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crítica na internet: torcidas desorganizadas

Não sei se o caminho ou o espaço da atividade crítica será em definitivo o da internet, digamos apenas (de um modo bem cauteloso) que, neste momento, é aí que ela tem se manifestado de maneira mais avassaladora e complexa. Por outro lado, quando o jornal e o jornalismo – tidos e havidos até há pouco como as plataformas da intervenção crítica – disputam o qualificativo “barato”, na esperança de falar o mais rente possível aos desejos dos seus leitores, o resultado imediato é a depreciação da possibilidade de alguma forma de análise. O fato de a internet (blogs e redes sociais) ser um território, em certa medida, mais democrático ou anárquico, parece dar margem tanto para a mais destemperada opinião de seguidores do que quer que seja, quanto para a viabilidade de um pensamento crítico, vamos dizer assim, não tutelado. O interessante é que o juízo crítico nunca cessa; queiramos ou não sempre iremos topar maus, bons ou excelentes críticos e escritores. Não posso afirmar se essa m...

“Resposta à pergunta: Que é ‘esclarecimento’ (Aufklätrung)?”

A intenção deste texto é a de tentar explicar, o quanto possível e de forma sucinta, como Immanuel Kant entende o conceito de “esclarecimento” ( Aufklätrung ) que, segundo o filósofo, é relacionado tanto ao indivíduo, como à sociedade e sua época. À questão “que é o esclarecimento?”, Kant responde com um breve texto publicado em 1783 na revista Berlinische Monatsschrift . De modo bastante objetivo, Kant inicia o primeiro parágrafo do seu ensaio já com uma definição para Aufklätrung , a saber, “Esclarecimento é a saída do homem de sua menoridade, da qual ele é o próprio culpado” [2] . No entanto, esta definição inicial parece apenas substituir um problema com outro, ou seja: esclarecimento é não-menoridade; sim, mas antes de saber o que não é, não seria o caso de procurar entender o que se quer dizer com “menoridade” e por que a permanência em seus limites implica culpa? Na frase seguinte o filósofo avança um pouco mais e nos apresenta a seguinte formulação: “A menoridade é a...

vinho bom: bala de luis turiba

                                        Antes de tratar do objeto desta resenha, isto é, o livro Bala , do poeta Luis Turiba, abro parêntese para uma breve rememoração (e como se verá mais adiante não nos desviará do foco inicial), rememoração que diz respeito à alegria que experimentei ao me deparar com Bric-a-Brac , revista brasiliense dos anos 90 dedicada à poesia e às demais formas de arte.             Com um design gráfico atento tanto à experimentação, quanto ao mais alto padrão visual estabelecido pelas publicações do período, Bric-a-Brac chegava afirmando o ecumenismo quer no campo estético, quer no campo das ideias. Para exemplificar até que ponto se entrelaçavam em suas páginas a mestiçagem cultural e a vocação pan-semiótica, destaco algumas colaborações do número de dezembro de 1990, vejamos: um poema de H...

cair de costas, outra leitura

A finalidade sem fim kantiana na poética de Ronald Augusto Por Adriano Nunes   [Tradutor e  poeta. Autor do livro "Laringes de Grafite" (Vidráguas, 2012)  ] Quando um livro são cinco, por onde começar? O que parece ser uma resposta fácil não é. A obra "Cair de costas" (Éblis, 2012) que reúne os cinco primeiros livros do poeta Ronald Augusto e um plus "scriptio defectiva" já provoca desde a sua sistematização um problema analítico: os livros surgem em um decrescendo temporal, isto é, começam pelo fim, numa armadilha literária e lógica que remete, a priori, à prima pergunta deste artigo: por onde começar? Se se arrisca a seguir a numeração sequencial das páginas far-se-á uma viagem de 1992 a 1983, isto é, regredir-se-á da obra de um poeta já maduro (diga-se aqui: com sua técnica bem delimitada, sua poética já identificada consigo enquanto labor e vontade de expressão artística, seu traço já marcante, próprio, autoral. Não que desde a obra in...

formas significantes

Jeanne Marie Gagnebin, numa passagem da palestra-ensaio “As formas literárias da filosofia”, se ocupa de modo mais detalhado de uma lista incompleta de formas literárias ou de estilos de escrita no interior da filosofia. Segundo a comentadora, essas formas se relacionam a duas circunstâncias, a saber, as condições históricas precisas em que ocorrem e a separação entre uma filosofia de caráter escolástico ( Schulphilosophie ) e uma filosofia de mundo ou cosmo-política ( Weltphilosophie ). Ambos os conceitos relativos aos tipos de exercício de filosofia são apresentados por Kant em Crítica da razão pura na perspectiva de “tentativas de filosofar”. Diante de um projeto arquitetônico (o filosófico) em permanente construção, “cujo edifício muitas vezes é tão diverso e tão mutável”, Kant admite que o que se pode fazer é tão só aprender a filosofar exercendo “o talento da razão na aplicação de seus princípios gerais em certas tentativas que se apresentam”. Sem a pretensão de corrigir ...

item: fortuna crítica decupagens

decupagens assim por Roberto Amaral [1] ronald espraia sua verve crítica, acurada e apurada, do ensaio a polêmicas artísticos-culturais, da prosa à música, da poesia a pintura, com, inclusive (pasme-se), uma imersão na arquitetura, e faz isso brioso e ciente, b em distante da timidez com que o incauto enfrentaria tais assuntos. o cara diz o que diz porque o cara tem rodagem e voltagem. claro que senti falta de uma palavra sobre a forma artística das mais apreciadas pelo ronald, o cinema, conforme o título de seu livro de ensaios sugeria metaforicamente (decupagem: planejamento da filmagem, a divisão de uma cena em planos e a previsão de como estes planos vão se ligar uns aos outros por meio de cortes), mas é certo que ele deve estar urdindo algo a respeito. sem dar moleza ao leitor (‘Quando o poeta resolve escrever crítica, prefácios, ensaios, etc., ele não tem a pretensão de socorrer o leitor’) usa de uma linguagem que o obriga a percorrer de cima a baixo os seus, o...

4:30, sem mais