relatos de um corvo sedutor


péricles prade


a íntegra desse texto em: http://www.revistaosiris.com.br/dossie-critica-ronald_augusto.html

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A partir de agora pretendo dividir com o leitor minhas ilusões a respeito de Relatos de um corvo sedutor. E o que consegui entesourar de tal empresa vai aqui escrito. O livro pode ser apresentado como uma sorte de texto-suma onde Péricles Prade, por meio de um proliferante kinema em prosa, passa a limpo o seu repertório intelectual-vivencial com um apetite de antropófago. Como se fora o bufão de si mesmo ou, ainda, como um Machado de Assis em “estado alterado de consciência”, o texto de Prade é produto de um “bucho ruminante”. Um bruxo ruminante? Mas antes de seguir adiante, umas notas de leitura a um dos seus precursores.


“Desocupado lector...”, assim se inicia o prólogo do Don Quixote, mas o prólogo é um simulacro, na verdade já estamos em meio a narrativa. Logo de saída Cervantes convida o leitor a abandonar, por um momento, a hipnose romanesca. O leitor é colocado a par dos dilemas construtivos que afligem o autor ficto. Uma sutil advertência, mas de fundamental importância, para o estabelecimento das regras do jogo ficcional que se inicia. Como o prólogo já avança sobre a linha da ficção, o leitor-autor se encontra no redemoinho da aventura. Com esse qualificativo, “desocupado”, Cervantes denuncia em tom metalinguístico o estatuto ético-estético a que está submetido o fruidor desse texto, é mesmo uma espécie de chave léxica para uma compreensão provisória da obra. Entramos no âmbito da leitura-interpretação pela vereda da errância e da vadiação. Grosso modo, esse leitor não se acha imbuído de um desejo de ilustração; trata-se do leitor na rede, “este objeto da preguiça”, e não do leitor de lápis em punho, discípulo aplicado, obediente. Cervantes invoca o bom gosto do leitor, pois a arte não se destina aos sábios.

Antônio Cândido, no estudo “Dialética da malandragem”, caracteriza o romance Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida, como “romance malandro”. Don Quixote, por vários aspectos, participa da mesma dialética, mas para o nosso propósito caberia propor a ideia de que o romance malandro engendra, em fim de contas, um “lector desocupado”, malandro e dado a requebros. Leitor “à vontade”, leitor moderno, talvez condenado à ironia. Por sua vez, a relação entre emissor e receptor é também inextrincável, não só o poeta é um simulador, na verdade o leitor também simula em concordância com as regras fugidias dos jogos poéticos de linguagem. Mais um parágrafo.


“Acontece tener un padre un hijo feo y sin gracia alguna, y el amor que le tiene le pone una venda en los ojos para que no vea sus faltas, antes las juzga por discreciones y lindezas y las cuenta a sus amigos por agudezas y donaires. Pero yo, que, aunque parezco padre, soy padrastro de Don Quijote” (grifo meu). Cervantes participa daquela linhagem de escritores-críticos, designers de linguagem que pensam o fazer poético-literário desde sua materialidade, ou o problematizam, e a metáfora do “padrasto” parece dar conta disso, ou seja, ele não abdica de uma hostilidade risonha, isto é, de ser crítico no desenvolver da sua fatura/fratura escritural. Ele nos oferece um pendor não-emocional, pode-se falar mesmo numa poética de espírito não-facilitador. Literatura sem mistificação. Na dicotomia pai/padrasto o narrador põe em questão a presunção autoral e a originalidade que lhe é congenial. Não sendo pai, não tem, por assim dizer, autoridade exaustiva sobre o filho-livro. Mais tarde, a partir do seu “libre albedrío”, ou do seu desejo de linguagem, o leitor é convidado a co-laborar criticamente na construção e/ou no desmanche dos significados da narrativa, pois Cervantes reconhece a autonomia do leitor-fruidor em seu corpo a corpo com o bosque da ficção, quando escreve: “...estás en tu casa, donde eres señor della, como el rey de sus alcabalas”. Mas, no caso de Péricles Prade, essa casa se desdobra em labirinto circular.


A interpolação talvez seja longa, mas não é descabida, pois me parece que uma leitura de Relatos de um corvo sedutor, poderia ser empreendida, inicialmente, a partir dessas questões suscitadas pela obra cervantina. A narrativa de Péricles Prade também supõe um desocupado lector como interlocutor-modelo. Um leitor que se aproprie desse imaginário que mimetiza uma sorte de cinematografia abreviada de arcanos do tarô. Um leitor que frente à liberdade expressional do autor, responda com uma correlata e livre vontade de interpretação expropriativa. Entretanto, se o clássico espanhol escolhe a figura do padrasto que, sem piedade, olha lateralmente para sua obra, Prade entroniza, como narrador-analista luciferino, um corvo que se apresenta como “o filho ilegítimo do Revelado, o eterno número 7 da tribo”. Assim, sua condição de bastardia lhe faculta o lance escritural de extração paródica, iconoclasta, enfim, o texto se credencia à subversão. O relato se carnavaliza em arrivismo alegorizante, vingança contra a nomeação e o que é nomeado por meio de uma urgência paratática, de feição cubo-surrealista.


