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sobre a poesia de cândido rolim, um papo

cândido rolim PAULO ALEX SILVA SOUZA - Você acredita que há efetivamente uma crise da razão, o que leva ao ressurgir da fala dos mitos na poesia? Em caso afirmativo, qual resposta reclama essa crise? Ronald Augusto - A condição de crise é como que a “razão de estado” da razão. Isto é, desde que a razão tornou-se Razão, ela se nutre das suas contradições. Se uma “fala dos mitos” se levanta de maneira a resolver uma tal crise, isso me parece uma resolução com algum grau de consciência. Há um precipitar-se nesta direção. A rigor, em poesia, não há essa fratura definitiva entre a razão e a fala dos mitos. Cito por exemplo dois poetas que talvez, nesse ponto, pudessem ser confrontados comparativamente com o Cândido Rolim: Fernando Pessoa, do livro Mensagem, e Paul Valéry - não por acaso autores de filiação simbolista. O poema na pele de coisa-signo encarnado, em detrimento da tradição livresca que o apresenta como sublimação seja dos humores da emoção, seja dos labirintos da razão, ultrap...

política não tem fim felicidade sim

homero As qualidades dos heróis homéricos são exaustivamente representadas e cantadas pelo aedo. O político de sucesso é aquele que soube publicar e fazer a propaganda (às vezes enganosa) das suas realizações. Sua “coerência de vida e sua defesa dos interesses da nação” são, por dever, notoriamente conhecidos. O político precursor faz as vezes do moralizador. O seu crítico ou analista parece lembrar, embora de maneira muito tênue, o moralista imaginado por Nietzsche, isto é, o sujeito que entende a moral como algo a ser interrogado, um problema, algo que pode ser posto em questão. Para o crítico, o moralizar - como pensa Nietzsche - não soaria imoral? Não obstante sucessivos fracassos, ainda tentamos racionalizar, a duras penas, através da política, nossas paixões. A este respeito, convém uma mirada detida sobre o drama republicano de Shakespeare, Julio César . O assassínio do poderoso romano é arquitetado e tenazmente justificado através de estratagemas retóricos oferecidos ao senso ...

antes de nascer o mundo no aquém-literatura

Mia Couto Durante a leitura de Antes de nascer o mundo , por diversas vezes recordava com surpresa a entusiasmada recepção contemporânea em relação ao ambientalista e escritor branco de Moçambique, Mia Couto. De volta à leitura do romance, apartado do rumor circunstante, era a desconfiança que secundava a surpresa. Com efeito, não consegui verificar em sua escrita motivos para toda essa admiração que alguns dos meus conhecidos faziam questão de manifestar ou, de lápis em punho, anotar em cadernetas guardando para depois. Por outro lado, uma constatação que encontrara, quase à mesma época, no artigo do escritor Nelson de Oliveira, intitulado “Entre o perigo e o conforto” (edição 112 do jornal Rascunho , agosto de 2009), embora não desse conta inteiramente de explicar a onda pró Mia Couto ‒ pois não era este o escopo do texto ‒, ao menos contribuiu para tornar razoável minha crescente incredulidade. Segundo o escritor-crítico paulista, nos dias atuais: “Praticamente não há mais maus escr...

depoimento orumuro

O palindromo "orumuro" serve de ponto de partida para uma série eventos estéticos e intersemióticos. Num primeiro momento, temos o registro fotográfico de uma pichação num muro da metrópole, verdadeiro palimpsesto urbano que de imediato gera uma tradução em outro código: trata-se do poema de Cândido Rolim. Ainda dentro das balizas do código verbal, o poema de Rolim serviu de ponto de partida para o meu texto em diálogo, que, de resto, pode ser lido como uma tradução intracódigo. Assim, começam a ser depositadas camadas e camadas de signos sobre um evento ou sobre um instante do presente precário, produtor de fricções inesperadas e de ficções, onde o real surge como o seu corolário equívoco. Tempos depois, esses primeiros excursos de experimentos discursivos se fundem, aí sim, numa forma de linguagem que em sua essência é de caráter intersemiótico: o registro audiovisual. O videopoema, o clipoema, ou que outra denominação se use, anima os signos do verbal, feito de tipos (i)mó...

jorge ben homem-jongo

Alguém já disse, e com razão, que letra de música não é bem poesia. Entretanto, sei que, ao fim e ao cabo, a recepção, atualmente, tem em alta conta a hibridação dos meios — essa vaga avassaladora a levar e lavar tudo de roldão —, e sendo assim, é natural que se afirme que a poesia, visando a uma espécie de sobrevida, se deixe seqüestrar pela MPB e seus seguidores. Além disso, os poetas sentem-se desinflados demais porque sua visibilidade está longe daquela experimentada pelos compositores populares. É inegável que há um parentesco entre essas formas artísticas, mas cada uma tem a sua semiótica. Elas se encontram (em algum lugar), mas não se confundem. Enfim, para complementar de um modo bem tosco o que, a rigor, mal se constitui numa tese: perece-me que os poetas, de uns tempos para cá, começaram a se intrometer demais nas coisas da música popular; pretendem levar o debate para o andar de cima, para a "cobertura". Eles é que mencionam os nomes de Caetano, Chico, Paul Mccartn...

um despachante da avant-garde

bruce andrews A tradição poética pode ser interpretada como uma infinitude de vozes em atrito que, em fim de contas ou a certa distância, resulta em harmonia, ou melhor: sugere uma coesão dinâmica onde verticalizações sincrônicas restauram o acervo da diacronia para as contingências do agora-agora. Cada poeta ou movimento, na conciliação de suas contradições, representa, portanto, um duplo abreviado de semelhante tradição. Qualquer experiência de linguagem é sempre irredutível e dura em seu centro, nenhuma delas se deixa comparar com facilidade. Mas, o mais das vezes, alguns dos seus funcionários — aqueles que só trabalham em benefício de si próprios — se esforçam em fazer com que elas se aniquilem umas às outras. Pois, cada poeta com sua obra se refere sem reservas (seja como continuação, seja como ruptura) à tradição, e não raro a reivindica apenas para si (seja como seu crítico, seja como seu guarda-costas). Do mesmo modo, jamais conseguirá admitir sua partilha sem anular-se. Entre...

O controle e a afirmação do traidor dilacerado

Sem que isso seja mencionado em seu prejuízo, O controle do imaginário & a afirmação do romance é em princípio um livro voltado para uma audiência acadêmica, já que até certo ponto, para a sua compreensão, se requer o conhecimento de obras anteriores do autor mais afeitas aos cânones da instituição. Mesmo no design da capa se denuncia essa medida de livro — com suas quase quatrocentas páginas — ofertado à cobiça professoral e científica. Os motivos mondrianescos ajustados aos quadrículos coloridos, alguns cortados diagonalmente; a alusão ao concretismo publicitário enquanto estilema gráfico-visual, presente no lirismo de diagrama a evocar as “bandeirinhas” de Volpi, e que, agora, na prateleira das livrarias, exposto ao olhar do leitor compenetrado, dir-se-ia tratar-se de um livro de lógica, de análise das estruturas do discurso, enfim, dessas coisas que demandam anos de dedicação, e que só podem ser levadas a cabo pelo pathos meticuloso de secretários do castelo. Vale dizer, ainda...