de um “mundo tr...

Nem, nem

[ nem raro nem claro , ed. butecanis, 2015] [ mnemetrônomo , ed. butecanis, 2014] Por Ricardo Silvestrin  [texto publicado originalmente em: http://www.musarara.com.br/nem-nem] Depois de Empresto do Visitante (Patuá, 2013), livro em que cintilam poemas-instante, clics da paisagem que ombreiam em beleza com o que retratam, Ronald Augusto lançou dois volumes pela editora Butecanis: Mnemetrônomo (2014) e nem raro nem claro (2015). No primeiro, o poeta enfrenta, não sem revelar o esforço que a tarefa demandou, a construção de poemas metrificados: . dizer em sáficos esses dez lustros com que deslustrei minha juventude não é de amargar mas me sai a custo (…) . Mas não pensem que a forma clássica amansou o discurso enviezado que costuma estar presente na poesia de Ronald. A seleção de palavras com pontas, que se atritam entre si no poema, continua presente: ao peso se dobra . por seu modo insurrecto e sem molhar palavra ria menos viril...

a pregação sem medida de Nuno Ramos

Sermões , a pregação sem medida de Nuno Ramos Ronald Augusto [1] No que diz respeito aos processos construtivo e formal, no sentido de uma determinação compositiva, Sermões parece não ter um desígnio preciso. Tudo vai ao modo do acaso, como se o autor levasse um encontrão fortuito e desse episódio surgisse sua pregação sem medida. A forma é insignificante e meramente contingente, isto é, poderia ser diferente, o impulso poderia vir de qualquer lado. Ainda que pareça uma ideia fora do lugar – e para provar o contrário julgo ser oportuno apelar ao domínio das artes visuais de onde vem Nuno Ramos –, eu diria que sua poesia é uma tentativa não muito bem sucedida de transposição do informalismo pictórico [2] para o campo da criação verbal. Com efeito, em Sermões há uma série de indícios que se ligam a princípios do movimento do informalismo na pintura, por exemplo, a aposta no uso imprevisto das matérias que resulta no apetite pela mancha e pelo errático; a aleatoriedade ...

lugares contemporâneos da poesia

Publicado originalmente em Sibila , lugares contemporâneos da poesia/Brasil: Ronald Augusto RONALD AUGUSTO , nascido em 1961 em Rio Grande, Rio Grande do Sul, é uma das principais vozes negras do Brasil. Poeta, crítico e músico, reside em Porto Alegre. As principais temáticas presentes em seu repertório referem-se à poesia contemporânea e à vertente negra na literatura brasileira. Atualmente Ronald Augusto realiza palestras e oficinas/cursos abordando assuntos como música, poéticas contemporâneas, literatura negra e poesia visual. Entre 2007 e 2012 manteve ao lado do poeta Ronaldo Machado a Editora Éblis, voltada para a poesia. De 2009 a 2013 foi editor associado da  Sibila.  Publica eventualmente nos jornais Zero Hora e Diário Catarinense. Publicou, entre outros livros, Homem ao Rubro  (1983),  Puya  (1987),  Kânhamo  (1987),  Vá de Valha  (1992),   Confissões Aplicadas  (2004),  No Assoalho Duro  (2007),   Cai...

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