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a inexistência da poeta que era mulher de verdade

nald Augusto [a] É conhecida – para os mais sensíveis talvez até demasiadamente – a afirmação do poeta Ezra Pound segundo a qual há uma classe de autores que, a rigor, não existe, porque, na verdade, é o ambiente literário que lhe confere uma existência. O meio literário (revistas especializadas, jornalismo cultural, concursos, prêmios, feiras, editoras...) constitui e fortalece, hoje, a recepção tolerante com formas medianas de literatura; em atenção à comunicabilidade transigente com a pressa e com o diluimento das ideias, a regra é não dar assunto ao difícil . De outra parte, a precipitação para os espécimes dessa literatura que qualquer indivíduo pode “acessar” – nesse saco entra, inclusive, a poesia, tida e havida, entre as artes da palavra, como a mais inacessível – merecerá crédito só até o momento em que deixar de ser vantajosa para o jornalismo a serviço de grupos editoriais mais poderosos. Todavia, a dinâmica que põe em ação todo esse esquema amplia tanto as ...

Os versos fraturados de Orfeu da Conceição

Ronald Augusto [1] “E uma última palavra: esta peça é uma homenagem ao negro brasileiro, a quem, de resto, a devo; e não apenas pela sua contribuição tão orgânica à cultura deste país - melhor, pelo seu apaixonante estilo de viver que me permitiu, sem esforço, num simples relampejar do pensamento, sentir no divino músico da Trácia a natureza de um dos divinos músicos do morro carioca.”   Vinicius de Moraes Essas anotações (deixadas à parte e incompletas), relativas aos tópicos verso/métrica e metapoesia, são estudos provisórios com vistas a uma futura aventura de análise que, espero, não demore a acontecer, e nasceram de forma subsidiária de um artigo que escrevi a propósito de outros aspectos da peça Orfeu da Conceição de Vinicius de Moraes. A tragédia carioca foi encenada pela primeira vez em 1956 no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. A obra Orfeu da Conceição é, sob vários aspectos, desbravadora, pois o poeta, se antecipando a muitos autores de teatr...

para não jogar conversa fora

(fotograma do filme Assalto ao trem pagador de Roberto Farias, 1962) Para a matéria publicada em Zero Hora  Pesquisa revela perfil dos escritores e personagens da literatura brasileira contemporânea   (link abaixo)* fui procurado para responder a duas questões relativas ao assunto; respondi, mas por alguma razão nenhuma delas foi aproveitada no debate. Para não jogar fora meu esforço divido com os meus  amigos as respostas com que atendi ao convite que me foi feito pelo jornalista responsável pela matéria. ZH - A pesquisa de Regina Dalcastagnè mostra, com números, que o perfil médio do escritor brasileiro é homem, branco, com diploma superior e morando no Rio e em SP (72,7% são homens e 93,9% são brancos). A conclusão dela é que a literatura não é um campo tão livre como se costuma dizer, mas um território para poucos. A presença de escritores que fogem desse perfil médio, segundo Regina, causa desconforto no meio literário. Como você vê es...

TRANSNEGRESSÃO

TRANSNEGRESSÃO 1              No período em que morei na cidade de Salvador, Bahia, final da década de 1980, fui procurado, certa ocasião, por uma estudante alemã que desembarcara no Brasil disposta a realizar um minucioso estudo sobre a literatura negra brasileira. A jovem estudante demonstrava grande entusiasmo diante de tudo o que se lhe apresentava. Antes de Salvador havia passado por São Paulo e Rio de Janeiro, onde conheceu, respectivamente, o genial Arnaldo Xavier e o glorioso Ele Semog. Posteriormente, estes poetas encaminharam-na a mim e a outros escritores também residentes em Salvador. Tivemos, se bem me lembro, dois ou três encontros de trabalho envolvendo entrevistas e leituras comentadas de poemas. Numa dessas reuniões, apresentei-lhe sem prévio comentário um poema caligráfico-visual. A jovem alemã, cujo nome prefiro omitir, se pôs a examinar e re-examinar aquelas traços opacos de sentido, e que, de resto, não ofereciam senão ...