anotações sobre a coisa política na figura de barak obama



para Arnaldo Xavier , in memoriam

1. Prévias e campanhas eleitorais para a presidência norte-americana, e, mais tarde, o decurso mesmo de alguns mandatos presidenciais, com seus concomitantes entrechos, quer sejam novelescos, quer sejam trágicos, formam uma fabulação cujos capítulos acompanhamos sempre com compreensível interesse. E as razões para esse interesse são de toda ordem, vão desde a questão do perfil que assumirá a política externa do candidato vencedor, passando por seu reconhecimento sancionado ou não, por sua vez, pela entidade do sistema financeiro, hipostasiada em Wall Street, e chega até à especulação frívola sobre a eventualidade do presidente levar seu animal de estimação a bordo do avião presidencial. Já há algum tempo o Presidente dos Estados Unidos se tornou um personagem da indústria do cinema. Há o gênero “filme de presidente”. E em muitos deles o presidente assume foros de herói.

2. Quem veste a casaca, ou afivela a máscara da U.S. Presidency - isto é, quem fala “através de” -, encontra-se usualmente dentro do círculo restrito dos homens brancos e católico-protestantes. Embora John H. Stanfield acredite que alguns produtores de cinema eventualmente apostem no sucesso de um filme cujo presidente-personagem não coincide com essa regra, na vida real, um pretendente à presidência proveniente de outra fé religiosa, não importando se democrata ou republicano, e que, além do mais, fosse mulher ou negro, teria sua candidatura desacreditada. Entretanto, neste momento é justamente uma das possibilidades do discurso ficcional que parece encarnar na realidade norte-americana. Pelo pouco que foi dito aqui até agora, é difícil descolar a pessoa de Barak Obama de sua figura, da metáfora que ele representa. Diante das condições do pensamento contemporâneo, talvez seja um tanto impertinente afirmar isso, mas acima do cidadão Barak Obama como ser clivado de limitações contingenciais ou como um suposto eu autônomo, ergue-se a figura de Barak Obama como idéia. E em torno dela atuam contingentes expressivos de negros, de não-negros, de latinos, de asiáticos, etc., confiantes num devir de renovação. Esse homem projetado na sua idéia significa a imagem do que Stanfield chama “a promessa de uma justiça restaurativa” lato sensu, genérica na sua pretensão de validade social universalizável, abrigando sob o seu arco as diversas identidades implicadas no processo conflituoso do paradigma multirracial dos Estados Unidos. É neste sentido que faço minha grosseira interpretação figural da imagem de Barak Obama, descrita por Stanfield como uma promessa, uma prefiguração antecipando coisas novas que viriam. De acordo com Erich Auerbach (1892-1957), “figura é algo real e histórico que anuncia (ou prefigura) alguma outra coisa que também é real e histórica”. No conceito de figura não são desprezíveis também os vínculos com a verdade e as versões históricas dessa verdade. A figura plasma em sua hesitação, as similaridades entre ambas. Portanto, a proposta de política pública de Barak Obama para a sociedade americana visa a realizar na história presente, por mímese ou imitação, o que estava prefigurado ou anunciado no lance histórico da “justiça restaurativa” idealizada pelo Bisbo Desmond Tutu na década de 1990, como forma de reconciliação nacional no pós-apartheid sul-africano.

3. A semiótica das campanhas políticas e a prática política modernas reclamam uma base midiática de eventos e controvérsias de legitimação e de sustentação; o poder político-pessoal, ou a pulsão moral do candidato passam a ser como que “mais reais” através da propaganda. Ou seja, sua eficácia aumenta na mesma medida em que sua physis se desmaterializa ou se idealiza em atenção aos esquemas da narrativa da publicidade. A figura de Obama, agora como candidato oficial do Partido Democrata, enfeixa uma série de situações que conferem uma dimensão inovadora à sua candidatura. Obama, por exemplo, arrecadou o dinheiro para a sua campanha por meio da Internet junto a pessoas físicas. Desta forma, à diferença dos políticos tradicionais que tendem a se corromper no momento em que aceitam doações “não contabilizadas” de empresas, sua candidatura se reveste de uma possibilidade de independência inédita até agora.

