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Mostrando postagens de Agosto, 2008

a poesia entrevista (concedida ao poeta paulo de toledo, 2006)

paulo de toledo e eu Para que serve a poesia? Esta pergunta me trás à memória o poema “O porto sepulto” de Giuseppe Ungaretti, do qual destaco o seguinte trecho: “Di questa poesia/ mi resta/ quel nulla/ d’inesauribile segreto”, que me permito tresler assim: poesia, essa coisa nenhuma de inexaurível segredo. A poesia não serve para coisa alguma, nem se presta à transmissão de mensagens. Seu fazer parece querer ficar rente àquelas zonas mais obscuras e imprecisas da experiência. Seu movimento sígnico em realidade busca não dissimular, mas sim problematizar, um aspecto crítico da linguagem, ao qual não se dá a devida atenção, a saber: esta crença infundada de que só a linguagem articulada e seu corolário – uma objetividade desinteressada e quase transparente -, é capaz de iluminar e decodificar o íntimo dos seres e das coisas. Na prática, o resultado é bem outro. Tal pretensão de desvelamento acaba, ao contrário, projetando sombras de sentido e mal entendidos em torno à totalidade dos

máquina zero na cabeça

Os mais arrivistas estão convencidos de que o alto modernismo chegou ao seu limite, e com atraso. No entanto, o baixo modernismo (como contemporaneidade diluidora) a que estamos sujeitos, é experimentado - ou, melhor dizendo -, degustado com uma indulgência de tal ordem, que só seria de causar estranheza se não a entendêssemos como uma espécie de cópia carbono, mas pelo avesso, de um mesmo estado de espírito que, com relação ao modernismo, sempre se mostrou supercilioso, quando não contrário. Sobre Máquina Zero (Scriptum Livros, 2004), entre tantas outras coisas, uma poderia ser adiantada: é um livro não-indulgente com relação ao seu entorno político-sócio-cultural. Contudo, Ricardo Aleixo, coeso com essa apetência mefistofélica que conquista para si na fatura da obra em apreço, sabe que a crítica e o escárnio que a animam só ganham sentido porque ele se reconhece implicado nos horrores dos espetáculos cult e provinciano que traz à baila. Ou melhor, como escreve Sebastião Nunes no

manifesto antropófago, um jovem clássico de 80 anos

Gravura de Theodore de Bry, 1592 O Plano-piloto para poesia concreta , a Tropicália , o teatro de José Celso Martinez, o Antunes Filho da consagrada e transgressiva montagem teatral do Macunaíma (derivação canibal da linguagem do outro Andrade) da década de 1980, a XXIV Bienal de 1998, cujo tema oficial foi a “Antropofagia”, são exemplos consumados e objetivos que por si mesmos já se revelariam suficientes para comprovar, para o bem e para o mal, a efetiva permanência do pensamento-arte do poeta Oswald de Andrade no panorama das reflexões e fatos culturais brasileiros que atravessam o anterior e alcançam, inclusive, o presente século. Com efeito, a álacre vivacidade sintético-crítica da ensaística do movimento concreto da primeira hora, é haurida na doutrinação cubo-futurista da prosa por justaposição dos Manifestos de Oswald. De outra parte, a canção popular a partir das décadas de 1950/60 ganha outras dimensões com as radicalizações da Bossa nova e da Tropicália . Evoco aqui

só a tresleitura nos une

Uma caixa contendo dois exemplares do romance-monumento O Homem sem Qualidades do escritor austríaco Robert Musil (1880-1942), com mais de trinta mil e trezentos dos seus adjetivos riscados com meticulosidade do mapa do texto, constitui a obra em dobro O Homem sem Qualidades, Mesmo e O Homem sem Qualidades, Mesmo Assim ..., de Elida Tessler, exposta em Heteronímia Brasil , coletiva realizada no Museu da América na cidade de Madri (de maio a setembro de 2008). O trabalho em questão da criadora do Torreão - um importante espaço do pensamento-arte em Porto Alegre -, me induz, para começo de conversa, a uma interpretação que, em certa medida, não traz em si grande novidade, nem chega a ser, por outro lado, impertinente o suficiente a ponto de vedar novas veredas hermenêuticas a serem exploradas, inclusive por outros interessados. Vale dizer, temos aí uma calculada disrupção duchampiana implicada na intenção da artista ao riscar todos (ou quase todos) os adjetivos utilizados pelo