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o cosmo e o corpo

O cosmo e o corpo, distantes e jungidos Ronald Augusto [1] Pound cita um estudioso da Odisseia que teria demonstrado que a geografia do poema é correta, ou seja, que ela seria produto da experiência de um sujeito conhecedor de navegação e que tivesse feito de fato o périplo. Dante conjuga em sua Commedia os saberes da ciência, da teologia e da filosofia da Idade Média. Sousândrade no poema em muitas vozes Inferno de Wall Street , se antecipando a Pound, incorpora o assunto econômico à aventura do poema. Lanço mão dessas referências recuperadas à tradição para dizer que, desde a primeira leitura, O cochilo do céu despertou meu interesse porque seu autor, Marcel Fernandes, à exemplo desses grandes poetas, também se compromete com um conjunto de signos que em alguma medida não parecem típicos do gênero. Sem prejuízo de outros temas e campos semânticos, O cochilo do céu reúne muitos poemas nos quais são transfigurados tópicos da física e da astrofísica contemporâneas. ...

a ressaca do futebol

A cachaça e a ressaca do futebol Ronald Augusto [1] Como já estamos cansados de saber, a temporada futebolística começa com os campeonatos estaduais. Por uma estúpida coincidência, casos de violência dentro e fora das quatro linhas têm início na mesma época. Não é mesmo surpreendente? Em função disso, inicialmente, convido o leitor a refletir sobre o problema do torcedor-tipo de futebol. Grosso modo ele é racista, homofóbico, misógino. O torcedor é covarde. Sua suposta valentia se deve à multidão da qual se nutre, nela o torcedor está imerso e protegido. Ele é um pequeno déspota. O torcedor é uma criança grande e mimada, isto é, um sem-educação que não sabe lidar com o revés ou com a frustração. Ofensivo, intimidador, desrespeitoso, são alguns dos predicados do torcedor. O torcedor é um devoto de uma religião de bárbaros. O torcedor é um problema social. Ele não pensa, apenas reage. O torcedor não sabe fazer distinções. Essa espécie de torcedor é um tremendo acidente na...

um roteiro previsível

a pesquisa no google o carnavalesco curvado sobre a escrivaninha um roteiro previsível a partir de uma bibliografia ultrapassada a súplica ao todo poderoso a escravidão o holocausto negro as focinheiras a chibata a dor a tortura uma enfiada de clichês os traços hagiográficos implicados na representação o modelo escrava isaura a sabedoria do preto velho que acolhe o moçoilo de olhos claros que amansa o feitor enquanto o redime a redenção a pasteurização do #somostodosescravos após a reforma trabalhista a ideia fraca de que o brasil (leia-se a branquesia) até hoje não sabe direito o quanto há de crueldade e assassínio nessa história (por isso tanta redundância, tanta reificação) mas onde esteve o brasil durante todo esse tempo enquanto o pior acontecia?

espiral zeosória

espiral zeosória   [poema do livro inédito Entre uma praia e outra ]                                                                                          findo abestalhado    acabado e acabo de ler zeosório blues de edimilson de almeida pereira e só presto agora para anotar passar a essas linhas um pouco da zoada que este livro   alto volume   provocou no oco da minha idéia no início (narciso ) parecia estar lendo lambendo livro-primo do meu homem ao rubro a oralidade atravessada a gramática anômala a sintaxe pé-de-chinelo (sub úrbio orbitante exorbitante) mescalino-canora mesclada a uma esgarçada algaravia roseana hummm mas essa referência assim-assim “fora de lugar” queda bastant...

reiterar AXÉVIER, CONTRALAMÚRIA

AXÉVIER, CONTRALAMÚRIA [1] Ronald Augusto [2] Linguagem de perturbante experimentação, uma poesia de invenção como a de Arnaldo Xavier (1948-2004) pode ser examinada não só no que diz respeito à estranheza da fissura aberta por ela em partes ou no corpo de determinado sistema literário. Vale dizer, dentro de um traçado de rupturas inaugurado pelo alto modernismo e que, desde então, parece ter se constituído no cânone da contemporaneidade, o que Arnaldo Xavier injeta de novo em tal corrente sanguínea? Temos aí, um ponto. Por outro lado, este exame nos permite compreender também um pouco do caráter e das imposturas desse sistema mesmo que, desde sua condição normativa e dogmática, manteve ou mantém, com relação às transgressões de Arnaldo, uma atitude, no mínimo, defensiva.  Sem receio, sem dever favor a ninguém e satisfeito por não ser confundido com os medíocres beletristas com lugar garantido em antologias temáticas, “todos [estes que] a tudo o seu logo acham...

2018 de xangô

terça-feira as pedreiras e as cachoeiras todas ocupadas pelo arranco de 12 angry xangos de 1 a 6 os mais mancebos trovejam justiçamentos de 7 a 12 senectude de galos velhos colorados que provêem o dactiloscrito o aceiro do intelecto a cláusula que rasga as entranhas do branco carneiro

oriki de oiá-iansã

[precária reprodução de pintura de Pedro Homero] oriki de oiá oiá empurra-nuvem verte sangue cor de pitanga na esteira onde se deita guerreia com xangô a taça com que xangô se empapuça oiá dona do rebojo do paiol pomba e senhora priapéia dos raios que chamejam ao charme de sua cara de cabra preta galinha vermelha que risca o chão vermelho oiá empurra-vento oiá no olho vermelho da tempestade