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Mostrando postagens de 2011

onde não há facilidade

Para o leitor, o poema se apresenta, numa primeira aproximação, como que vertido em língua estranha, mas ao mesmo tempo remotamente familiar. Na comunicação poética, a imagem da leitura como algo rente ou similar à operação tradutória se impõe de modo decisivo. A comunicação poética pressupõe certa dose de intraduzibilidade, de hermetismo, a partir de uma condição de limite disciplinador imposto pelo jogo de relações requerido pelo poema. Mas tal dilema – a razoável impenetrabilidade da poesia – se resolve, por outro lado, no momento em que o leitor-poeta assume a responsabilidade pela co-autoria daquele texto, por meio de um gesto de interpretação livre. Espécie de tradução-leitura envolvente convertida em transcriação (para usarmos aqui um conceito de Haroldo de Campos). É desde esse ponto de vista que me disponho a ler os poemas em processo que Denise Freitas, desde 2010, vem publicando em seu blog http://www.sisifosemperdas.blogspot.com/ . Com efeito, a menção lateral que

relatos de um corvo sedutor

péricles prade a íntegra desse texto em: http://www.revistaosiris.com.br/dossie-critica-ronald_augusto.html (...) A partir de agora pretendo dividir com o leitor minhas ilusões a respeito de Relatos de um corvo sedutor . E o que consegui entesourar de tal empresa vai aqui escrito. O livro pode ser apresentado como uma sorte de texto-suma onde Péricles Prade, por meio de um proliferante kinema em prosa, passa a limpo o seu repertório intelectual-vivencial com um apetite de antropófago. Como se fora o bufão de si mesmo ou, ainda, como um Machado de Assis em “estado alterado de consciência”, o texto de Prade é produto de um “bucho ruminante”. Um bruxo ruminante? Mas antes de seguir adiante, umas notas de leitura a um dos seus precursores. “Desocupado lector...”, assim se inicia o prólogo do Don Quixote , mas o prólogo é um simulacro, na verdade já estamos em meio a narrativa. Logo de saída Cervantes convida o leitor a abandonar, por um momento, a hipnose romanesca. O leitor é

a compaixão mais forte

o poeta edson cruz O que é e já foi, um dia, o homem – ou o ego scriptor de – Edson Cruz, está muito bem presentificado via linguagem (sistema que se exaure e se renova a cada gesto poeticamente crucial) nesse conjunto de poemas intitulado Sambaqui . Se o poeta, parafraseando um trecho do poema “Caravana solitária”, por meio do desatino da linguagem, consegue “acariciar” o seu próprio destino, isso tem a ver com as limitações inerentes ao objeto verbal de que se serve, pois “as palavras não sabem/ nem saberão...” dar conta dos sentidos (e não do sentimento) do mundo. A poesia de Edson Cruz faz menção lateral à humildade (enquanto estilo poético) de Manuel Bandeira, uma compaixão mais forte, desonerada de qualquer martírio ou inação contemplativa. O poeta está comprometido e em ação, mas sempre com e via linguagem: “tantas intenções projetadas/ e continuamos a tatear/ redundâncias”. Edson faz crítica através da linguagem, isto é, através dos jubilosos equívocos semânticos que nutrem

a segunda parte da entrevista ao joão pedro wapler do Café

O seu mestre na poesia nacional eu sei que é Manuel Bandeira. Mas no campo internacional, qual o poeta que você tem mais identificação? Na perspectiva da figura do poeta-crítico, isto é, aquele sujeito que pensa as imposturas e as virtudes do fazer poético numa relação viva com a tradição, minha referência é Ezra Pound. Já em termos de singularidade de linguagem, isto é, os poemas realizados e contidos em livros, que deixo ao alcance da minha mão, cito Dante e Mallarmé. Você tem o seu trabalho solo como cantor/compositor e também faz parte dos poETs . Qual o prazer que a música lhe traz que é impossível de ser preenchido pela poesia? A convivência mesma com músicos, que são infinitamente menos chatos que poetas. A música me garante uma pausa saudável no verbal e na vaidade que, misturada à inteligência, vira desprezo. Seu trabalho como crítico é bastante prolífero. Você escreve com frequência no site Sibila e nos seus blogs Poesia Coisa Nenhuma e Poesia-Pau . Você acha que na pós-mode

pausa para o café

uma entrevista divertida que concedi ao poeta joão pedro wapler http://ocafe.com.br/ Você é poeta, músico, compositor, crítico literário e professor. A pergunta pode parecer um pouco conservadora, mas vai lá: em que ordem de importância essas atividades estão hierarquizadas na sua vida? Respondo com algum conservadorismo afetivo e ao mesmo tempo levando em conta questões objetivas. Ou seja, em função da antiguidade e de uma “educação dos cinco sentidos”, a poesia e a música seriam mais importantes, no entanto, nos últimos tempos tenho me aplicado mais na atividade crítica, inclusive porque tenho sido solicitado mais nesse aspecto. Na prática, hoje, todas são importantes, pois vou atendendo às demandas internas (minhas) e externas (alheias) que surgem a partir de cada vertente; há um momento para cada coisa, uma oportunidade para cada uma dessas personas. A poesia como gênero está, em muitas instâncias, mais próxima de outras manifestações artísticas do que da própria litera

A falência da poesia e do crítico moralizador

Embora o exercício da crítica literária – que não é senão uma forma de fazer relações sígnicas e de interlocução parcial a partir de um objeto verbal construído seja sob que motivação social, individual ou metafísica, enfim, desde os contornos de uma objetividade em perspectiva ou, ainda, desde uma subjetividade tornada precisa: o poema mesmo, coesão fundo-forma –, enfim, embora essa crítica me interesse muito, sei que se trata de um texto segundo, subsidiário, uma forma discursiva circunscrita a margear os rastros da linguagem do poeta (se não soasse retrô eu poderia dizer genericamente “do artista”, envolvendo outros modos de expressão, mas esse comentário se restringe, infelizmente, às coisas da poesia). Talvez me acusem de reducionismo, mas, encurtando o caminho, prefiro concordar com a ideia de que a crítica é tão-só mais uma forma de paratexto, ou seja, no sentido em que, segundo Gérard Genette, “o ‘paratexto’ consiste em toda série de mensagens que acompanham e ajudam a expl