“o que é poesia?”
é a grande questão que move os poetas, mesmo quando aparentemente ela não vem à
tona do campo de significação de seus poemas; a resposta mais fácil, resposta
de bolso, talvez seja a que diz que a poesia é quando a linguagem para nela
mesma, ou seja, quando o leitor percebe que a linguagem se dá em espetáculo, quando
o leitor é obrigado a ver/ler o que está de fato escrito/inscrito ante seus
olhos e não o que ele imagina estar sendo dito por meio da linguagem, em outras
palavras, o poeta não quer dizer, ele já disse, já materializou um objeto
estético-verbal significante, e que é uma coisa polissêmica; mas se alguém nos
perguntasse, por exemplo: “o que é a escultura?”. eu responderia de modo
sintético apontando um espécime: o
pensador de rodin. sim, mas como se faz escultura? ah, pois é. “o que é
poesia?” é uma pergunta que parece supor também isso: “como se faz?” é
necessário conviver com os poemas para saber o que é poesia, e não confundi-la
[a poesia] com os efeitos causados, que são da ordem do impreciso (cada um vai
perceber a coisa de um jeito, isto é, cada um vai inventar um significado para
aquela figura de um homem nu pensando; por outro lado, a escultura está ali presentificada e, a rigor, à
vista de todos objetivamente), daí outra definição, lema das minhas oficinas: poesia
é a precisão do impreciso, uma forma estética, um objeto lingual, que implica
em uma materialidade (uma imagem, uma metáfora nova) para o impreciso, feito
uma espécie de tradução; eis minha resposta sempre insuficiente.
Ronald Augusto [*] Falsos Problemas “Entretanto, eu gosto de ti, ó Feio! Porque és a escalpelante ironia da formosura, a Sombra da aurora da carne, o luto da matéria doirada ao Sol...” Eis aí, talvez, o indispensável Cruz e Sousa expondo - à sua maneira ou a quem tiver olhos para enxergar - o âmago daquilo que alguns estudiosos de sua obra consideram a “nota brasileira” do seu simbolismo, a saber, a condição de negro. Este recorte metonímico do poema em prosa “Psicologia do Feio”, que integra o livro Missal (1893), dá uma pequena amostra de quão abrangente é o estrato semântico a movimentar os dilemas e estilemas crítico-criativos de Cruz e Sousa. O Feio representa, a um só tempo, vetor ético e estético. O poeta opera com uma variante do motivo do artista maldito que vai se desdobrar no demiurgo algo monstruoso - porque dotado de “energias superiores e poderes excepcionais” que, no desmedido de sua experiência (húbris), transformam-se em verdadeiras ofensas co...

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