O que fazer com o esteta e o moralista?




O que fazer com o esteta e o moralista?
Ronald Augusto[1]

A estética, ao que parece, é um campo hesitante e algo controverso, capaz de, inclusive, confundir o interessado quando sua consideração a propósito do tema se dá, por exemplo, através dos termos dos pensadores do idealismo. De outra parte, aísthesis, o conceito grego de onde se origina a disciplina, significa sensação, sentimento. Mesmo que, historicamente, seja considerada como um ramo da filosofia, a estética aqui e ali é representada como uma disciplina meio lateral ou menos estável, afinal, a investigação estética não se dedica necessariamente a formas artísticas constituídas; seu interesse, de vocação esclarecida e racional, por experiências da sensibilidade e do afeto que se relacionam a uma série de objetos, a coloca, no entanto, constantemente em situações movediças e fungíveis, ainda mais quando se trata de determinar a precisão dos juízos e conhecimentos pretendidos.
Um argumento que sustentaria a tese da instabilidade da estética e de sua condição subsidiária dá conta de que se quisermos compará-la a outros ramos da filosofia, vamos concluir que é muito jovem ou recente, isto é, o debate a respeito ainda não se apóia em uma longa tradição. Essa tradição de textos e visões estéticas ainda seria incipiente? Talvez sim, porque a disciplina só vai conquistar certa autonomia no século 18, graças ao idealismo alemão. Antes disso, apesar da Poética de Aristóteles ou do tratado Do Sublime de Longino, o pensamento da Antiguidade, grosso modo, se debruça sobre as relações entre o Belo e as artes ou dedica atenção às formas e manifestações simbólico-intencionais que se apresentam relevantes socialmente.  
Contudo, se quisermos conceder crédito à idéia de que a tradição de textos e visões estéticas ainda seria incipiente, então, neste caso podemos aventar a hipótese de que é uma questão de tempo até que a disciplina venha se tornar um ramo mais maduro da filosofia, pois à medida que as disputas comecem a se constituir em argumentos, em discursos e textos sobre a matéria, ela terá chance de se revelar como um campo interpretativo nem tão secundário e nem tão vago assim. Por outro lado, há o entendimento de que um dos problemas da estética é justamente a dificuldade de determinar qual o seu objeto, qual a matéria da estética.
Nem a repetitiva questão “O que é arte?” serviria como a base sobre a qual a análise estética se assentaria. A expressão-indagação não é tão clara e auto-evidente como parece, uma vez que, como já dissemos, a estética tal como é admitida hoje, não se refere apenas aos objetos de arte. Em alguma medida sua interpretação parece recair sobre os modos como a recepção é afetada por experiências sensíveis quer sejam artísticas ou não.  Isto é, dizer que a estética tem a arte como objeto não resolveria o impasse. Ou isso talvez até resolvesse, não fosse o conceito de arte algo tão fugidio e plástico. Tendemos a reconhecer que desde as vanguardas da virada do século vinte e as posteriores rupturas pós-modernas e contemporâneas uma definição de arte se torna cada vez mais distante de nossos esforços. Aliás, há quem afirme mesmo que o que interessa em arte é a antiarte.  Pode ser. Entretanto, me parece que sempre foi muito árduo pensar tanto sobre objetos artísticos, quanto sobre nossa relação com eles. Mas disso não se segue que as investigações devam ser canceladas.
Analogamente, com relação à ética também não é nada fácil pensar sobre nossas ações e suas consequências na interação que levamos a efeito com os demais sujeitos sociais. Isso quer dizer que a afirmação segundo a qual a questão decisiva da ética seria, por exemplo, “como viver uma vida boa”, também pode ser interpretada como uma questão que nem sempre dá conta de traduzir as contradições do esforço ético tanto em dimensão investigativa quanto em dimensão prática. Ou, de outro modo, qual a efetividade das teorias e dos tratados morais da tradição filosófica, seja sobre nossa forma de pensar a respeito do assunto, seja de um ponto de vista normativo? A este propósito, cabe lembrar que o moralista imaginado por Nietzsche é um sujeito que entende a moral como algo a ser interrogado, como um problema, algo que a qualquer momento pode ser posto em questão. Para Nietzsche o moralizar representaria, portanto, um gesto imoral.
O esteta se torna um impostor quando, ao invés de investigar, pretende arbitrar uma decisão sobre nossos juízos de valor e prazeres quanto às experiências sensíveis, apresentando uma solução, por exemplo, para o problema do gosto, isto é, se seríamos reféns de convenções determinadas social e culturalmente, ou se o gosto e a sensibilidade teriam sua justificação em aspectos subjetivos ou arbitrários. Por fim, a investigação estética não precisa ceder à panaceia relativista, nem ao fervor analítico que defende a fruição pura ou desinteressada. Talvez um punhado de ceticismo, sem outro interesse que não o respeito crítico à impertinência do pensamento, fosse útil para o caso.


[1] Ronald Augusto é poeta, letrista e crítico de poesia. Formado em Filosofia pela UFRGS. Autor de, entre outros, Confissões Aplicadas (2004), Cair de Costas (2012), Decupagens Assim (2012), Empresto do Visitante (2013), Nem raro nem claro (2015) e À Ipásia que o espera (2016). Dá expediente no blog www.poesia-pau.blogspot.com  e escreve quinzenalmente no http://www.sul21.com.br/jornal/


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