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the congo de vachel lindsey agora em português

www.editoraeblis.com Do ponto de vista de sua ideologia The Congo — study of the negro race /Congo negro (Editora Éblis, 2009) para o paladar contemporâneo, pode ser interpretado como um poema ultrapassado. Em seus versos, formas clássicas de preconceito racial e religioso contra o negro vêm à superfície a todo o momento. Neste sentido, a intenção pretensamente esclarecedora contida no sintagma que complementa o título do poema, tem algo de patético, pois esse “study of the negro race” se revela tão vincado de superstições e estereótipos com relação ao seu objeto de estudo que acaba por obliterar a possibilidade efetiva de algum desvelamento a propósito das perplexidades e dos signos envolvidos na fatura da obra. Mas o poema de Vachel Lindsay não é um caso isolado dentro das contradições que envolvem uma tradição de representação do outro dentro da literatura. As imposturas que acompanham inadvertidamente suas boas intenções são verificáveis — e similares àquelas encontradas — também...

o cara

apanhado em toda a sua mulatice Este fragmento deve começar transcrevendo parte de uma crônica de Machado de Assis publicada no primeiro número da revista O futuro (1862-1863). A crônica foi descoberta por Mario Alencar, também organizador de A Semana , compilação póstuma enfeixando em três volumes as crônicas que Machado escreveu semanalmente para a “Gazeta de Notícias” (RJ). No texto em causa, Machado de Assis defende um “programa de trabalho”. O escrito, efêmero como o suporte onde fora estampado, representa a contrapelo algo como a “pedra fundamental” da sua trajetória de escritor - Machado de Assis contava 23 anos. O cronista que inaugura a sua coluna tira a pena do fundo da gaveta e passa a ministrar-lhe alguns conselhos que, caso aceite, lhe facultarão uma vida “honrada e feliz”. Vejamos alguns trechos: Não te envolvas em polêmicas de nenhum gênero, nem políticas, nem literárias, nem quaisquer outras; de outro modo verás que passas de honrada a desonesta, de modesta a pretenci...

depois do carnaval

rosa marques: www.verbavisual.blogspot.com Que outras considerações poderiam ser feitas a respeito do carnaval que escapassem — fico nos exemplos extremos — tanto do elogio à maneira de Jorge Benjor no tocante ao tema, como da flânerie analítica do sociólogo irresoluto entre uma precipitação rematada à esquerda e a fleuma do esclarecimento a propósito do seu objeto de estudo? Confesso que não pretendo responder à pergunta, que é retórica. Aliás, não sendo partidário nem da visão do conhecido cantor e tampouco da apetência científica do virtual scholar , o que me resta é proceder a uma interpretação cega, tateante e por esboços, compreendendo que a hipótese de um conteúdo comunicável, de um discurso pretensamente racional e completo em torno ao assunto em apreço — seja anterior ou posterior à fatura mesma deste ensaio —, seria um absurdo contraproducente na dinâmica desse modo de pensamento tão caro a Heidegger (e com que me afino), ou seja, pensamento este que não pretende produzir sa...

em resposta a uma solicitação feita por edson cruz

1) Edson Cruz: o que é poesia para você? Ronald Augusto : Não faz muito tempo eu tinha muitas certezas a respeito desta questão. Hoje, tenho não sei quantas dúvidas. Ainda acho que o conceito de invenção pode vir a colaborar numa eventual definição que se ensaie a propósito do gênero, mas já não tenho um apetite tão grande para, digamos assim, me solidarizar de modo indiscriminado com os adeptos da invenção. Aqui e acolá a todo instante se publicam livros que pretendem reunir o melhor da invenção surgido na última estação. Em poesia invenção virou commodity . Ou bolha especulativa. Mas, poesia não é apenas invenção. Em muitos poemas velhos a beleza está mesmo nessa condição do texto que envelheceu onde podia envelhecer. Em poesia a reiteração talvez seja até mais valiosa que a invenção. Uma resposta mais objetiva à pergunta poderia ser proposta nestes termos: não sei, eu escrevo poesia na perspectiva de que cada poema realizado possa levar acesa em seu bojo essa questão. 2) EC: o que u...

uma assinatura monumental

Incluída entre as melhores obras arquitetônicas de 2008 por cinco especialistas — os críticos Luis Fernández-Galiano, Frederick Cooper, William J. R. Curtis, Albert Ferre e Juan Miguel Hernández Leon —, a nova sede da Fundação Iberê Camargo, projeto do arquiteto português Álvaro Siza, é a primeira edificação construída em Porto Alegre para este fim, isto porque as instituições até então existentes, como, por exemplo, o Museu de Arte do Rio Grande do Sul (Margs), ocupam prédios históricos criados originalmente visando outros objetivos. Entre as demais obras arquitetônicas selecionadas figuram muitos edifícios destinados a apresentações e acontecimentos públicos de cunho artístico-cultural e também esportivo, é o caso, para citar um exemplo, do Estádio Olímpico de Pequim, o “Ninho de Pássaro”, como desde então se tornou conhecido. Por outro lado, a lista dos eruditos também contempla obras voltadas para as questões tradicionais de habitação e de modelos urbanos que comportem inovações, p...

uma vírgula irritante

Em vida, Anotações à margem (1994) foi o último livro individual que Oliveira Silveira viu publicado e incorporado ao conjunto de sua obra [1] . É impressionante que seu recente desaparecimento feche um ciclo de quinze anos sem que mais nenhum livro seu apenas viesse à luz. E isto é de espantar, ainda mais se levarmos em consideração, por um lado, a qualidade de sua produção poética — referida e solicitada mais além do que aqui — e, por outro, a facilidade e a regularidade com que poetas e prosadores ruins publicam suas obras sem que quaisquer obstáculos lhes sejam ofertados. Suspeito que, hoje, qualquer um consegue reunir num arco de tempo parecido, no mínimo uns sete ou oito títulos (mas, se tudo correr bem, ninguém os guardará na memória). Registre-se que embora Oliveira não possa ser relacionado como um poeta de inspiração caudalosa, tampouco era um sujeito que se vangloriasse ou abusasse da esterilidade. Era um artista em movimento. Não raro, em nossos encontros, relata...

a substância moral dos vencedores de prêmios literários

O artista de segunda categoria se submete tanto aos elogios quanto à opinião ruim ou desvantajosa a respeito do seu trabalho. Mas este artista, todavia, não desceu até o mais baixo tanto quanto um seu equivalente insiste em fazê-lo, e sem desprezar alguma perícia nesse exercício. Refiro-me, aqui, ao representante daquela classe de artistas cuja vulgaridade já não se importa mais com as alternativas dos elogios e das opiniões desfavoráveis que sua obra eventualmente venha a suscitar. Pois esse consumado artista medíocre do nosso tempo se socorre antes das gordas somas em dinheiro oferecidas pelos prêmios e da publicidade decorrente do que de um reconhecimento estético adjacente a um julgamento crítico devotado ao seu trabalho quer seja feito pelo público em geral, quer seja por um conjunto de especialistas que, para a saúde de todos, sempre serão questionados e questionáveis. Se, na condição de vencedor — e agora o nosso sujeito afivela a máscara do escritor —, o seu...