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Mostrando postagens de 2009
http://palavraria.wordpress.com/ Abertas as inscrições para a oficina Linguagem: o lugar da poesia com Ronald Augusto 5 encontros: 06, 13, 20 e 27 de janeiro e 03 de fevereiro de 2010, sempre às quartas, das 19 às 21h Informações & Inscrições: Com Ronald Augusto, dacostara@gmail.com Trata-se de uma oficina composta por experimentos práticos, onde os participantes escrevem e lêem seus textos o tempo todo, estabelecendo um ambiente de interlocução entre lúcido e lúdico, um jogo de interpretações e de trocas constantes, sem formalidades ou hierarquizações. Nos encontros serão feitas leituras recíprocas entremeadas por conceitos da função poética da linguagem. O objetivo é despertar o olhar crítico-criativo do escritor para a ideia de que existe uma arte da palavra que envolve tanto a poesia como formas menos comerciais de prosa. As referências são variadas, de Manuel Bandeira a Clarice Lispector, passando pela poesia concreta e Ferreira Gullar, chegando até os escritores contemporân

quando o carnaval chegar

Carnaval e tolerância. O treino social encerra forte carga afetiva. A visibilidade dos negros durante o período momesco é tolerada e inflacionada (masoquismo), apenas para confirmar a regra de deflação da sua existência-presença (sadismo) subalterna no restante do ano fiscal. A mulata transfere sua “natureza” à categoria de um rendoso “emprego temporário” durante os dias de folia. O passista-gari confirma a impossibilidade de que um convencional “ócio criativo” possa vir a ser gozado um dia pelos representantes meio brancos da classe média-alta brasileira que se penaliza por não possuir a ginga, por não ser cool o bastante, etc. Portanto, só lhes resta, mesmo, abandonar-se ao trabalho, à especulação, aos seus privilégios históricos e à defesa da meritocracia no livre embate da mobilidade sócioeconômica. Dizem que o gari, tolerado enquanto celebridade (e posam ao lado dele!), é o Othello (shakespeariano e não o pequeno Grande Otelo) sem ressentimento da nossa brasilidade de “cadinho

atores pensando

fotograma de "quando fala o coração", de alfred hitchcock Poesia e prosa são as duas faces da moeda da arte da palavra. Um poeta deveria conhecer o mínimo indispensável no que concerne à prosa, por outro lado, o mesmo procedimento (no caso o movimento em direção à poesia) deveria ser adotado pelo prosador. Essa conjunção tem resultado em grandes experiências: a poesia modernista se precipita em direção a uma forma mais vertiginosa de prosa por meio do coloquial; romancistas como James Joyce e Guimarães Rosa foram também poetas de primeira linha. É importante incorporar as virtudes das demais linguagens. Pois, antes de virar, de uma vez por todas, cinema ou ação pura (como nos sugere a prática de muitos recentes prosadores), a prosa deveria confinar um pouco mais com a sua oposição complementar, isto é, a poesia. Mas o quadro aqui esboçado tem a ver com as determinantes de um tempo audiovisual. Entretanto, a prosa também não despreza as questões formais. O que acontece é

analistas fanfarrões

Recentemente, um crítico maledicente escreveu — mais ou menos nestes termos —, que diante do suposto desprestígio experimentado pela poesia concreta em nossos dias, já poderíamos pôr de lado, enfim, o nome de Max Bense. A opinião do comentarista denuncia no mínimo uma forma sutil de covardia intelectual. Pois se Bense ― supondo que tenha sido mesmo uma impostura ― só mereceu estar na ordem do dia do pensamento estético das últimas décadas mercê da militância concretista, e, além do mais, sem que ninguém demonstrasse peito suficiente para se contrapor a isto, mais indigente se revela ou se revelaria, então, o establishment literário e cultural do período. De outro ponto de vista, o argumento ardiloso do crítico desconsidera um traço de extrema importância do movimento da poesia concreta. Vale dizer, junto aos importantes poemas legados pelo movimento, muitos dos quais já incorporados, inclusive, ao acervo poético das últimas décadas, consta o repertório teórico-crítico trazido pelo

