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Mostrando postagens de Setembro, 2012

entre os cinco por cento

por  Régis Bonvicino Na verdade,   Cair de costas   é, do ponto de vista editorial, o primeiro livro de poemas de Ronald Augusto, porque reúne cinco plaquetes, lançadas a partir dos anos 1980, com tiragens pequenas, que propunham a leitura de sua poesia aos amigos.   Cair de costas   reúne a parte de formação do trabalho do guitarrista da   banda os poETs . Não há, em   Cair de costas , inovações formais ostensivas na aparência, embora essa poesia não seja nostálgica ou   grandiloquente , com temas   kitsch . Ronald vale-se, genericamente, dos recursos legados pelo modernismo (1922), pelo concretismo (1956)  e pela dicção direta das letras de mpb e   rock and roll   dos anos 1960. Os poemas são breves, caligráficos ou curtos, estes mais discursivos. A poesia brasileira chamada “contemporânea” constitui-se em uma massa informe de poemas em prosa, cortados em linhas. O nome dos autores são diferentes, entretanto, os poemas são quase todos iguais. E irrelevantes. Tal prod

Cair em pé

por Ricardo Silvestrin [1] É um mistério (e, como tal, o barato é que não se explique) a feitura do poema de Ronald Augusto. Fico pensando como o referido  poeta cria esses ruídos de sentido dentro do seu poema. É de caso pensado? Sacanagem mesmo pra cima do leitor? Ou vem do caminho, da dicção interna do que está sendo criado? Tendo a ficar com essa última hipótese. Como se, na oficina do poema, sobre a mesa, palavras avulsas, aparentemente fora da conversa, se olhadas por um outro ângulo, seriam as melhores a entrar. Assim flui a nossa leitura em muitos do seus poemas. Íamos por um caminho e, quando vemos, acabamos em outro, que pode até ser o mesmo, mas com outra paisagem. Isso tudo e muito mais está na reunião  Cair de Costas , em que Ronald traz de volta sua produção editada entre 1983 e 1992. . Como acompanho sua trajetória mesmo antes de conhecê-lo pessoalmente (amizade que já dura décadas), reler o conjunto trouxe duas impressões novas que, na leitura ao viv

sons e pausas em Tambores pra n’zinga

Denise Freitas e Ronald Augusto [1] Desde o título, Tambores pra n’zinga [2] , até o que, feito um farfalhar de sentidos, se desprende dos poemas enfeixados entre suas capas – poemas que, às vezes, “dizem” mais o rumor de um discurso do que uma música em devir – nos tornamos mais ou menos cientes do que o livro de fato comunica? Não. Pois o que se dá e o que não se dá pelas forças das relações estabelecidas, o que não cabe durante nem após a expedição de conquista da leitura, enfim, mesmo ao afortunado intérprete a quem os sentidos de Tambores pra n’zinga se presentificassem na figura do compreensível, o que a linguagem de Nina Rizzi comunica, felizmente, é muito pouco. Em poesia a coisa que interessa não diz respeito à comunicação, o que vale a pena nesse jogo jamais é enunciado. Mas tudo isso representa uma parcela dessa interpretação que se precipita agora mais para as senhas requeridas ao apetite do impreciso. A propósito disso, a pluralização dos advérbios quand

A fabulação da tribo em Totens

Sergio Medeiros considera a floresta um totem, outro totem referido e reproposto via linguagem em sua poética é o bafo do verão, bem conhecido dos brasileiros e experimentado como epifania pelo autor em algum ponto ignoto do Mato Grosso do Sul. Na nota de introdução à obra o poeta explica que aprendeu com os bororos a “cultuar infinitos totens: o totem-rio, o totem-larva...”. E esse aprendizado, conforme depoimento de Haroldo de Campos em entrevista, é que confere a Sergio Medeiros esta condição ou o encargo de sonhar, de fabular pela tribo (nós leitores?) os sonhos em que nos reconhecemos ainda que, às vezes, pelo avesso. Com efeito, na primeira seção de Totens Sergio Medeiros se encarrega de formular sua colagem ficcional vertida em uma série de narrações bastante imagéticas por meio da lógica fabular que inere aos sonhos. Em outro hemisfério e cronologia o poeta W. H. Auden, ao alcançar a maturidade – felizmente não amortecida –, julgou importante enveredar por uma poétic

Luta + vã: poemas que exigem seu canto

Digamos que em um primeiro momento a perspectiva poética de Álvaro Santi se avizinhe de uma angústia drummondiana, afinal, o título da reunião enseja, ainda que de maneira apressada, tal leitura. Contudo, o motivo que informa o poema “O Lutador”, de Drummond, cujos primeiros versos dizem: “ Lutar com palavras/ é a luta mais vã/ entanto lutamos/ mal rompe a manhã ”, motivo do poeta ensimesmado, considerando os limites e as possibilidades expressivas do seu sistema de signos, não é propriedade do poeta de Itabira. Mais do que uma tópica assinalável em diversos momentos da tradição, onde escrever sobre escrever acaba por se consagrar como mais um “assunto” para a fatura do poema, trata-se, antes, para o poeta, de sua conquista da consciência de linguagem e, da mesma forma, da noção da fungibilidade da poesia enquanto constructo tipicamente humano. A linguagem de poucos instantes da poesia moderna, relativamente à língua de todos os instantes da prosa, não se presta mais à imag

José Weis e o ideal de rejeição de Lenhador de samambaias

Ronald Augusto [1] Num ensaio muito interessante dedicado ao poema dramático de Mallarmé L’après-midi d’un Fauno (1865-1876) e as sucessivas versões a que foi submetido desde sua primeira recusa para ser encenado, Décio Pignatari aventa a hipótese de que o poeta simbolista concebeu essa aventura criativa como uma “antiestocástica do poema”. Pignatari define assim o processo estocástico: “uma aproximação gradativa a uma mensagem desconhecida, a partir dos dados de um código conhecido”. Outro exemplo fornecido pelo crítico seria o do progressivo ajuste de foco de uma imagem, o movimento de “um desfoque máximo para um foco otimizado.” [2] Mallarmé respondeu a cada recusa ao poema (cuja recepção crítica censurava como peça obscura e ininteligível) dando-lhe um tratamento sempre mais e mais distante de uma configuração apropriada a um texto encenável. Por uma série de supressões sintáticas e lexicais o poema foi perdendo comunicabilidade dramática e ganhando em elip