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Ninguém me perguntou

Ninguém me perguntouRonald Augusto[1]Há muitos anos, numa galáxia distante, participei de um seminário da literatura que reuniu muitos escritores negros brasileiros e um outro tanto de escritores africanos de expressão portuguesa (assim se dizia). Não obstante a promessa de vários interesses em comum, algo estranho aconteceu. Os angolanos e moçambicanos não aceitavam muito bem a noção de literatura negra que à época defendíamos. Eles vinham de um contexto de lutas de libertação que exigia unificação em torno da conquista de sua independência em relação à Portugal. Aparentemente nossas lutas eram distintas.Estou rememorando isso com o intuito de explicar que essas experiências escriturais não formam uma mesma massa indistinta.Porque às vezes as literaturas africanas (os autores e as obras que as representam) são lidas como discursos que se relacionariam naturalmente com os textos de autores negros do Brasil e outras diásporas negras.Não obstante o desejo de aproximação, que talvez foss…
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Mistificação e cumplicidade

Mistificação e cumplicidade Ronald Augusto[1]
Em geral a arte é um espaço propício à mistificação. Ao senso comum a figura do artista serve tanto como alvo de desdém, quanto de adoração. Os artistas provocam um sentimento de inveja em muitas pessoas porque fazem o que gostam, isto é, são sujeitos livres. Não estariam presos a nenhum tipo de convenção. O poeta é um fingidor, mas é incitado a desnudar o rei (dizer a verdade doa a quem doer), sua imaginação sem fios às vezes é causa de censura, às vezes é motivo de admiração. Artistas e máscaras se dão muito bem, desde sempre. Acontece que em alguns momentos essas licenças concedidas ao artista produzem realidades e situações que servem apenas para deprimir a relevância da própria arte. O que me interessa discutir aqui é o problema da mistificação e a tolerância de que se beneficia especificamente no território da literatura (poesia, prosa...). Quem acompanha minhas intervenções sabe que não passo pano para nenhum tipo de estelionato estét…

Poesia ruim, Copa de 70 e arrependidos

Poesia ruim, Copa de 70 e arrependidos Ronald Augusto[1]
Como vou saber se um poema é bom ou ruim? Você não precisa ingerir todo o conteúdo de um barril para dizer se ele está cheio de vinho ou de vinagre.
Por que, por um lado, somos tão severos e críticos com opiniões infundadas, com terraplanistas, com bolsonaristas orgulhosos da própria estupidez e, por outro lado, toleramos e passamos pano para poetas medíocres e poemas ruins, chegando, inclusive, a curtir essas manifestações?
A indiferença à verdade e ao conhecimento, seja relativamente à vida vivida, seja ao pensamento, deve ser tão criticada quanto a leniência (irrigada pelas redes sociais) com que tratamos o aparecimento de tanta poesia avinagrada.
O pacto com as ideias falsas e a cumplicidade com as práticas poéticas de péssima qualidade deveriam acabar no mesmo saco.
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Num surto de saudade, dias atrás assisti na íntegra a final da copa do mundo de 1970. Tirante os gols e alguns momentos reprisados à exaustão, aqui é acolá, acho que…

cantiga de maldizer

cantiga de maldizer
Ronald Augusto
arrancamos um rim ao phabiano foi tanto chorume esfolamos seu couro alvinitente como de costume impetramos mandado de vingança contra o seu queixume contrariado escapou à contradança já vai tarde, estrume leve consigo seu estilo a risério e baixe o volume
mais uma questão e depois nos vamos pois que venha a lume há phabianos pretos nessa arena? nunca foram imunes nem quando performam falas solenes? isso que os resume

fortuna critica : Ronald Augusto abre alas à palavra autoral

Ronald Augusto abre alas à palavra autoral
Paulo Fabris[1]
Entre uma praia e outra (Editora Artes & Ecos, 2018)de Ronald Augusto acontece como uma festa imodesta, entre cômoros e vegetação espessa, entre a prosa e a poesia dos pagos, ali onde um insuspeito rastreador talvez notasse marcas na areia de Pound. Mas quem o chama para um papo reto é Oliveira Silveira, enquanto a silhueta de Manuel Bandeira é vista em meio à sombra e Mallarmé desponta como uma estrela atrás dos morros. Entre uma praia e outra faz a entrega de poemas artesanais, com palavras cozidas no barro e temperadas com o sal da terra. Escolho, como amostra grátis, um dos poemas do livro, o da pág. 55:
sombra da garagem abre alas à passagem do sopro do mar
fosco calor onde afundo enorme mas tão caprichoso quanto a imagem que maruja na concha do meu ouvido
A leitura do livro me fez lembrar uma matéria de Haroldo de Campos com o poeta europeu (iugoslavo) Vasko Popa, publicada num antigo caderno Mais da Folha de São Paulo. Haroldo…

sem romantizar o isolamento

Sem romantizar o isolamento Ronald Augusto[1]

Entrevista conduzida pelo jornalista Igor Natusch publicada no caderno Cultura do Jornal do Comércio/RS. No link, a versão editada da entrevista: https://www.jornaldocomercio.com/_conteudo/cultura/2020/04/735894-poeta-ronald-augusto-prefere-nao-romantizar-o-isolamento.html?fbclid=IwAR3g3UWhLBaVGHcrbr4tXGZVDq1JJQbDzWh6YGp44lKGzsVLgkfSqrGw1f8#.Xq_s0kKvAKs.facebook

Como o isolamento causado pelo coronavírus tem influenciado na tua atuação criativa? Mudou alguma das tuas rotinas? Tens tido mais ideias para escrever ou, ao contrário, a situação tem atuado contra a tua criatividade? Como tens te sentido nesses dias?
O isolamento social não afetou meu modo de escrever poemas. Há muitos anos trabalho mais em casa mesmo. Além disso, minha forma de produção é lenta, demorada, e por isso é também escassa. Meu livro Entre uma praia e outra, que ano passado recebeu o Prêmio Minuano de Literatura, categoria poesia, é um conjunto de poemas que já estava pront…

O que fazer com o esteta e o moralista?

O que fazer com o esteta e o moralista? Ronald Augusto[1]
A estética, ao que parece, é um campo hesitante e algo controverso, capaz de, inclusive, confundir o interessado quando sua consideração a propósito do tema se dá, por exemplo, através dos termos dos pensadores do idealismo. De outra parte, aísthesis, o conceito grego de onde se origina a disciplina, significa sensação, sentimento. Mesmo que, historicamente, seja considerada como um ramo da filosofia, a estética aqui e ali é representada como uma disciplina meio lateral ou menos estável, afinal, a investigação estética não se dedica necessariamente a formas artísticas constituídas; seu interesse, de vocação esclarecida e racional, por experiências da sensibilidade e do afeto que se relacionam a uma série de objetos, a coloca, no entanto, constantemente em situações movediças e fungíveis, ainda mais quando se trata de determinar a precisão dos juízos e conhecimentos pretendidos. Um argumento que sustentaria a tese da instabilidade…