4. Barak Obama é negro. No entanto, sua figura não simboliza nem dá prosseguimento ao sentimento dos líderes tradicionais do movimento negro americano que, segundo Stanfield, experimenta no momento um processo de declínio. Se Obama vier a ser eleito presidente ele o será e exercerá o seu mandato, em fim de contas, em nome de todos os americanos, independente das diferenças étnicas ou raciais e das múltiplas ancestralidades em jogo no desenho demográfico deste país. Barak Obama não é indiferente às disparidades entre brancos e não-brancos, mas sua visão a respeito das questões históricas que sempre interessaram aos movimentos negros tradicionais, não o denota como um político acovardado. Obama, em sintonia com um novo espectro político contemporâneo, abandona o radicalismo estereotipado dos movimentos anteriores e segue na direção de posições mais estratégicas ou mais propositivas. De outra parte, aqui se poderia discutir a propósito de uma possível impertinência em focalizar no plano da campanha o Obama negro stricto sensu. Pois bem, para a política real, a singularidade, a subjetividade do indivíduo, vale dizer, sua negatividade irredutível e fáustica, sempre a nutrir a desconfiança em relação a líderes, heróis torpes e organizadores da mediocridade – vistos como emissários do sistema – não tem outra conseqüência senão o corrompimento da concupiscente ordem republicana. Digamos, para todos os efeitos, que a afirmação da diferença do Barak Obama negro, nessas alturas é secundária, mas não irrelevante. De fato, não há uma radicalidade a informar a prática política. Talvez no caso da política (entendida como negociação e acordo) não se trate de uma radicalidade, mas, antes, de uma verticalidade de fachada e algo histriônica.

5. Entretanto, resta a alguns opositores brasileiros à candidatura de Obama a disposição algo maledicente de apresentá-lo como o negro-branco, no sentido de traidor de sua “essência”, talvez negra. No entanto, por um leve desvio, de cunho moralizante, podem chamá-la também de consciência negra. Mesmo em seu país, grupos negros o acusam de não pertencer à estirpe dos afro-americanos (uma categoria político-participante), porque não há escravos negros entre seus antepassados. E por ser um homem nascido na década de 1960, não figurou entre os protagonistas das lutas e das conquistas anti-segregacionistas. Não é racional diminuir a figura ou a representação política de Barak Onama pelo fato de pertencer a uma geração que “apenas” colheu os frutos (alguns amargos) dessas lutas históricas. Entretanto, na política em sua acepção fraca, e ainda mais num processo de candidatura ou de campanha eleitoral, vencer ou debilitar o oponente é tão ou mais importante do que convencê-lo, não interessando por que meios, isto é, estando ou não ao lado da razão. Arthur Schopenhauer, em A Arte de Ter Razão, investiga o discurso erístico e refere que elementos desse tipo de discurso não são estranhos, inclusive, à arte da dialética. O debate de idéias admite seus deslizes.

6. Assim - numa reflexão por contágio -, segundo as falácias de Tânia Jamardo Faillace, Obama não pode representar a esquerda porque ele está identificado com “os mauricinhos e as patricinhas” da elite negra americana. Para a jornalista combativa (outra categoria político-participante), ele é um simulacro de negro; sua imagem teria sido “bronzeada” pelo make-up da campanha eleitoral. Sua educação foi esmerada demais e acabou contaminada por uma espécie de branquidão espúria. A jornalista o “acusa” de ser rico e fascista. Além do mais, Barak Obama está fora da cadeia, ao contrário do que acontece com a verdadeira esquerda negra americana. Para a hegemonia branca é fundamental controlar o movimento dos negros, pois desde o instante em que nossos antepassados saíram da senzala sempre se levantam, aqui e ali, vozes tentando nos (re)colocar em nossos devidos lugares. A mobilidade de um negro é sempre muito bem monitorada. Censura de teor semelhante ao autor de Memorial de Aires à vezes ganha espaço nos debates culturais brasileiros. Joel Rufino dos Santos diz, por exemplo, que a prosa de Machado de Assis com relação aos preconceitos foi um “desdenhoso dar de ombros; e uma arte refinada e aristocrática, muito mais aparentada a êmulos europeus que brasileiros (...), “Literatura sem suor e sem bodum. Seu hercúleo esforço para embranquecer foi compreendido e ajudado”. Encaramos aí facetas da tolerância pós-moderna a limitar-se com o policiamento politicamente correto. O puritanismo dos fast thinkers representantes de uma certa esquerdofrenia. Mas, tolerância, e desde o ponto de vista de quem administra suas regras, quer significar, mesmo: até certo ponto. Creio que temendo um processo mais competitivo, a elite branca não tolera por muito tempo uma emergente elite negra. Com efeito, a maré montante de uma elite negra soa como algo contra natura; uma contradição entre termos. Tratar-se-ia talvez de uma classe negra mais cultivada cooptada por setores, por assim dizer, menos virtuosos da elite dos brancos solidários.

