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traços de anelito de oliveira

O pensamento-arte de Traços Ronald Augusto [1] A história das ideias registra algumas ocorrências, mas não muitas, de estudos devotados a investigar as relações entre poesia e filosofia. A julgar pela escassez dos empreendimentos críticos relativos ao tópico, talvez cheguemos à conclusão de que a tarefa seja, de fato, árdua ou, ao contrário, perfeitamente desinteressante. Uns poucos filósofos (María Zambrano, Theodor Adorno, Benedito Nunes...) dispensaram atenção ao problema e outros poucos escritores mais ironizaram a coisa do que a levaram a sério. Jorge L. Borges, por exemplo, diz que a filosofia não é senão um gênero literário. Para Ezra Pound, a logopeia – a dança do intelecto entre as palavras –, essa forma, entre outras, de carregar a linguagem de significados, oferece ao poema as condições para que ele se desvele como um experimento também filosofal; que o poema instaure o seu modo de filosofar. A verdade é Que o mundo Não cabe dentro Do silêncio Em al...

onde ogum limalha

o ogum a quem devoto um ou outro oriki não empunha espada, não nem é espadaúdo tal qual os semideuses da marvel entretenimento nem tem a musculatura de estopa dos grandalhões do cinema mudo rabo-de-lagarto, pontuda planta de mosqueado verde quando é dita de ogum grossa, com borda de ouro quando é dita de iansã é o análogo com que ogum se deixa conceber a quem exige que pose com espada premida na palma em brasa ogum não se paramenta de soldado medieval o vermelho e o verde sabem sempre a ogum elmo, guante de dragão são saliências de cristão com que ogum não se arruma bananeira de pendão rubro um galo e seu esporão de ferro uma folhagem escarlata chamejante que estala uma figueira e seus galhos de tenazes o ferrão da bigorna onde ogum faísca onde ogum limalha

para dona ivone

[como ficou] oriki para dona ivone samba o miudinho devagar demoradinho abala a cartografia do terreiro que desborda o cavaco não cochila no colo da mãe grande avisa lá no império é ela que risca o tapete desde já a velha vanguarda masculina do samba não se presta mais ao mero filosofar do caralho * [como era] oriki para a dona ivone samba o miudinho devagar demoradinho abala a carta geográfica da terra não dorme o cavaco no colo da mãe grande avisa lá no império que era uma vez que a velha guarda masculina do samba desde então não é mais aquela

o cosmo e o corpo

O cosmo e o corpo, distantes e jungidos Ronald Augusto [1] Pound cita um estudioso da Odisseia que teria demonstrado que a geografia do poema é correta, ou seja, que ela seria produto da experiência de um sujeito conhecedor de navegação e que tivesse feito de fato o périplo. Dante conjuga em sua Commedia os saberes da ciência, da teologia e da filosofia da Idade Média. Sousândrade no poema em muitas vozes Inferno de Wall Street , se antecipando a Pound, incorpora o assunto econômico à aventura do poema. Lanço mão dessas referências recuperadas à tradição para dizer que, desde a primeira leitura, O cochilo do céu despertou meu interesse porque seu autor, Marcel Fernandes, à exemplo desses grandes poetas, também se compromete com um conjunto de signos que em alguma medida não parecem típicos do gênero. Sem prejuízo de outros temas e campos semânticos, O cochilo do céu reúne muitos poemas nos quais são transfigurados tópicos da física e da astrofísica contemporâneas. ...

a ressaca do futebol

A cachaça e a ressaca do futebol Ronald Augusto [1] Como já estamos cansados de saber, a temporada futebolística começa com os campeonatos estaduais. Por uma estúpida coincidência, casos de violência dentro e fora das quatro linhas têm início na mesma época. Não é mesmo surpreendente? Em função disso, inicialmente, convido o leitor a refletir sobre o problema do torcedor-tipo de futebol. Grosso modo ele é racista, homofóbico, misógino. O torcedor é covarde. Sua suposta valentia se deve à multidão da qual se nutre, nela o torcedor está imerso e protegido. Ele é um pequeno déspota. O torcedor é uma criança grande e mimada, isto é, um sem-educação que não sabe lidar com o revés ou com a frustração. Ofensivo, intimidador, desrespeitoso, são alguns dos predicados do torcedor. O torcedor é um devoto de uma religião de bárbaros. O torcedor é um problema social. Ele não pensa, apenas reage. O torcedor não sabe fazer distinções. Essa espécie de torcedor é um tremendo acidente na...

um roteiro previsível

a pesquisa no google o carnavalesco curvado sobre a escrivaninha um roteiro previsível a partir de uma bibliografia ultrapassada a súplica ao todo poderoso a escravidão o holocausto negro as focinheiras a chibata a dor a tortura uma enfiada de clichês os traços hagiográficos implicados na representação o modelo escrava isaura a sabedoria do preto velho que acolhe o moçoilo de olhos claros que amansa o feitor enquanto o redime a redenção a pasteurização do #somostodosescravos após a reforma trabalhista a ideia fraca de que o brasil (leia-se a branquesia) até hoje não sabe direito o quanto há de crueldade e assassínio nessa história (por isso tanta redundância, tanta reificação) mas onde esteve o brasil durante todo esse tempo enquanto o pior acontecia?

espiral zeosória

espiral zeosória   [poema do livro inédito Entre uma praia e outra ]                                                                                          findo abestalhado    acabado e acabo de ler zeosório blues de edimilson de almeida pereira e só presto agora para anotar passar a essas linhas um pouco da zoada que este livro   alto volume   provocou no oco da minha idéia no início (narciso ) parecia estar lendo lambendo livro-primo do meu homem ao rubro a oralidade atravessada a gramática anômala a sintaxe pé-de-chinelo (sub úrbio orbitante exorbitante) mescalino-canora mesclada a uma esgarçada algaravia roseana hummm mas essa referência assim-assim “fora de lugar” queda bastant...