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o falso problema de ugolino

A arte da invenção verbal não é outra coisa senão uma scriptio defectiva (abstrações, recortes, rasuras, reduções sintáticas, etc.) que se limita complementarmente com uma - aparente - scriptio plena . Vale dizer, o fulcro, a razão de ser do poema não se estrutura em torno à reprodução cerrada de uma pretensa verdade referencial presentificada através de uma linguagem sem rasuras. A propósito desse tema, Jorge Luis Borges escreveu um penetrante ensaio intitulado “O Falso problema de Ugolino”, incluído em Nove Ensaios Dantescos (1982). Nesse breve ensaio, o escritor argentino procura demonstrar que a polêmica travada entre diversos comentadores da Commedia a respeito do episódio em que Ugolino supostamente devora, vencido pela fome, os cadáveres dos próprios filhos e netos (Inferno, XXXIII), não passa de inútil controvérsia. Borges sustenta a tese de que deveríamos propender a uma análise estética ou literária do episódio em questão. À pergunta de índole historicista, Ugolino com...

tirésias de allan kardec

cena da hagiografia fílmica de chico xavier Muitos heterônimos constituem o homossemiótico Francisco Cândido Xavier. Seu ser, travestido de discursos, falas e cartas do mundo do além (o orum) só admite, mesmo, o compósito médium/meio. Aqui, ele é poeta, ali, pensador, acolá, conferencista, curandeiro fleumático mais além — ou como dizem os de sua religião: médico espiritual. Chico Xavier transfere ao espiritismo iluminista e francês o acento mulato, aclimatando-o, portanto, à religiosidade fetichista e peregrina do Brasil. A descoberta do médium-celebridade por parte expressiva da população brasileira me faz evocar o poema “Descobrimento”, de Mario de Andrade: “ Abancado à escrivaninha em São Paulo/ Na minha casa da rua Lopes Chaves/ De supetão senti um friúme por dentro./ Fiquei trêmulo, muito comovido/ Com o livro palerma olhando pra mim.//Não vê que me lembrei que lá no Norte, meu Deus! / M uito longe de mim/ Na escuridão ativa da noite que caiu/ Um homem pálido magro de cab...

uma luz possível

Marco Vasques volta mais feérico neste Flauta sem boca , seu pathos imagético se instala desta vez — à diferença de E legias Urbanas , livro de 2005 —, por assim dizer, numa “nervura teimosa” de versos, ou versículos, mais extensos. As questões que obsedam o espírito do poeta retornam à cena. Observamos um artista que afivela personae trágicas, e enquanto põe a nu seu coração defunto por meio de “uma língua que não come hóstias” se vê implicado nos horrores que mais registra e recria do que denuncia. Neste pequeno conjunto de longos poemas, Marco Vasques nos coloca diante dos destroços do tempo e da anomia presente que soçobram à tona da linguagem. E mais uma vez, aqui e ali, enfiamos pelas formas do manicômio, do hospital, do hospício, da necrópole, etc, imagens especulares dos nossos territórios urbanos. Flauta sem boca é música calada. Mas o oxímoro do poeta e místico San Juan de la Cruz, pode ser tomado tão só como um ponto de partida. Noutra direção, dir-s...

peixes comem olhos azuis

Quando o mundo branco se põe a fazer elogios desmedidos a respeito do trabalho ou da personalidade de um negro, sempre me preparo para o pior. Por favor, não me venham falar em baixa estima, que estou na defensiva e tudo mais. O furo aqui é bem mais embaixo. Segundo Friedrich Nietzsche “o comentário demasiadamente elogioso produz mais indiscrições que a censura”. As louvações, neste caso, têm fundo culposo ; se efetivam sem que possamos lhes prever as conseqüências. Desvelam a imprudente face do preconceito. Para compensar toda uma série de episódios aniquiladores do ânimo de muitas personalidades negras fundamentais para a nossa cultura, o senso comum carrega nas tintas da apologia purgativa sobre aqueles que parecem ter vivido vidas que poderiam ter sido, mas que não foram. Parodiando o adágio relativo à vingança, pode-se dizer que tal espécie de elogio é um prato que se oferece frio ao seu maior interessado. Por essa razão, Cruz e Sousa é o Dante negro; Leônidas da Silva, o Diamant...

Claudio Cruz, poeta que soube esperar por tudo

Conheço Claudio Cruz há bem uns vinte e cinco anos, no mínimo. Suas personae e seus interesses estéticos vão da canção à prosa, passando pelo teatro, a crítica e o ensino de literatura, e chegando até a poesia. Deixei por último, de propósito, a menção ao gênero lírico, apenas para criar um “clima”, pois, ao contrário do que parece para muitos que conviveram e convivem com Claudio Cruz, a poesia talvez seja o aspecto menos inextrincável de sua sensibilidade. Não quero parecer dramático nem retórico, mas com a publicação de A ilha do tesouro e outros poemas — sua estréia em poesia —, essa pequena confusão começa a ser solvida. Secretamente, a dimensão do poeta em Claudio Cruz sustenta e dá coesão a todos os outros aspectos expressivos de que até agora se serviu para estabelecer o diálogo em perspectiva tanto com os leitores, quanto com os seus iguais. Embora eu o tenha conhecido primeiro como diretor de teatro (em 1983 assisti à sua montagem de Esperando Godot , de Samuel ...