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Xirê e a matéria viva do poema ritual

Ronald Augusto [1] Xirê , a festa, a invocação do intelecto que gira sobre si mesmo no redemoinho do mundo. Dança e contradança do ori entre as palavras. Orikis heterodoxos da indeterminação. Por seu turno, Dú Oliveira conhece por contato a determinação da poesia rumo à ambiguidade: “ nas asas/ da/ palavra/ e/ dos/ mistérios/ e/ intenções/ não reveladas// serei/ eu/ a/ dizer/ da/ festa ?”. E aqui vai minha evocação: Roman Jakobson, estudando o “riso ritual” no contexto medieval, argumenta que é “a hilaridade que possibilita ao homem comum terreno reafirmar-se face a face com o Misterioso”. Em termos antropofágicos a alegria é prova dos nove. Em Xirê Dú Oliveira afivela sobre o próprio rosto a persona cambiante do ator ritual e assim se transfigura álacre a cada poema jogado. O poeta feito oficiante experimental. O jogo ritual com a linguagem sabe a uma definição de poesia. E tal jogo alcança o mundo interior na superfície mesma do exterior. O poema sempre como um jogo ...

MONTAIGNE: O ENSAIO COMO AUTORRETRATO

Ronald Augusto [1]   O que se pretende aqui é investigar e comentar que espécie de eu ou de voz narrativa atravessa os ensaios de Montaigne. De saída pode-se afirmar, por meio de uma leitura comparativa, que nos Ensaios não deparamos o mesmo tipo de eu (como mecanismo discursivo) que, por exemplo, serve de instrumento tanto a Descartes como a Agostinho para a consecução e apresentação de seus textos e problemas filosóficos. Sob uma aparente similaridade, isto é, a de que nesses casos temos filósofos escrevendo a partir da primeira pessoa do singular ou conferindo ao pronome pessoal um estatuto mais dramático no que toca às condições de possibilidade do conhecimento, enfim, sob essa virtual aproximação, cabe estabelecer algumas distinções. Distinções estas que, de resto, vão demarcar o que é irredutível a cada um desses percursos filosóficos. Tendo em mente as considerações do poeta T. S. Eliot que no ensaio Las tres voces de la poesía [2] analisa as possibilid...

o diálogo Mênon

Ronald Augusto [1] O diálogo platônico – mimese da “ação de dialogar” – enquanto forma literária filosófica constitui, talvez, o legado mais acabado da tradição do pensamento grego que, por seu turno, serve de matriz importante à filosofia do ocidente. Grosso modo, enquanto o que nos resta das obras, tanto dos que precederam a Platão, quanto dos que foram, mais ou menos, contemporâneos do filósofo, são referências ou fragmentos, dele, entretanto, temos um corpo expressivo de diálogos cuja autoria lhe é atribuída sem grande controvérsia. Mênon , objeto deste comentário breve e incompleto, é um diálogo ainda sob o impacto do pensamento e do estilo socráticos, isto é, não faz parte da produção considerada madura de Platão. É importante frisar também em relação à obra em tela que a empreitada tradutória de Maura Iglésias parte, à primeira vista, de dois pressupostos, a meu ver, acertados: de um lado o idioma de partida (o grego) se projeta sobre o idioma de chegada (o port...

iguais desiguais: entrevista

Entrevista com  Ronald Augusto  concedida a  Marcio Renato dos Santos  para a reportagem de capa da edição 52 do jornal  Cândido , de novembro 2015 – editado pela Biblioteca Pública do Paraná. Levando em consideração a sua experiência, o que é ser um autor, um poeta negro no Brasil? O meio literário é, em certa medida, a representação especular, embora com suas singularidades, das imposturas e imposições socais, raciais e econômicas abrigadas sob o arco ideológico que, por sua vez, tem um forte traço conservador. Minha experiência como poeta e escritor negro em Porto Alegre me ensinou a reconhecer a existência de um desconforto mútuo, isto é, às vezes represento o outro, o estranho e, de outra parte, os demais escritores, que deveriam ser aquilo que chamamos “os [meus] iguais”, formam um grupo com o qual não alcanço ou nem quero alcançar a menor identificação. Felizmente, a contragosto do solo, a literatura brasileira tem uma série de artistas...

O estilo da revanche em E se alguém o pano

Ronald Augusto [1] A satisfação de escrever a apresentação para um livro que é do agrado do prefaciador muitas vezes é acompanhada da suspeição de terceiros. Com efeito, tendo em vista a presente obra, alguns dirão, por exemplo, que sou suspeito ou estou implicado nas análises da poesia de Eliane Marques, porque já há algum tempo venho acompanhando os desdobramentos construtivos de E se alguém o pano , conjunto que agora se oferece ao leitor. Ao longo desse percurso estabeleci um raro diálogo com a poeta e suas específicas propostas textuais. Assim, é por essa razão que, a contrapelo dos eventuais invejosos, me sinto não só mais do que à vontade para cumprir a tarefa, mas – e o que é melhor – creio mesmo que tenho o direito de fazê-lo. Não se trata de lançar mão da prerrogativa do elogio que o texto introdutório pode exercer; não. O que pretendo é levar a termo, o quanto possível, uma ideia do poeta W. H. Auden segundo a qual o melhor leitor do autor inédito (que é o cas...