Ao mencionar esse precipitar-se paródico, comum, tanto às mil e uma histórias do Quixote quanto à história multifária de Relatos de um corvo sedutor, faltaria ainda trazer ao debate, por várias razões, as Memórias sentimentais de João Miramar de Oswald de Andrade, obra que também se situa na mesma área conceitual, por assim dizer, de uma transtemporal “prosa malandra” – aliás, Machado de Assis com seu Brás Cubas também se encontra, sem mal-estar, por essas redondezas. As anotações telegráficas do Miramar antecipam a estrutura de transições quase lisérgicas do livro de Prade. Os livros se ligam mais por uma afinidade cujo fulcro é o da transgressão do que por razões de filiação ou influência diacrônica. É nesse sentido, me parece, que Mário da Silva Brito em seu História do Modernismo Brasileiro (1958) propõe que João Miramar “antecipou os rumos seguidos” por prosadores como Clarice Lispector e Guimarães Rosa, entre outros. Ou seja, a prosa oswaldiana se torna paradigmática para esses autores nem tanto como dicção a ser deglutida e desdobrada, mas por seu espírito experimental, seu apetite pela transgressão das formas romanescas. E Péricles Prade, graças ao seu imenso repertório literário, não poderia ficar indiferente a esse marco de linguagem que é João Miramar (como refere com intimidade Mário da Silva Brito) no momento em que, desde os transes de sua condição de ilhéu erudito e picaresco, empreende um lance textual no campo da prosa. Pela clave da paródia e da “descontinuidade cênica”, seu livro se põe em relação com a obra de Oswald de Andrade.


Relatos de um corvo sedutor, segundo a rubrica musical, seria uma rapsódia: peça musical de forma livre que se aproveita de diferentes melodias. O processo de composição da rapsódia envolve o improviso e a utilização de efeitos de justaposição cuja escassa unidade formal se faz de referências melódicas mais populares e de temas musicais menos conhecidos do vulgo. Mário de Andrade também apelidou de rapsódia o seu relato sobre Macunaíma, esse herói sedutor e sem nenhum caráter.


Não se pode resumir Relatos de um corvo sedutor, é o que afirma Dirce Waltrick do Amarantes no posfácio “Um ciclone na Ilha do Desterro”. Nessa direção, poder-se-ia avançar a ideia de que o livro de Prade se limita mais com a poesia, porque é bem mais simples resumir uma história, mas não um poema. Assim, como se estivera no interior de um poema, que fala de tudo e nada ao mesmo tempo, e que, não obstante a árdua materialidade com que se firma enquanto signo verbal, não deixa de ser um dos seres mais abstratos de linguagem, o leitor anda “às tontas num labirinto” que se multiplica em pistas falsas. Com efeito, a “narrativa vertiginosa” de Relatos mantém pontos de encaixe com a ficção do modernista antropófago. Haroldo de Campos enumera uma sequência de insumos informacionais entranhados ao trabalho de composição de Memórias sentimentais de João Miramar, a saber, a alta dosagem de poesia contida nessa prosa; as relações estilísticas com as artes visuais do período (cubismo, futurismo etc.); a montagem cinematográfica na estrutura das memórias; a estética do fragmento, entre outros.


Relatos de um corvo sedutor bebe em fontes equivalentes. Já mencionei seu débito em relação à poesia. Embora Péricles escreva prosa, não se comporta como um prosador juramentado, isto é, ele não aceita de forma leniente a função referencial da linguagem. Relatos é uma prosa para acabar com um determinado tipo de prosa obediente ao aspecto inteligível do signo. Com que leitor Prade pretende dialogar? Sua breve narrativa nos é transmitida por um narrador como que em transe, à beira do solilóquio. A audiência é tão ambígua e opaca quanto a consistência equívoca do narrador bastardo e proteico. Ou seja, para Prade (poeta dentro da casaca do prosador), o leitor lhe parece uma entidade excessiva ou um mal necessário com o qual tem de se haver muito a contragosto já que, à revelia da sua vontade, o texto só se completa no instante da leitura. Assim sendo, pouco importa quem é e como reage esse leitor frente aos seus estímulos. Péricles Prade o despreza por secundário, pois do seu ponto de vista o que está em jogo, em primeiro lugar, é o sucesso estético e não comunicativo desses relatos com que dá uma piscadela de olhos à psicodelia.


De outra parte, o fragmentário, a visualidade e a velocidade metonímica do cinema, relativas ao texto de Prade, se resolvem num gesto estrutural que entendo ser o de um fraseado versicular conquistado parágrafo a parágrafo. A narrativa avança por enunciados-parágrafos, coesos e cerrados em si mesmos, fractais da imagem do conjunto abrigado entre as capas do livro. E Dirce Waltrick do Amarantes, acerta mais uma vez quando afirma que não podemos citar senão na íntegra esses parágrafos-fractais, “pois seus elementos se conectam de maneira intrincada, amarrando as palavras num conjunto tão indissolúvel quanto imprevisto”. A abrupta mobilidade do escrito dissipa o enredo a ser contado. O discurso insolvente faz periclitar o périplo do corvo sedutor. A forma do fraseado é espiralada, mas o desfecho de cada parágrafo-versículo se abre em abismo. O sentido não começa por onde termina cada um desses enunciados “barrocodélicos”: o sentido resta como um farfalhar de linguagem que jamais cancelará a colaboração do acaso e a arbitrariedade do imaginário de Péricles Prade. A beleza de Relatos de um corvo sedutor reside no fato de que os sentidos que se oferecem à interpretação vadia do leitor já não estão nos limites onde o papel foi talhado. O corvo, em kinema quimérico, sobrevoa cidades compósitas, ruínas babélicas, reminiscências de leituras e tresleituras, personagens multifacetados etc., enquanto libera “com prazer o esfíncter aos poucos...”.

Comentários

Giovani Iemini disse…
interessante o blog.
[]s

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