clowndaniel

Um dos defensores obtusos da poesia concreta enquanto mero ismo , e no momento talvez o eunuco mais ativo dos “irmãos Campos”, chama-se Cláudio Daniel. É, no mínimo, engraçada a sua trajetória de poeta e de crítico, supondo que o meu desafeto — ele me inclui entre os bárbaros que escrevem para Sibila — mereça ser assim apontado nas ruas. Somos, mais ou menos, da mesma geração e, portanto, devido a essa contigüidade acompanhei desgraçadamente seus primeiros passos de afirmação e de tentativa de reconhecimento entre os seus iguais. Se a memória não me engana, na década de 1990 assinava uma coluna no Poiésis , tablóide, já à época kitsch , de literatura e afins, publicado no Rio de Janeiro. Notável também, daquele ponto até aqui, sua perseverança num modo de abordagem das questões poéticas, sejam anteriores ou atinentes ao período, que consistia e consiste em reprisar os pontos de vista dos seus mestres dentro de um caminho já devidamente pavimentado por eles ou por outros seguidores

sobre a poesia de cândido rolim, um papo

cândido rolim PAULO ALEX SILVA SOUZA - Você acredita que há efetivamente uma crise da razão, o que leva ao ressurgir da fala dos mitos na poesia? Em caso afirmativo, qual resposta reclama essa crise? Ronald Augusto - A condição de crise é como que a “razão de estado” da razão. Isto é, desde que a razão tornou-se Razão, ela se nutre das suas contradições. Se uma “fala dos mitos” se levanta de maneira a resolver uma tal crise, isso me parece uma resolução com algum grau de consciência. Há um precipitar-se nesta direção. A rigor, em poesia, não há essa fratura definitiva entre a razão e a fala dos mitos. Cito por exemplo dois poetas que talvez, nesse ponto, pudessem ser confrontados comparativamente com o Cândido Rolim: Fernando Pessoa, do livro Mensagem, e Paul Valéry - não por acaso autores de filiação simbolista. O poema na pele de coisa-signo encarnado, em detrimento da tradição livresca que o apresenta como sublimação seja dos humores da emoção, seja dos labirintos da razão,

política não tem fim felicidade sim

homero As qualidades dos heróis homéricos são exaustivamente representadas e cantadas pelo aedo. O político de sucesso é aquele que soube publicar e fazer a propaganda (às vezes enganosa) das suas realizações. Sua “coerência de vida e sua defesa dos interesses da nação” são, por dever, notoriamente conhecidos. O político precursor faz as vezes do moralizador. O seu crítico ou analista parece lembrar, embora de maneira muito tênue, o moralista imaginado por Nietzsche, isto é, o sujeito que entende a moral como algo a ser interrogado, um problema, algo que pode ser posto em questão. Para o crítico, o moralizar - como pensa Nietzsche - não soaria imoral? Não obstante sucessivos fracassos, ainda tentamos racionalizar, a duras penas, através da política, nossas paixões. A este respeito, convém uma mirada detida sobre o drama republicano de Shakespeare, Julio César . O assassínio do poderoso romano é arquitetado e tenazmente justificado através de estratagemas retóricos oferecidos ao s

antes de nascer o mundo no aquém-literatura

Mia Couto Durante a leitura de Antes de nascer o mundo , por diversas vezes recordava com surpresa a entusiasmada recepção contemporânea em relação ao ambientalista e escritor branco de Moçambique, Mia Couto. De volta à leitura do romance, apartado do rumor circunstante, era a desconfiança que secundava a surpresa. Com efeito, não consegui verificar em sua escrita motivos para toda essa admiração que alguns dos meus conhecidos faziam questão de manifestar ou, de lápis em punho, anotar em cadernetas guardando para depois. Por outro lado, uma constatação que encontrara, quase à mesma época, no artigo do escritor Nelson de Oliveira, intitulado “Entre o perigo e o conforto” (edição 112 do jornal Rascunho , agosto de 2009), embora não desse conta inteiramente de explicar a onda pró Mia Couto ‒ pois não era este o escopo do texto ‒, ao menos contribuiu para tornar razoável minha crescente incredulidade. Segundo o escritor-crítico paulista, nos dias atuais: “Praticamente não há mais maus es

