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o que importa é a curtição




A atividade crítica, como há pouco escreveu o poeta Marcus Fabiano, mantém estreita analogia com a tarefa do jurado de qualquer prêmio ou concurso literário (esse comentário se restringe ao campo da literatura, mas o problema seria o mesmo se falássemos do ponto de vista de qualquer outra atividade artística). Mas num certo momento seus caminhos se bifurcam.

O jurado assim como o crítico, a partir de critérios principalmente estéticos (por agora vamos dizer que deveria ser assim), assume a responsabilidade de apontar dentre aquelas obras apresentadas à competição, as mais bem logradas. O crítico, seja por seu próprio apetite, seja por dever de ofício, se dobra sobre a produção do presente e do passado e propõe leituras (eu diria que se dispõe a uma interlocução) a propósito das valências compositivas desses exemplares e avalia os resultados.



Enquanto a decisão não vem à público, jurado e crítico estão seguros. “Deixemo-los lá, os dois, fazendo o seu trabalho de suma importância para continuação do sistema literário”. Tão logo o resultado do julgamento ou da interpretação é conhecido, separando os melhores dos piores, seu recorte passa a ser severamente criticado.

A diferença entre o jurado e o crítico é que este dá a ver publicamente não só as obras literárias bem logradas que teve sob seus olhos. O jurado, por sua vez, faz uma crítica indireta, quase apaziguadora de conflitos, pois oferece (por agora vamos aceitar que é assim) ao leitor modelos do que considera um bom ou excelente trabalho literário. No caso dos prêmios e concursos, exceto se algum derrotado/excluído não vem a público para lançar dúvidas sobre a decisão do jurado, nem sabemos quem morreu no caminho. O silêncio entre desdenhoso e vaidoso como que deixa tudo em panos quentes e, aparentemente, todos concordam que a justiça foi feita. “Eu? Não, não mandei nenhum original para esse prêmio. Nem sei quem ganhou”.



O crítico, ao menos dentro das condições do presente, enfrenta e produz alguns problemas, vejamos: (1) se ele escreve a favor de determinado autor, não faz bem porque poucos sabem escrever “a favor” hoje em dia; essa ideia de “coletivo de escritores” reduz o “a favor” a um vergonhoso estilo laudatório que preserva mais o sujeito que elogia do que o elogiado, pois no momento seguinte o objeto dos confetes lançados terá de retribuir o gesto na mesma moeda. Escrever “a favor” é sinônimo de relação corruptora.

E (2) se o crítico escreve contra, ele é um filho da puta porque esse “coletivo de escritores”, todos eles conectados graças às redes sociais, esse coletivo de ativistas, forma um campo benfazejo onde se criou a ideia – inclusive para que ninguém sofra um surto psicótico – de que não existem mais bons nem maus escritores. O que importa é participar; ser um representante desse coletivo.

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