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Mostrando postagens de 2018

o machado de axévier

[Arnaldo Xavier, 1948-2004] O Machado de Axévier Ronald Augusto [1] Debater as condições de possibilidade de uma literatura negra e, paradoxalmente, não situá-la à margem da nossa tradição literária, como se essa produção de escritores negros aludisse a alguma forma de essencialismo, não é o que nos interessa aqui. Por outro lado, é necessário afirmar que essa literatura, além de se comprometer, o quanto possível, com a instauração de um idioleto literário, com suas linguagens, inflexões e temas irredutíveis e com os riscos decorrentes de tal empreitada, ou seja, os variados objetos poéticos enfeixados no corpo da literatura negra até agora, mais do que se constituírem em um restrito ismo , têm colocado no centro da discussão o conceito de uma literatura universal . Universalidade esta que, enquanto conceito – e do ponto de vista da vontade de estabilização de um determinado estado de coisas –, leva em seu bojo a presunção de falar sem sombra de ruído a todos os hom

O trágico como vacilo de linguagem

O trágico como vacilo de linguagem Ronald Augusto [1] Aristóteles, em sua Ética a Nicômaco , afirma o seguinte: “Não se deve procurar indiferentemente o mesmo rigor em todas as discussões”. Por outro lado, o desprezo total a uma medida necessária de rigor – lógico, e não rigor mortis – em nossos julgamentos e interpretações, pode levar a resultados, no mínimo, desagradáveis. Neste sentido, isto é, na perspectiva de validação de julgamentos e interpretações, talvez seja possível afirmar que a tragédia funda a necessidade da lógica; a necessidade de comprovação dos discursos, a comprovação das prescrições e das profecias. Essa é uma tese defendida por alguns autores, ou seja, podemos reivindicar a noção de que o “erro de linguagem” – um vacilo interpretativo, por assim dizer – está na fonte do princípio trágico. Dito de outro modo, o que o herói trágico pensa sobre o mundo e o que ele predica a respeito dos fatos em que se vê implicado nem sempre concordam, em última aná

fortuna crítica: entre uma praia e outra

Generosa e inflexível Guto Leite [1] Escrever a apresentação para um livro de poemas do Ronald Augusto é, antes de tudo, compartilhar da responsabilidade de fazer com que a leitora ou o leitor leve pra casa a obra de um dos maiores escritores contemporâneos do país e que por vários motivos, que vêm ao caso, não goza desse estatuto. Entre uma praia e outra é mais um dos grandes livros recentes do poeta, só que mais robusto, um ponto de chegada de um trabalho cerrado e de excelência. O que o faz chave para a leitura deste tempo, ouso dizer, são suas radicalidades. A primeira: ao investir na independência da palavra em relação ao que expressa e da forma poética em relação ao mundo. O poema não se coloca como continuidade de nossas vidas, mas nos objeta. A segunda: ao tratar de mesma forma o leitor. O poema não embala o leitor. O poema não se curva ao leitor. O poema não serve ao leitor. O poema é um outro. O leitor precisa sair de si para desvendar os termos, a disp

na encruzilhada

na encruzilhada 1 tebanos morrem às próprias custas sicários do gozo que lhes ressaca atados a deuses dilacerantes e dilacerados tebanos imolam-se jaculatórios  2 diasporitanos que macumbeiros que batuqueiros de juízo e inhame inalam o odor do milho amarelo o repinique da branca pipoca frutas escarificadas gume de eguns galinhas ruivas que apodrecem sua substância sacrificial no pavimento úmido e irregular altar alterno

como eu escrevo

Entrevista publicada originalmente no site COMO EU ESCREVO , idealizado e administrado por José Nunes. Como você começa o seu dia? Você tem uma rotina matinal? Começo o meu dia feito todo mundo, acho. Não tenho uma rotina. Tenho, por enquanto, bastante tempo livre e isso me agrada. De preferência evito compromissos pela manhã. Em que hora do dia você sente que trabalha melhor? Você tem algum ritual de preparação para a escrita? Trabalho em qualquer hora. Não tenho ritual nenhum para começar a escrever. Você escreve um pouco todos os dias ou em períodos concentrados? Você tem uma meta de escrita diária? Um pouco de cada coisa. Não tenho meta. Nem sabia que essa categoria do ramo empreendedor , isto é, a “meta”, tinha se tornado importante para a literatura ou para a prosa. Como é o seu processo de escrita? Uma vez que você compilou notas suficientes, é difícil começar? Como você se move da pesquisa para a escrita? Há situações – nem sempre – em q

mohino

O artista de segunda categoria se submete tanto aos elogios quanto à opinião ruim ou desvantajosa a respeito do seu trabalho. Mas este artista, todavia, não desceu até o mais baixo tanto quanto um seu equivalente insiste em fazê-lo, e sem desprezar alguma perícia nesse exercício. Refiro-me, aqui, ao representante daquela classe de artistas cuja vulgaridade já não se importa mais com as alternativas dos elogios e das opiniões desfavoráveis que sua obra ocasionalmente venha a suscitar. Pois esse consumado artista medíocre do nosso tempo se socorre antes das eventuais somas em dinheiro oferecidas pelos prêmios e da publicidade decorrente, do que de um reconhecimento estético adjacente a um julgamento crítico devotado ao seu trabalho, seja feito pelo público em geral, seja feito por um conjunto de especialistas que, para a saúde de todos, sempre serão questionados e questionáveis. * Escena II Lope de Vega, 1562-1635 Leonelo     [...]                        Ma

traços de anelito de oliveira

O pensamento-arte de Traços Ronald Augusto [1] A história das ideias registra algumas ocorrências, mas não muitas, de estudos devotados a investigar as relações entre poesia e filosofia. A julgar pela escassez dos empreendimentos críticos relativos ao tópico, talvez cheguemos à conclusão de que a tarefa seja, de fato, árdua ou, ao contrário, perfeitamente desinteressante. Uns poucos filósofos (María Zambrano, Theodor Adorno, Benedito Nunes...) dispensaram atenção ao problema e outros poucos escritores mais ironizaram a coisa do que a levaram a sério. Jorge L. Borges, por exemplo, diz que a filosofia não é senão um gênero literário. Para Ezra Pound, a logopeia – a dança do intelecto entre as palavras –, essa forma, entre outras, de carregar a linguagem de significados, oferece ao poema as condições para que ele se desvele como um experimento também filosofal; que o poema instaure o seu modo de filosofar. A verdade é Que o mundo Não cabe dentro Do silêncio Em al

onde ogum limalha

o ogum a quem devoto um ou outro oriki não empunha espada, não nem é espadaúdo tal qual os semideuses da marvel entretenimento nem tem a musculatura de estopa dos grandalhões do cinema mudo rabo-de-lagarto, pontuda planta de mosqueado verde quando é dita de ogum grossa, com borda de ouro quando é dita de iansã é o análogo com que ogum se deixa conceber a quem exige que pose com espada premida na palma em brasa ogum não se paramenta de soldado medieval o vermelho e o verde sabem sempre a ogum elmo, guante de dragão são saliências de cristão com que ogum não se arruma bananeira de pendão rubro um galo e seu esporão de ferro uma folhagem escarlata chamejante que estala uma figueira e seus galhos de tenazes o ferrão da bigorna onde ogum faísca onde ogum limalha