depoimento orumuro

O palindromo "orumuro" serve de ponto de partida para uma série eventos estéticos e intersemióticos. Num primeiro momento, temos o registro fotográfico de uma pichação num muro da metrópole, verdadeiro palimpsesto urbano que de imediato gera uma tradução em outro código: trata-se do poema de Cândido Rolim. Ainda dentro das balizas do código verbal, o poema de Rolim serviu de ponto de partida para o meu texto em diálogo, que, de resto, pode ser lido como uma tradução intracódigo. Assim, começam a ser depositadas camadas e camadas de signos sobre um evento ou sobre um instante do presente precário, produtor de fricções inesperadas e de ficções, onde o real surge como o seu corolário equívoco. Tempos depois, esses primeiros excursos de experimentos discursivos se fundem, aí sim, numa forma de linguagem que em sua essência é de caráter intersemiótico: o registro audiovisual. O videopoema, o clipoema, ou que outra denominação se use, anima os signos do verbal, feito de tipos (i)m

jorge ben homem-jongo

Alguém já disse, e com razão, que letra de música não é bem poesia. Entretanto, sei que, ao fim e ao cabo, a recepção, atualmente, tem em alta conta a hibridação dos meios — essa vaga avassaladora a levar e lavar tudo de roldão —, e sendo assim, é natural que se afirme que a poesia, visando a uma espécie de sobrevida, se deixe seqüestrar pela MPB e seus seguidores. Além disso, os poetas sentem-se desinflados demais porque sua visibilidade está longe daquela experimentada pelos compositores populares. É inegável que há um parentesco entre essas formas artísticas, mas cada uma tem a sua semiótica. Elas se encontram (em algum lugar), mas não se confundem. Enfim, para complementar de um modo bem tosco o que, a rigor, mal se constitui numa tese: perece-me que os poetas, de uns tempos para cá, começaram a se intrometer demais nas coisas da música popular; pretendem levar o debate para o andar de cima, para a "cobertura". Eles é que mencionam os nomes de Caetano, Chico, Paul Mccar

um despachante da avant-garde

bruce andrews A tradição poética pode ser interpretada como uma infinitude de vozes em atrito que, em fim de contas ou a certa distância, resulta em harmonia, ou melhor: sugere uma coesão dinâmica onde verticalizações sincrônicas restauram o acervo da diacronia para as contingências do agora-agora. Cada poeta ou movimento, na conciliação de suas contradições, representa, portanto, um duplo abreviado de semelhante tradição. Qualquer experiência de linguagem é sempre irredutível e dura em seu centro, nenhuma delas se deixa comparar com facilidade. Mas, o mais das vezes, alguns dos seus funcionários — aqueles que só trabalham em benefício de si próprios — se esforçam em fazer com que elas se aniquilem umas às outras. Pois, cada poeta com sua obra se refere sem reservas (seja como continuação, seja como ruptura) à tradição, e não raro a reivindica apenas para si (seja como seu crítico, seja como seu guarda-costas). Do mesmo modo, jamais conseguirá admitir sua partilha sem anular-se. Entr

O controle e a afirmação do traidor dilacerado

Sem que isso seja mencionado em seu prejuízo, O controle do imaginário & a afirmação do romance é em princípio um livro voltado para uma audiência acadêmica, já que até certo ponto, para a sua compreensão, se requer o conhecimento de obras anteriores do autor mais afeitas aos cânones da instituição. Mesmo no design da capa se denuncia essa medida de livro — com suas quase quatrocentas páginas — ofertado à cobiça professoral e científica. Os motivos mondrianescos ajustados aos quadrículos coloridos, alguns cortados diagonalmente; a alusão ao concretismo publicitário enquanto estilema gráfico-visual, presente no lirismo de diagrama a evocar as “bandeirinhas” de Volpi, e que, agora, na prateleira das livrarias, exposto ao olhar do leitor compenetrado, dir-se-ia tratar-se de um livro de lógica, de análise das estruturas do discurso, enfim, dessas coisas que demandam anos de dedicação, e que só podem ser levadas a cabo pelo pathos meticuloso de secretários do castelo. Vale dizer, ain