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a compaixão mais forte

o poeta edson cruz O que é e já foi, um dia, o homem – ou o ego scriptor de – Edson Cruz, está muito bem presentificado via linguagem (sistema que se exaure e se renova a cada gesto poeticamente crucial) nesse conjunto de poemas intitulado Sambaqui . Se o poeta, parafraseando um trecho do poema “Caravana solitária”, por meio do desatino da linguagem, consegue “acariciar” o seu próprio destino, isso tem a ver com as limitações inerentes ao objeto verbal de que se serve, pois “as palavras não sabem/ nem saberão...” dar conta dos sentidos (e não do sentimento) do mundo. A poesia de Edson Cruz faz menção lateral à humildade (enquanto estilo poético) de Manuel Bandeira, uma compaixão mais forte, desonerada de qualquer martírio ou inação contemplativa. O poeta está comprometido e em ação, mas sempre com e via linguagem: “tantas intenções projetadas/ e continuamos a tatear/ redundâncias”. Edson faz crítica através da linguagem, isto é, através dos jubilosos equívocos semânticos que nutrem ...

a segunda parte da entrevista ao joão pedro wapler do Café

O seu mestre na poesia nacional eu sei que é Manuel Bandeira. Mas no campo internacional, qual o poeta que você tem mais identificação? Na perspectiva da figura do poeta-crítico, isto é, aquele sujeito que pensa as imposturas e as virtudes do fazer poético numa relação viva com a tradição, minha referência é Ezra Pound. Já em termos de singularidade de linguagem, isto é, os poemas realizados e contidos em livros, que deixo ao alcance da minha mão, cito Dante e Mallarmé. Você tem o seu trabalho solo como cantor/compositor e também faz parte dos poETs . Qual o prazer que a música lhe traz que é impossível de ser preenchido pela poesia? A convivência mesma com músicos, que são infinitamente menos chatos que poetas. A música me garante uma pausa saudável no verbal e na vaidade que, misturada à inteligência, vira desprezo. Seu trabalho como crítico é bastante prolífero. Você escreve com frequência no site Sibila e nos seus blogs Poesia Coisa Nenhuma e Poesia-Pau . Você acha que na pós-moder...

pausa para o café

uma entrevista divertida que concedi ao poeta joão pedro wapler http://ocafe.com.br/ Você é poeta, músico, compositor, crítico literário e professor. A pergunta pode parecer um pouco conservadora, mas vai lá: em que ordem de importância essas atividades estão hierarquizadas na sua vida? Respondo com algum conservadorismo afetivo e ao mesmo tempo levando em conta questões objetivas. Ou seja, em função da antiguidade e de uma “educação dos cinco sentidos”, a poesia e a música seriam mais importantes, no entanto, nos últimos tempos tenho me aplicado mais na atividade crítica, inclusive porque tenho sido solicitado mais nesse aspecto. Na prática, hoje, todas são importantes, pois vou atendendo às demandas internas (minhas) e externas (alheias) que surgem a partir de cada vertente; há um momento para cada coisa, uma oportunidade para cada uma dessas personas. A poesia como gênero está, em muitas instâncias, mais próxima de outras manifestações artísticas do que da própria litera...

A falência da poesia e do crítico moralizador

Embora o exercício da crítica literária – que não é senão uma forma de fazer relações sígnicas e de interlocução parcial a partir de um objeto verbal construído seja sob que motivação social, individual ou metafísica, enfim, desde os contornos de uma objetividade em perspectiva ou, ainda, desde uma subjetividade tornada precisa: o poema mesmo, coesão fundo-forma –, enfim, embora essa crítica me interesse muito, sei que se trata de um texto segundo, subsidiário, uma forma discursiva circunscrita a margear os rastros da linguagem do poeta (se não soasse retrô eu poderia dizer genericamente “do artista”, envolvendo outros modos de expressão, mas esse comentário se restringe, infelizmente, às coisas da poesia). Talvez me acusem de reducionismo, mas, encurtando o caminho, prefiro concordar com a ideia de que a crítica é tão-só mais uma forma de paratexto, ou seja, no sentido em que, segundo Gérard Genette, “o ‘paratexto’ consiste em toda série de mensagens que acompanham e ajudam a explic...

Poesia sem pele e os seus celibatários

por Ronald Augusto [1] O título do conjunto aponta para a ideia-imagem da poesia como carne viva; corpo tecido, construído, coisa mortal redimida pela linguagem. Ou ainda, como se a poesia fosse um discurso que, à força de desnudar tanto a fragilidade do universo (no sentido de ser algo que veio a se constituir contra todas as probabilidades), como o absurdo da condição humana, teria que se submeter necessariamente ou, antes, simultaneamente, a um autodesnudamento. Talvez por isso, Poesia sem pele apresente um significativo número de metapoemas ou de poemas que, ao mesmo tempo, pensam aspectos relativos às determinações da poesia, bem como investigam os dilemas da intuição estética. Ou seja, a poesia desnuda sua pureza aos seus celibatários, os leitores a serem comovidos. Comover envolve algumas dessas acepções: provocar ou sentir enternecimento; fazer perder ou perder a dureza de alma. Lau Siqueira inscreve sua poesia (corro o risco de simplificar demais, mas vá l...

escavando a tradição no presente

O que é e já foi, um dia, o homem – ou o ego scriptor de – Edson Cruz, está muito bem presentificado via linguagem (sistema que se exaure e se renova a cada gesto poeticamente crucial) nesse conjunto de poemas intitulado Sambaqui . Combinação de ecos, camadas: acervo harmônico , em sendido marioandradino, isto é, por oposição ao melodioso , ao dócil. O soft de base e o hard alusivo, entrelaçados em sua poesia, reconhecem similaridades entre John Cage e o samba, entre as redundâncias e a vertigem da cegueira, entre a dádiva imerecida e o sal que corrói a pele da alma. Edson Cruz é um poeta que mobiliza as palavras no poema de modo a deslustrar o entendimento pela intuição e a sugerir o entulho no antolho do sabido. O silêncio, constitutivo da composição do poema, uiva vivo em Sambaqui , para Edson Cruz trata-se de um “cão sem dono/ entregue/ à própria sorte”.

o conteúdo é uma função da forma

Entrevista com Ricardo Primo Portugal e Tan Xiao Para a entrevista contei com a colaboração da poeta Denise Freitas http://sisifosemperdas.blogspot.com/ Ronald Augusto: Falem um pouco sobre a biografia da poeta Yu Xuanji. Ricardo Primo Portugal e Tan Xiao : Yu Xuanji é uma personagem controversa. A primeira impressão que dá, quando a gente começa a se relacionar com ela, com sua poesia, é de que encontramos a versão feminina e chinesa clássica de Rimbaud... Estou fazendo aqui uma comparação obviamente exagerada e um pouco jocosa – ao mesmo tempo em que carinhosa, quanto a ambos os poetas, que amo como a dois bons amigos que me perdoariam este excesso... –, mas não de todo inadequada. Como Rimbaud, ela teve a genialidade precoce e a capacidade de usar a tradição em um sentido novo e sensualista, indo mais longe dentro de tendências que já se verificavam na literatura da época. Também a relação vivencial com a poesia – e nisso ela é uma curiosa precursora da modernidade –, a fus...