7. Na prática política tal como ela deveria quem sabe se nos apresentar, o cidadão compareceria à cena como o hipócrita leitor baudelairiano, performer-síntese das disputas de poder contidas no teatro social, o caroço mesmo das instituições e políticas públicas. Mas “em algum lugar da utopia, ou do ativismo político, operou-se o divórcio entre dirigente e dirigido, entre governo e povo”. A cidadania política deixa de ser a concreção da arte do diálogo e é rebaixada à condição de ruína glamourizada, monturo, despojo dos conflitos ideológicos. Não obstante, John H. Stanfield narra em seu artigo “The Obama phenomenon part two” o episódio brasileiro em que um vendedor de frutas, mesmo de posse do seu rude inglês apenas “para inglês ver”, ao perceber na fala de seu cliente (esse mesmo Stanfield) o acento americano, diz “Obama!”, e em complemento a essa mensagem fática, com vistas a manter um canal de comunicação aberto ou uma identificação mínima, sela o enunciado-senha oferecendo a Stanfield duas fatias de melão pelo preço de uma. E recentemente aqui em Porto Alegre, em palestra pública patrocinada por grandes empresas, o espalhafatoso Gerald Thomas manifestou com entusiasmo seu apoio à candidatura de Obama. E logo em seguida, o diretor de teatro também tornou público seu repúdio ao estado judeu. Mas ser pró-Obama não implica necessariamente uma conotação que envolva o escândalo, a iconoclastia sem margens ou um tipo de polêmica que atende mais aos anseios da espetacularização e da anomia do que de um debate conseqüente. Por outro lado, o “fogo amigo” de simpatizantes tresloucados de Obama não deve representar por sinédoque o candidato democrata à presidência dos Estados Unidos. Barak Obama parece ser mais elegante e inteligente.

8. No Brasil a figura de Barak Obama se constitui, para muitos, num salto de forma e fundo por sobre o “estigma da cor” ou do racismo velado que resulta numa introjeção, isto é, essa ambigüidade corrosiva no que diz respeito à auto-imagem do brasileiro, “moreno” em perspectiva. E que faz com que o caráter - já nem tão macunaímico - desse povo sem direito à preguiça se ressinta de uma insatisfação consigo mesmo. Não parece ser fácil produzir um pensamento aberto no interior de um ethos dos “panos quentes” que é típico de um país cuja mestiçagem é fruto do estupro escravagista e que, a um só tempo, se ufana e se envergonha de tal desenho étnico. Acrescente-se também essa tradição a que nos aplicamos, a saber, a de não debater com franqueza nossas mazelas constitutivas. Ao mesmo tempo, dirigente e dirigido, por meio de seus discursos, se auto-incriminam, ou seja, deixam entrever resquícios de preconceito na textura mesma de suas cogitações a respeito do assunto. Mas, isso não diminui a riqueza do quadro apresentado, pelo contrário, essas contradições acentuam os aspectos transformadores em estado de fermentação e que, ao fim e ao cabo, se lançam desde a mais profunda subjetividade e de sua árdua tradução.


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