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o conteúdo é uma função da forma

Entrevista com Ricardo Primo Portugal e Tan Xiao Para a entrevista contei com a colaboração da poeta Denise Freitas http://sisifosemperdas.blogspot.com/ Ronald Augusto: Falem um pouco sobre a biografia da poeta Yu Xuanji. Ricardo Primo Portugal e Tan Xiao : Yu Xuanji é uma personagem controversa. A primeira impressão que dá, quando a gente começa a se relacionar com ela, com sua poesia, é de que encontramos a versão feminina e chinesa clássica de Rimbaud... Estou fazendo aqui uma comparação obviamente exagerada e um pouco jocosa – ao mesmo tempo em que carinhosa, quanto a ambos os poetas, que amo como a dois bons amigos que me perdoariam este excesso... –, mas não de todo inadequada. Como Rimbaud, ela teve a genialidade precoce e a capacidade de usar a tradição em um sentido novo e sensualista, indo mais longe dentro de tendências que já se verificavam na literatura da época. Também a relação vivencial com a poesia – e nisso ela é uma curiosa precursora da modernidade –, a fus...

o drible no racismo

O episódio acerca da discriminação racial de que foi vítima o jogador de futebol Grafite, que à época (2005) atuava pelo time do São Paulo, gerou um debate revelador a propósito de um sem-número de imposturas no tocante ao modo de abordagem do racismo brasileiro em âmbito futebolístico. Não é de agora que se percebe que a barbárie – ou uma irracionalidade circunscrita, e como que tolerada, dentro dos limites “da rodada” – se refugia nos apreciadores e nas coisas relacionadas ao futebol. De outra parte, não recuso de modo nenhum o futebol que, não só para mim, aliás, para muitos, é considerado uma forma de arte e, portanto, de modo análogo como o poeta Charles Baudelaire a entende, também o futebol tem os dois elementos constitutivos da modernidade artística: um que é contingente (pode ser jogado com mais ou menos cadência, pode ser mais ou menos defensivo, etc.) e outro que é eterno (são onze contra onze, habilidade com a bola e eficiência na ocupação dos espaços). Sou torcedor convict...

A multiplicação de textos de Le mot juste

Tal como os espelhos borgianos, os livros também têm algo de monstruoso, pois, não obstante a esterilidade mallarmaica que os anima ou os justifica diante da ambiguidade da figura do leitor, eles – substitutos precários da cópula –, os livros, são abomináveis não porque multiplicam o número das ilusões de que se servem os homens na tentativa de ratificação de suas personae , mas porque multiplicam o número dos textos no Dédalo da biblioteca. O conjunto de textos, ou melhor, a narrativa de formulações textuais, Le mot juste , de Roberto Amaral, participa dessa álacre impertinência moderna do livro (que é feito) de livros, tradição que começa ou dá uma passo crucial com o Quijote de Cervantes. Com efeito, há pouco um poeta estava no caminho certo ao cantar e contar que “vão-se os papéis dos inumeráveis volumes, mas ficam os textos”. Desdobram-se as formas de discursos sobre os textos. Leituras. E a leitura, quando motivada por uma apetência, a um só tempo, seletivo-crítica e criativa,...

Pano de fundo inessencial para Franz Kafka

Kafkiano: aquilo que em algum momento vai definir os atos extremos do Estado como guardião-meganha da igualdade jurídica liberal ou do Estado utópico do igualitarismo social socialista, convertidos ambos em totalitarismo; aquilo que designa também os excessos da racionalidade impessoal nas funções, cargos e precedimentos que efetivam a lógica da produtividade moderna; o absurdo que subjaz às relações de poder; o afeto que se deteriora a partir da obediência estrita a esse poder mesmo, paterno/patronal; a vida como um pesadelo circular. A recepção contemporânea ou politicamente correta lê o teatro do mundo do ponto de vista de um bom-mocismo de centro-esquerda, por essa razão alguns estudiosos defendem o pessimismo irônico ou as doses pesadas de niilina contidas no pensamento-arte de Kafka como insumos a um texto que exige ou inventa um leitor subversivo, moralista, insubmisso, revoltado consigo mesmo, contra a sociedade e a ordem, etc. Na verdade há uma confusão entre o que obra de K...

Dá licença, meu branco!

Irene preta, Irene boa. Irene sempre de bom humor. Quem quer ver Irene rir o riso eterno de sua caveira? Parece que só mesmo no espaço sacrossanto da morte, onde deparamos a vida eterna, está permitido ao negro não pedir licença para fazer o que quer que seja. Não se pode afirmar, mas talvez Manuel Bandeira tenha tentado um desfecho ambíguo para o seu poema: essa anedota malandramente lírica oscila entre “humor negro” e humor de branco, o que, afinal de contas, representa a mesma coisa. No além-túmulo – e só mesmo aí –, não nos será cobrado mais nada. Promessa de tolerância ad eternum , e sem margens, feita por um santo branco, esse constante leão de chácara do mais alto que lança a derradeira ou a inaugural luz de entendimento sobre a testa da provecta mucama. Menos alforriada que purificada pela morte, Irene está livre de sua “vida de negro”, mas, desgraçadamente, só ela dá mostras de não ter assimilado isso ainda; quando a esmola é demais o cristão fica ressabiado. Na passagem dest...

um normal e limitado ás da poesia

É impressionante como a série de bolso da coleção “Ás de colete” da Cosacnaify, cuja coordenação é de responsabilidade do poeta Carlito Azevedo, conseguiu agrupar ao longo dos últimos anos cerca de uma, duas dezenas de poetas que alcançam escrever todos com uma idêntica sensaboria poeticamente correta. De ordinário demonstram notável adestramento técnico, em que pese o mesmo ser pueril; praticam esse movimento inconcluso que parte de um “repetir para aprender” e não chega sequer a roçar as margens de um “aprender para criar”; aplicam-se em uma escrita minuciosa, feita à medida da acuidade de scholars , e cumprida a medo, porque o que está em causa é a ratificação do continuum dessa recente tradição da competência e das consagrações recíprocas a que eles mais se submetem do que problematizam. De resto, esses poetas encaixam seus ombros dentro de uma moldura a que fazem jus por obra de seu obediente comportamento. Feito esponjas, eles se empapam com os e stímulos sobre sua sensibilida...