Antes da estreia da série pessoas
de boa vontade diziam "calma, vamos esperar a série começar... vocês estão
criticando apenas o título... não conhecem o conteúdo..." etc etc. Pode
ser. Agora, corta para uma cena da chamada de "Sexo e as Negas":
vemos uma das personagens, ela trabalha em um restaurante e conduz alguns
homens brancos, bem trajados e arrogantes, até a mesa, um deles pede uma carne
bem passada, bem escura ou preta, que é como ele gosta e olha de pronto para a
"nega", ela percebe a "indireta" e retruca, como se engendrasse
uma resposta genial ou malandra, assim: "então eu vou pedir ao fulano (um
garçom negro, alto e avantajado) que atenda o senhor, pois ele vai lhe dar certamente
o que o senhor deseja..." (faz um olhar cheio de significados). A cena é mais
ou menos assim. Pois esse é o nível do texto do Falabella. Os negros sempre
sujeitos a trocadilhos de mau gosto, sua genitália usada tanto em vista do
gozo, quanto da punição sádica, a "nega" sobe nas tamancas ou mostra
sua altivez colocando outro negro no centro do circo da estereotipia. E você
acha que o título é só impressão? Inocente.
Ronald Augusto é poeta e ensaísta. Licenciado em Filosofia pela UFRGS e Mestre em Letras (Teoria, Crítica e Comparatismo) pela mesma universidade. É autor de, entre outros, Puya (1987), Vá de Valha (1992), Confissões Aplicadas (2004), No Assoalho Duro (2007), Cair de Costas (2012), Oliveira Silveira: poesia reunida (2012), e Decupagens Assim (2012). É colunista da revista http://www.mallarmargens.com/; e escreve quinzenalmente para http://www.sul21.com.br/jornal/colunista do site Sul21.

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