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lira dos cinquent'anos

Vamos acomodar algumas melancias nessa carroça da crítica de cultura: Micheal Jackson foi um gênio da música pop, a mais desbragada. Sua performance, na totalidade musical, corporal e vocal que a constitui, vem de uma linhagem motown que jamais recusou o viés da escola entertainer sobre a qual se assenta toda a atitude cultural norte-americana. O qualificativo de medíocre lançado, eventualmente, contra o caçula do quinteto dos Jacksons, cheira à coisa de intelectual "fuckfurtiano", mesmo.

p. s. ao livro meu amor, de b. bracher

Retorno mais uma vez, e um pouco a contragosto, ao volume de contos Meu amor , de Beatriz Bracher. Mas, por quê? A primeira razão reside no fato de que toda visada crítica representa apenas uma leitura possível, e como escreve Wittgenstein, em texto cuja referência não sei mais onde recuperar: “(...) não existe uma ´última` explicação. É o mesmo que dizer: nesta rua não existe uma última casa; pode-se sempre construir uma nova.” Resolvi, assim, acrescentar mais alguns tijolos visando à construção de um “puxadinho” junto ao gongórico prédio que tentei levantar anteriormente na tenção de ler a estréia de Beatriz Bracher na arte do conto. A segunda razão é que à diferença de alguns críticos, que como resenhistas se revelam excelentes “orelhistas”, ou prefaciadores retardatários, me afino mais com a ideia de que o comentário demasiadamente elogioso produz mais indiscrições que a censura. Assim, escrevendo um pouco mais e nessa linha sobre o livro de Bracher, continuo respeitando-a mais ain...

acordos precários

“Supõe-se que a prosa está mais perto da realidade que a poesia. Entendo que é um erro. Há um conceito, atribuído ao contista Horacio Quiroga, que diz que, se um vento frio sopra do lado do rio, deve-se escrever simplesmente que: ‘um vento frio sopra do lado do rio’. Quiroga, se é que disse isso, parece ter esquecido que essa construção é algo tão distante da realidade quanto o vento frio que sopra do lado do rio. Que percepção temos? [as percepções também são irredutíveis; cada pessoa captará, com maior ou menor ênfase, e desde o seu recorte de desejo, um determinado lance do real; a propósito disso cabe lembrar a questão das afasias; há uma correlação entre as idiossincrasias da percepção e da expressão - r. a.] Sentimos o ar que se move, a isso chamamos vento; sentimos que esse vento vem de certa direção, do lado do rio. E com tudo isso, formamos algo tão complexo quanto um poema de Góngora ou uma sentença de Joyce. Voltemos à frase: ‘o vento que sopra do lado do rio’. Criamos um s...

o passado não tem fim

manuel bandeira, meu poeta soberano Trecho de uma entrevista antiga (2006) concedida ao poeta Carlos Besen que capitaneava o website Algaravária . Porque poeta? Ronald Augusto - Lá pelos meus 12 ou 13 anos, minha mãe me escolheu como o ouvinte primeiro de seus poemas. Aquilo para mim foi uma tortura. Ela lia, entusiasmada, os seus versos. Meu jeito quieto e reflexivo ou minha condição de filho mais velho, talvez tenham lhe sugerido a idéia de que eu seria o leitor/ouvinte adequado. Fiquei sem palavras. Era tudo muito chato. Uns três anos depois, escrevi meus primeiros versos. Que lição tiro disso? Nenhuma. Qual sua trajetória literária até o primeiro livro? E do primeiro para o último? RA - Duas perguntas que suscitam respostas intermináveis. Mas, não vou dar essa alegria ao divino internauta. Escrevi muito e li, durante algum tempo, só Manuel Bandeira. Depois dos poemas motivados pelas paixões da adolescência, resolvi sondar a real qualidade do que eu vinha escrevendo. Entrei em co...

a prosa pop de bracher em Meu amor

No tocante às preferências (e quase se poderia falar em prerrogativas) da abordagem estética contemporânea relativamente às fronteiras entre os gêneros literários e artísticos, é quase um fait acomplit se dizer por aí que aquelas obras em que se pode referir índices de hibridismo, ou de cruzamentos discursivos, estão condenadas, por assim dizer, a uma recepção positiva e tolerante. Com efeito, poder-se-ia ainda perguntar: dentro de um traçado de rupturas e de apagamento dos limites sígnicos inaugurado e suportado pelo alto modernismo (o versilibrismo projetado no espaço da página, o romance-rapsódia, a assemblage, etc.) e que, desde então, parece ter se constituído no cânone da representação que lhe segue, o que pode a mera reiteração de uma conquista injetar de novo em tal corrente sangüínea? O autor que decide tomar como ponto de apoio para o construto de seu texto a imagem de uma obra em devir, cuja estrutura maleável não admite que se lhe enquadre nem na poesia, nem no conto, nem ...

minha colher torta no haikai

Hattori Tohô, um discípulo de Bashô escreve em seu Livro Branco que o canto “é uma expressão em palavras do que sente o coração”. De outra parte, o senso comum entende que a poesia é expressão do sentimento e das emoções. Esta pseudo-definição pretende significar que a poesia é pura expressão. Mas, os bichos também se expressam. Por meio do instinto manifestam satisfação, medo e raiva. Expressão é uma coisa, arte é outra. Quando o discípulo de Bashô diz que a poesia (e por extensão a arte) é uma “expressão em palavras”, somos obrigados a reconhecer o aspecto da intencionalidade, pois há um meio através do qual e sob o influxo de uma vontade algo é expresso. No momento em que levo em consideração o meio, isto é, uma mediação de signos, já não há mais emoção pura. O grito, o urro, o muxoxo, o suspiro, enfim, tudo isso tem que soar afinado, pois o que está em perspectiva é um canto, em outras palavras: a arte. Poesia, música, pintura, haikai. O haikai é o elogio da lacuna,...

the congo de vachel lindsey agora em português

www.editoraeblis.com Do ponto de vista de sua ideologia The Congo — study of the negro race /Congo negro (Editora Éblis, 2009) para o paladar contemporâneo, pode ser interpretado como um poema ultrapassado. Em seus versos, formas clássicas de preconceito racial e religioso contra o negro vêm à superfície a todo o momento. Neste sentido, a intenção pretensamente esclarecedora contida no sintagma que complementa o título do poema, tem algo de patético, pois esse “study of the negro race” se revela tão vincado de superstições e estereótipos com relação ao seu objeto de estudo que acaba por obliterar a possibilidade efetiva de algum desvelamento a propósito das perplexidades e dos signos envolvidos na fatura da obra. Mas o poema de Vachel Lindsay não é um caso isolado dentro das contradições que envolvem uma tradição de representação do outro dentro da literatura. As imposturas que acompanham inadvertidamente suas boas intenções são verificáveis — e similares àquelas encontradas — também...