o calígrafo em Casa de Máscaras



péricles prade


Entro em Casa de máscaras pelo pátio dos fundos. O crítico “rasteja/ a sombra [as sobras] à procura do corpo”, da parte viva, daquilo que, paradoxalmente, o signo mata e em seguida regenera por meio de uma forma constelada na página, ou seja, a qualidade do sentimento. Manchas gráficas que se compaginam, rastros indiciais da festa do intelecto (do espírito em espiras) de Péricles Prade. O poeta dá continuação ao seu esforço pleno de iluminações fortuitas seguindo resoluto para o indeterminado. Esse poeta que a um só tempo irriga e põe em questão a tradição tipográfica de que é filho, fecha Casa de máscaras agora como calígrafo. Rasuras de punho contra a usura dos significados dicionários, sua estocada de nanquim sobre a página branca e mallarmaica desenha um percurso textual de essencial intraduzibilidade que vai do nigredo (sepultamento do sentido) ao rubedo (epifania via linguagem), passando pelo albedo (pureza aquém-lexical). No centro de Casa de máscaras há uma chama pura, o fogo de um cristal que se refrata, sanguíneo como o vestido de Beatrice: “[...] arde muito mais o amor/ quando o fogo do sonho o precipita”.
Mas o leitor entra em Casa de máscaras por onde melhor lhe aprouver, pois para o leitor melífluo de Prade (leitor ulisseida, aventureiro e venturoso em meio ao mar controverso dos discursos) vale o que Cervantes antecipa ao seu “desocupado lector” na soleira do Quijote: “[...] estás en tu casa, donde eres señor della, como el rey de sus alcabalas”. De outra parte, os sentidos que o senso comum faz gravitar em torno à área semântica do vocábulo “casa” (refúgio, segurança, intimidade etc.), de pronto dão lugar a uma arquitetura tortuosa, ao dédalo de um pesadelo persecutório onde o leitor, num labirinto sem margens, foge de si mesmo no encalço de sua sombra gaiata; como se se observasse num espelho que refletisse sua imagem sempre de costas. Espada de lucidez feérica contra as espáduas do leitor, esse herói sem epos.
Casa de máscaras é uma nebulosa verbal suspensa nos negros espaços do confinamento das páginas de um livro. Algo infenso ao mundo, fechado entre os dois parênteses da linguagem. Além e aquém de suas entradas e escapes, o mundo é sonho. Casa de máscaras representa uma face da escritura que se mostra irredutível a qualquer propósito exterior a ela. Pois, à diferença dos outros discursos que têm como ponto de partida – e de chegada – a palavra, para a poesia de Péricles Prade “a hipótese de um conteúdo comunicável”, anterior ou posterior à fatura mesma do poema, seria um absurdo contraproducente na vertiginosa economia poética da linguagem. Evoco, a propósito, o primeiro terceto do poema “Fogo do sonho” (do qual já citei outros versos, mais acima): “Obras geniais neste espaço tenho:/ em cima e na parte de baixo, onde/ a biblioteca o mundo meu resume”.
Mais uma vez Prade nos guia, sedutoramente, através de um universo estranho e, no entanto, permeado por precários sinais da realidade. No entanto, esse guia perverso, e aqui cumpre não perder de vista o lastro etimológico que recupero ao qualificativo (“perverso”, do latim perversus = posto às avessas) faz tão largos os aposentos de Casa de máscaras que sua “realidade” põe em xeque a própria vida, tornando-a um pesadelo fragmentário. Assim, essa tensão entre a unidade do âmbito poético de Casa de máscaras e a distância remota da vida que deveria estar ao alcance da mão, é a fonte do poder sugestivo da linguagem de Péricles Prade. O mundo “mudo de luz” às vezes retorna e entra pelas escotilhas desse híbrido de casa e de barco ébrio por meio de um lampejo sonoro, rasgo de similitude entre o interno e o externo, o íntimo e o alheio, o individual e o dual do antagonista enquanto persona: “Sei que o tempo desta casa/ é outro, agudo como a voz perfeita/ da soprano negra Jessye Norman”.
À luz desse sentido, por assim dizer, virtuoso que gosto de entrever no étimo pervers-(ão), pois a prova dos nove da sua alegria implica desarrumar as coisas, arrancar cada situação-objeto do seu lugar consagrado pelo uso ou pelo cansaço propondo novas interpretações e desfechos, enfim, é à luz desse vetor que recomeço minha leitura “desocupada” pelo começo de Casa de máscaras. Mas há algumas anotações que precedem esse ponto inicial. Vejamo-las.
