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correspondência para cair de costas

mais anotações de aula

[Roland Barthes, CRÍTICA E VERDADE , Ed. Perspectiva, p. 16-17] “O escritor é um experimentador público: ele varia o que recomeça; obstinado e infiel, só conhece uma arte: a do tema e variações. Nas variações, os combates, os valores, as ideologias, o tempo, a avidez de viver, de conhecer, de participar, de falar, em resumo, os conteúdos; mas, no tema, a obstinação das formas, a grande função significante do imaginário, isto é, a própria inteligência do mundo.” [a clássica distinção entre forma e conteúdo é apresentada por barthes em termos de “tema e variações”, isto é, tema =forma; variações =conteúdos; observe que é uma outra maneira de dizer (imagem reversa) que todos os conteúdos (ou seja, aquilo que a moral social exige ao artista), que todos os conteúdos já estão dados e, portanto, o que o artista tem a fazer é descobrir novas formas ou maneiras de como dizê-los; “o que a forma poética exige é apenas uma sequência regular e flexível, tão plástica quanto o próprio ...

mais uma sobre Cair de Costas

CAIR DE COSTAS (poesia 1992-1983) http://www.verbo21.com.br/v6/index.php/critica-rasteira-maio Sandro Ornellas  em resenha para o Cair de Costas Éblis, 2012. Cair de Costas , de Ronald Augusto, tem de ser lido como um esforço programático contra o beletrismo retórico de certa poesia mais reconhecível (como poesia) e contra o discurso do bom burguês embranquecido nos racismos brasileiros. Sendo ambos os esforços as duas faces da mesma moeda. Nos espinhosos versos de Ronald (que aqui reúne seus cinco primeiros livros de poemas), beletrismo e racismo são senha e contrassenha de uma mesma história que entende a transparência da comunicação como meio de hegemonia (também racial). Daí a tática do poeta: desnaturalizar vocábulos, escurecer significados e confrontar o senso comum (literário ou não) com uma sintaxe esburacada, proveniente de uma fala gaguejante somente discernível como um pretoguês poético. Por isso opta pela linguagem cheia de (re)quebras, arestas, fraturas ...

poetas maloqueiros e feministas

Breve entrevista que concedi ao poeta João Pedro Wapler, também colunista do website O Café. Mais em:   http://www.ocafe.com.br/2013/05/19/que-os-mortos-enterrem-seus-mortos/ - Qual a arte que mais instiga sua sensibilidade hoje?   O cinema, sem dúvida. É impressionante como o cinema levou apenas, mais ou menos, meio século para se firmar como arte autônoma, nesse curto período de tempo definiu e ensinou sua gramática ao apreciador. E a partir de um estilo de elipses radicais, conseguiu, no que toca ao quesito “contar uma história”, disputar a primazia narrativa com o romance. Nenhuma outra arte fez um percurso tão veloz. Ok, parte dessa velocidade deve ser creditada à dimensão industrial e tecnológica do cinema, mas isso em fim de contas depõe ainda a seu favor, pois os realizadores conseguiram criar obras primas mesmo sob a pressão dos tacanhos interesses meramente mercantis. - Vejamos, um escritor ou crítico é restrito ao âmbito literário e lá saca ...

Toda poesia Paulo Leminski

(fragmento de artigo cuja a íntegra se encontra em Sibila:  http://sibila.com.br/critica/uma-analise-da-poesia-de-leminski/9496 ) N ota avulsa ao livro Toda poesia Paulo Leminski . Depois da divisa “repetir para aprender; aprender para criar”. Leminski propôs o seu “aprender para chamar a atenção”. No filme It might get loud há uma cena onde aprendemos a eficiência precária do truque do chute na cadeira, truque que com relação à performática do músico serve de análogo ao estratagema da sacada na poesia de Leminski. Na cena em questão, Jack White canta e toca num piano desafinado e encardido o blues “ Sittin’on top of the world ”. Junto ao músico se encontra um menino que interpreta o próprio White aos 9 anos de idade, quando a música se aproxima do seu desfecho o guitarrista, num crescendo, começa a executá-la uma oitava acima, levanta-se da cadeira onde estava sentado e, enquanto toca com energia os derradeiros acordes, ensina ao menino, ele mesmo, o seguinte: “ If yo...

anotações para uma aula

Em termos das transações culturais o estranho é fundamental para a dinâmica das tradições. A identidade cultural se nutre do outro. Ela é antes antropofágica do que autofágica. Ela se renova no contato com o estranho. Pureza cultural é fascismo. Exterminar o estranho é uma forma de suicídio. Oswald de Andrade e a Antropofagia em sentido ritual e metafórico, i. é, como analogia aos processos de cruzamentos culturais. A razão antropofágica, segundo Oswald, pensa a identidade e o verismo nacionais em diálogo com os insumos “inimigos”, mas na perspectiva da invenção de algo original. O que importa é a margem de liberdade com que trabalha o canibal cultural na assimilação e na reacomodação dos dados do outro ou da herança universal devorados amorosamente, fraternalmente.  O foco de interesse para uma escrita que se pretende poética (em sentido Aristotélico), literária, deve ser a noção de estranhamento; estranhamento de linguagem. A particular comunicação poética press...

a inexistência da poeta que era mulher de verdade

nald Augusto [a] É conhecida – para os mais sensíveis talvez até demasiadamente – a afirmação do poeta Ezra Pound segundo a qual há uma classe de autores que, a rigor, não existe, porque, na verdade, é o ambiente literário que lhe confere uma existência. O meio literário (revistas especializadas, jornalismo cultural, concursos, prêmios, feiras, editoras...) constitui e fortalece, hoje, a recepção tolerante com formas medianas de literatura; em atenção à comunicabilidade transigente com a pressa e com o diluimento das ideias, a regra é não dar assunto ao difícil . De outra parte, a precipitação para os espécimes dessa literatura que qualquer indivíduo pode “acessar” – nesse saco entra, inclusive, a poesia, tida e havida, entre as artes da palavra, como a mais inacessível – merecerá crédito só até o momento em que deixar de ser vantajosa para o jornalismo a serviço de grupos editoriais mais poderosos. Todavia, a dinâmica que põe em ação todo esse esquema amplia tanto as ...