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Ronald Augusto[1]

Com relação aos últimos acontecimentos envolvendo intolerância racial no âmbito do futebol, chego à conclusão de que não é mais viável levarmos a sério o conceito da "cultura do futebol" no sentido em que esse verdadeiro conceito-clichê gozaria de uma moral toda particular ou de um estatuto próprio. Graças a esse velho guarda-chuva de leniência acabamos justificando uma série de agressões e imposturas: racismo nem tão velado ou bem humorado, homofobia, truculência sicária de torcedores mafiosos, comentaristas esportivos obtusos. Parece que dentro dos estádios estamos obrigados, em nome dessa tal "cultura" ou devido à “natureza” das coisas futebolísticas, a aceitar toda a barbárie e o fogo amigo. Enfim, fora dos estádios ou após os 90 minutos e descontados os de bola parada, voltamos a ser democratas, acreditem. Se há alguma coisa mudando para melhor na sociedade (e há), o futebol e nossa maneira de pensá-lo – que, de resto, fazem parte desta sociedade –, têm que mudar também.
Uma vez ouvi de um renomado comentarista de futebol aqui de Porto Alegre – e sua atitude de prevaricação foi a propósito do episódio Grafite/Desábato no qual o argentino, zagueiro do Quilmes em 2005, foi preso por insultar o centroavante brasileiro, à época no São Paulo – a seguinte argumentação: “a intimidade indecorosa dentro das quatro linhas, o espaço mítico do campo deve ser preservado, pois o que se passa no interior das marcas de cal não deve sair dali". Calma lá, uma partida de futebol é um evento público e tudo o que se passa ali é de interesse público; sinto muito dizer, mas não são deuses do futebol em ação, mas homens e mulheres em relação num jogo, num tipo de teatro, com papéis e desempenhos que analisamos e julgamos, nós torcedores. Além disso, microfones poderosos (em apoio às imagens) transmitem para quem acompanha a partida pela TV todos os sons produzidos: o baque seco do pontapé na bola, os palavrões do técnico, os gritos das torcidas. Todas essas informações devassam a suposta intimidade do espetáculo, tudo é publicado. São signos que enriquecem o jogo, fazem-no mais complexo. Então por que razão o desvelamento público das nem tão eventuais ofensas racistas, proferidas por quem quer que seja durante o jogo, não seria do interesse do torcedor e da sociedade em geral? Os microfones e as imagens foram escancarados, atingimos um ponto sem volta.
Mas os principais envolvidos são passionais! Dizem a propósito dos jogadores e dos torcedores. Mas não é suficiente ser apenas passional. Não vejo porque não aceitar a contribuição da razão, aliás, o futebol que é, também, uma arte, é feito com razão e sensibilidade, e quem gosta de arte pode e deve educar todos os seus sentidos e faculdades intelectuais. Reforçamos, sem pensar detidamente a respeito, a falácia que os comentaristas mais insistem em reproduzir, já que legislam em causa própria, a saber, a de que o torcedor é um passional e, portanto, apto a ser perdoado. Afinal, a imprensa esportiva não pode colocar em jogo a autoridade de julgamento que lhe é conferida, sabe-se lá por quem. Mas acho que se pode apreciar futebol, sim, com um pouco de razão, e isto, ao menos para mim, é desejável e faz sentido.
Acho possível que no ato de torcer dentro do estádio ou fora dele esteja implicada alguma dose de racionalidade; não nego que o torcedor é passional, discordo de que ele seja apenas passional. Tanto é verdade que se o torcedor fosse só paixão (pathos, em sentido amplo: padecer de algo), cada partida de futebol seria uma chacina. Parece ser uma minoria, passional ao extremo, que comete as atrocidades de que temos conhecimento, atrocidades que, no entanto, são alimentadas, toleradas e pavimentadas com uma série de pequenas crueldades aceitas como constitutivas do folclore ou da "cultura futebolística". A propósito da expressão “macaco”, que os gremistas lançam contra os colorados em tom pejorativo e como forma de provocação, um interlocutor argumentou que tentar resolver isso trocando a ofensa por xingamentos como “cagão” ou “imundo” não seria racional, nem funcionaria, pois os xingamentos oriundos do “mundo do futebol” seriam ritualísticos e restritos às condições espaciais e temporais desse acontecimento, tudo, em fim de contas, faria parte de uma espécie de “manual de etiqueta do verdadeiro torcedor”. Fora do campo a coisa como que se desmancharia no ar.
Entretanto, não se trata de trocar um xingamento por outro na presunção de que poderíamos encontrar xingamentos mais razoáveis ou menos censuráveis, mas, antes, de pensar sobre a validade deles e de como eles reproduzem e legitimam algo que faz parte do mundo extra-arquibancada, no caso, o preconceito racial. O xingamento não é independente do mundo para além do estádio e da partida. No episódio das ofensas racistas ao árbitro, aliás, ao homem Márcio Chagas, o ódio não foi aplacado com facilidade; mesmo fora do estádio, findo o jogo, a irracionalidade do preconceito perdurou e perdura na noite de Bento Gonçalves.



[1] Ronald Augusto nasceu em Rio Grande (RS) a 4 de agosto de 1961. Poeta, músico, letrista e crítico de poesia. É autor de, entre outros, Homem ao Rubro (1983), Puya (1987), Kânhamo (1987), Vá de Valha (1992), Confissões Aplicadas (2004) No Assoalho Duro (2007), Cair de Costas (2012), Decupagens Assim (2012), Oliveira Silveira: obra reunida (2012) e Empresto do Visitante (2013). Assina o blog: www.poesia-pau.blogspot.com

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