Pular para o conteúdo principal

Postagens

Miscelânea de algumas semanas

Miscelânea de algumas semanas Ronald Augusto [1] Na esportiva Tudo vai bem quando o time dos seus grandes amigos está numa situação pior do que a do seu. Porque quando a situação não é bem essa, é muito chato controlar a vontade de vê-los balançando numa árvore à beira do rio, afinal de contas, são seus camaradas. Acontece que aquele sorriso no rosto deles, enquanto oscilam ao sabor do vento, compensa todo constrangimento. Amigos para sempre. Ideia de girico Um gaúcho desvairado (redundância) imaginou uma cuia portentosa como alternativa à proposta da roda gigante na orla do Guaíba, ele se baseia no seguinte argumento: “melhor algo da nossa cultura do que da cultura inglesa”. Vamos elucidar dois pontos: 1. roda-gigante não é criação dos ingleses; e 2. mesmo que fosse, o futebol, por exemplo, não foi inventado pelos brasileiros, no entanto está entranhado em nosso imaginário cultural. Não basta ser brega, tem que ser burro para apoiar algumas façanhas . M...

subir ao mural: leituras

SUBIR AO MURAL [1] Marco Aurélio de Souza [2] 1. É sempre arriscado comentar a grande poesia, quer dizer, a poesia que cumula recursos sonoros e semânticos com a precisão de pensamento – que poesia sem pensamento não pode ser grande nem boa, e o pensamento parece estar sempre em falta –, que forja imagens improváveis mediante o desvio incessante da obviedade, é sempre um risco comentar tal poesia: afinal, que pode um comentário dizer sem entregar a imaturidade do leitor? E o leitor de boa poesia, vale dizer, jamais está maduro. 2. A poesia de Ronald Augusto é destas que, por sua qualidade excepcional, intimidam o leitor desavisado, causando neste, ao final de cada poema, um momento de sincera reflexão. Que movimentos fez aqui este poeta? Fui capaz de acompanhá-lo? Tanto maior será o desafio para quem, como eu, pretende o comentário despretensioso (e como dizer com simplicidade o que excede o simples pelo capricho da linguagem?). 3. Publicado em 2017 pela Edit...

a voz pública da poesia, entrevista

[arte de daniel rosa dos santos ] Entrevista do editor à Carolina Veloso, estudante de literatura da UFSC que prepara artigo sobre o blog A Voz Pública da Poesia . Carolina Veloso – Como surgiu a ideia de criar um blog de poesia independente? Ronald Augusto – Não é um blog de poesia independente. É um blog cuja pretensão é apostar na poesia política. Um espaço para o exercício de uma dimensão do fazer poético que não teme a imersão radical e crítica no presente nem a parcialidade de situar-se em termos históricos e políticos. Nos últimos cinco anos a vida político-social brasileira deu uma guinada desconcertante para a direita mais absurda possível, isto é, aquela que, ao mesmo tempo, consegue ser burra e violenta. Quando isso começou a tomar forma (digamos que do impeachment de Dilma pra cá) comecei a perceber que muitos poetas se mostravam soberanamente indiferentes aos sinais do que iniciava a surgir, era como se usassem luvas de pelica; seguiam fazendo seu...

O viés confirmacional: a imersão na bolha

O viés confirmacional: a imersão na bolha Ronald Augusto [1] [Basquiat] Quando observamos mais de perto o processo de alguns vieses cognitivos chegamos à conclusão de que nem sempre, como gostaríamos de acreditar, sabemos bem o que se passa em nossa mente. Ainda que, o mais das vezes, tenhamos a impressão de que nossos pensamentos se encadeiam com coerência uns depois de outros e uns com os outros, a questão é que nem sempre as coisas se dão dessa maneira. No geral, as pessoas não conseguem reconstituir ou rastrear com precisão o passo a passo de como chegaram a essa ou àquela crença em particular. Esse processo mental que produz impressões, intuições e, logo depois, crenças que vão servir de base às nossas decisões acontece em nós sem que, por assim dizer, sejamos informados a respeito. Embora as razões desse processo nos escapem em muitas situações e, em consequência disso, nos levem ao cometimento de erros que poderiam ser evitados, a maioria dos nossos julgame...

slammers são poetas?

Slammers são poetas? [1] Ronald Augusto [2] Em um trecho indecidível localizado entre o racismo estrutural e o renitente discurso da “democracia racial”, leitores-sujeitos negros e brancos vêm deparando já há algum tempo com formas de linguagem que põem em cena o desejo de escritores negros de falar a propósito de – e transfigurar poeticamente – sua interação tanto com o estado de coisas do seu tempo, quanto com a necessidade de sua transformação. Nas últimas três décadas, mais ou menos, por força desse movimento, percebemos um aumento de visibilidade da representação negra na sociedade brasileira – seja nos meios de comunicação, seja nas artes, na literatura, seja no âmbito acadêmico – e a tal ponto que seu caráter “marginal”, diante das formas de expressão consagradas, vem sendo ao mesmo tempo colocado em questão e redimensionado em uma perspectiva de afirmação. A partir desse pano de fundo constato a presença efetiva de vários escritores e poetas negros em Porto Aleg...

entre uma praia e outra & sua fortuna crítica

Entre uma praia e outra, de Ronald Augusto (Porto Alegre: Artes&Ecos, 2018) Ricardo Pedrosa Alves “Entre uma praia e outra” é o mais recente volume de poesia de Ronald Augusto. O livro, com capa sensacional (fotografia de Fabiano Scholl) e com apresentação de Guto Leite (que ressalta o vigor da poesia de Ronald, “generosa e inflexível”), e com uma espécie de posfácio de Erre Amaral (“um voyeurismo de afecções”), é dividido em 3 partes. Aqui, analisarei cada uma delas. Ressalto, porém, que esta é uma leitura única, não revi minhas pontuações. Ela foi feita no voo entre Porto Alegre e Curitiba, em fins de 2018. Na capital gaúcha, conheci Ronald Augusto no I Congresso de poesia da UFRGS. Vim lendo o livro. Na chegada a Curitiba, bastante turbulência. A leitura talvez se ressinta de tal instabilidade. Agora, 23/04/2019, retomo o livro, revejo minhas anotações ao lado dos poemas. That’s all Folks! “uma praia” Tanto aqui, como na última parte do livro, os poemas são...