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A perpetuação do racismo implícito que ofende sem ofender

  A perpetuação do racismo implícito que ofende sem ofender Ronald Augusto [1]   O verso “povo que não tem virtude acaba por ser escravo” serve à maravilha às formas ambíguas das práticas racistas, pois ao contrário do racismo às claras ou explícito, esse verso ofende sem ofender. Se é verdade que povos escravizados não são necessariamente destituídos de virtude ou bravura (e podemos concordar nesse ponto), então mais indefensável se apresenta o significado da passagem do hino gaúcho. A condição de escravizado, ou de um povo sujeitado à força, é complexa e não se pode afirmar que essa condição indica um grupo sem valor, sem capacidade de reação. Recentemente assisti a uma entrevista do pensador Silvio Almeida onde a certa altura um dos interlocutores (um jornalista negro) comentava que de acordo com sua lembrança os pais infelizmente nunca lhe falaram com franqueza a respeito do racismo, o assunto parecia ser negado ou empurrado para debaixo do tapete. O jornalista entendeu que
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apresentação para O leitor desobediente

  [esse texto é a apresentação da poeta Eliane Marques ao meu livro, que pode ser encomendado em: http://www.editorafiguradelinguagem.com/pd-71d4a6-o-leitor-desobediente.html  ] O leitor desobediente   Eliane Marques [1]     Se a morenice de Eurídice rende versos a Orfeu, e a palidez (morena) de Eulália inspira versos em Máximo, a inquietude transnegreira (e radical) de Ronald Augusto com o alinhamento pó de arroz ao estado de “sempre coisas” por parte da produção poética e crítica contemporânea, lhe permite O Leitor Desobediente, com tudo o que os ensaios integrantes deste livro apresentam de desvios relativamente aos consensos sobre o significado das marcas de barra nos pés da camponesa.   Se, por outro lado, e apenas pelo gosto da anáfora, se, assim como aquela estudante alemã citada pelo autor em “Transnegressão”, o leitor obediente quiser encontrar o crítico negro ou a negridão do crítico entre estas páginas é provável que se desiluda tanto quanto a moça loira, pois

a contragosto do solo

  A contragosto do solo , mais recente livro de Ronald Augusto, mantém vivo o caráter crítico e controverso do percurso textual desse poeta em atividade há quase quarenta anos. Em conhecido poema ofertado a Augusto de Campos, João Cabral acentua a importância do que  chama de leitor contra e o imagina no quadro das interlocuções criativas consequentes para  a afirmação do vigor do gênero. Pode-se dizer que o título A contragosto do solo alude largamente à ideia do poeta do agreste, já que Ronald reúne em si ao mesmo tempo a condição de  um leitor contra e de um poeta contra na articulação dessa poesia intransigente que se atualiza a cada livro, malgrado a presente resistência social e política tanto ao pensamento, quanto às poéticas de invenção. A CONTRAGOSTO DO SOLO Autor: Ronald Augusto Capa Dura - 16x23 cm ISBN 978-85-66423-81-5 88 págs - R$ 45,00*    Ronald Augusto nasceu em Rio Grande (RS) a 04 de agosto de 1961. É poeta, crítico de poesia e ensaísta, formado em Filosofia pela U

Ninguém me perguntou

  Ninguém me perguntou Ronald Augusto [1]   Há muitos anos, numa galáxia distante, participei de um seminário da literatura que reuniu muitos escritores negros brasileiros e um outro tanto de escritores africanos de expressão portuguesa (assim se dizia). Não obstante a promessa de vários interesses em comum, algo estranho aconteceu. Os angolanos e moçambicanos não aceitavam muito bem a noção de literatura negra que à época defendíamos. Eles vinham de um contexto de lutas de libertação que exigia unificação em torno da conquista de sua independência em relação à Portugal. Aparentemente nossas lutas eram distintas. Estou rememorando isso com o intuito de explicar que essas experiências escriturais não formam uma mesma massa indistinta.   Porque às vezes as literaturas africanas (os autores e as obras que as representam) são lidas como discursos que se relacionariam naturalmente com os textos de autores negros do Brasil e outras diásporas negras. Não obstante o desejo de aproxim

Mistificação e cumplicidade

Mistificação e cumplicidade Ronald Augusto [1] Em geral a arte é um espaço propício à mistificação. Ao senso comum a figura do artista serve tanto como alvo de desdém, quanto de adoração. Os artistas provocam um sentimento de inveja em muitas pessoas porque fazem o que gostam, isto é, são sujeitos livres. Não estariam presos a nenhum tipo de convenção. O poeta é um fingidor, mas é incitado a desnudar o rei (dizer a verdade doa a quem doer), sua imaginação sem fios às vezes é causa de censura, às vezes é motivo de admiração. Artistas e máscaras se dão muito bem, desde sempre. Acontece que em alguns momentos essas licenças concedidas ao artista produzem realidades e situações que servem apenas para deprimir a relevância da própria arte. O que me interessa discutir aqui é o problema da mistificação e a tolerância de que se beneficia especificamente no território da literatura (poesia, prosa...). Quem acompanha minhas intervenções sabe que não passo pano para nenhum tipo

Poesia ruim, Copa de 70 e arrependidos

Poesia ruim, Copa de 70 e arrependidos Ronald Augusto [1] Como vou saber se um poema é bom ou ruim? Você não precisa ingerir todo o conteúdo de um barril para dizer se ele está cheio de vinho ou de vinagre. Por que, por um lado, somos tão severos e críticos com opiniões infundadas, com terraplanistas, com bolsonaristas orgulhosos da própria estupidez e, por outro lado, toleramos e passamos pano para poetas medíocres e poemas ruins, chegando, inclusive, a curtir essas manifestações? A indiferença à verdade e ao conhecimento, seja relativamente à vida vivida, seja ao pensamento, deve ser tão criticada quanto a leniência (irrigada pelas redes sociais) com que tratamos o aparecimento de tanta poesia avinagrada. O pacto com as ideias falsas e a cumplicidade com as práticas poéticas de péssima qualidade deveriam acabar no mesmo saco. * Num surto de saudade, dias atrás assisti na íntegra a final da copa do mundo de 1970. Tirante os gols e alguns momentos re

cantiga de maldizer

cantiga de maldizer Ronald Augusto arrancamos um rim ao phabiano       foi tanto chorume esfolamos seu couro alvinitente       como de costume impetramos mandado de vingança       contra o seu queixume contrariado escapou à contradan ç a       já vai tarde, estrume leve consigo seu estilo a risério       e baixe o volume mais uma questão e depois nos vamos       pois que venha a lume há phabianos pretos nessa arena?       nunca foram imunes nem quando performam falas solenes?       isso que os resume