Lançando mão de uma visada plongè (de cima para baixo), constato a reiteração de valências no nomadismo rigoroso do poeta. Assim, essa reunião de poemas de Prade se divide em quinze recintos (seções) e em cada um deles há um preciso e precioso mobiliário de sempre cinco poemas, nem mais nem menos, perfazendo uma conta total de setenta e cinco peças. A exemplo do que acontece em Sob a faca giratória, com a diferença de que essa obra tem apenas dez recintos (seções). À diferença das cinquenta peças desse e que o fecham nos preceitos do equilíbrio e da ordenação inerentes ao número par, Casa de máscaras, por seu turno, se abre ao desequilíbrio e à precipitação inventiva do número ímpar. Por outros meios nos diz essa voz belicanora por detrás do poema inaugural do livro, dentro da seção “Espelho antigo: reflexos”: “[...] reflito a explosão/ de granadas disfarçadas”. O poeta se sabe bifronte, ambíguo, cortesão divino e malévolo da função poética: “Perverso/ no que faço/ e não faço”. Athanor prepara no forno de suas entranhas bibelôs combustos, duelos metafóricos e filosofemas que fosforescem “em febris movimentos”.  Vertido às avessas o poeta, de acordo com a necessidade, faz de tudo e de nada com a linguagem.
Em Casa de máscaras, afetiva e efetivamente a linguagem se faz de tudo e de nada. Cada poema se consome em sua própria chama de horror e de beleza. Homérico, menos crédulo do que cego, o poeta reza “com palavras embutidas”. Há um movimento fracassado, interrompido, da indeterminação para a determinação, ponto onde o leitor comum aguarda sequioso por uma “última explicação” que o desobrigue de empreender essa aventura ao (seu) desconhecido. Péricles Prade repropõe a noção de “poesia pura” pelo traço da indeterminação, o que faz dele, felizmente, um poeta cujos ombros não cabem dentro da moldura da virtude que suporta a provação da respeitabilidade. E essa pureza idiossincrática lhe permite, por exemplo, o acinte libérrimo de versos como: “Regenero-me/ atraído pela ninfomaníaca/ transformada em sêmen/ [...] / Então/ espécie de um deus/ manco, serei guardião ungido pelo sacerdote herege”.
O que há de essencial, de irredutível, nesses poemas como que caligrafados de Casa de máscaras; o que é próprio e único de cada um desses poemas não pode ser vertido em língua de todos os instantes, ou seja, não cabe na fala nem na linha da prosa. Do mesmo modo, o que haverá de irredutível na materialidade desses textos e que eventualmente fará de alguém um alguém-leitor apetitoso de tal poética também não pode ser comunicado.
“O pensamento/ desenha castelos/ no papel sem manchas/ [...] / “[...] sonhos/ na ponta do lápis invisível”. Esse conjunto de versos metaforiza à maravilha a impressão que experimento diante dos poemas de Casa de máscaras, ou seja, de que, na verdade, leio de maneira quase háptica uma série de poemas caligrafados, escritos-rasurados à mão. E que por outro lado, o seu parti pris hermético ou esotérico não é senão o corolário dessa ação física sobre o suporte papel e que exige de mim uma decodificação mais rente dos sentidos do que do intelecto. É como se por um ato de prestidigitação, Prade tivesse transplantado para o padrão gráfico-editorial do texto impresso o gesto precário do esboço à lápis, da delicada ranhura grafológica. A caligrafia poética dos escritos de Casa de máscaras participa tanto do desenho (Péricles Prade almeja um livro mudo) quanto da escrita. Portanto, a circunstancial imprecisão ou obscuridade dos poemas, se produz mais a partir dessa virtual materialidade do traço feito pelo punho. O impreciso está no corpo significante do poema diagramado febrilmente na folha e não no significado que dele se desprende por uma série de operações mentais, esses “[...] fantasmas ridentes/ brincando nos sonhos”.
Afinal de contas, o texto multifário de Prade (considerando a figura total dessa obra em sua feição presente) não tem que ser associado à utilidade meramente semântica, mas, sim, à fruição vadia do pensamento-arte que não resolve nada; é nesse sentido que uma moral e um conteúdo localizados antes ou depois do corpo a corpo do fruidor com o texto, vão se constituir numa espécie de camisa-de-força, num desvirtuamento da relação inextrincável entre forma e fundo.


Em http://www.revistaosiris.com.br/dossie-critica-ronald_augusto.html pode-se ler a íntegra do tríptico que escrevi sobre o escritor Péricles Prade.

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