Dois episódios da maledicência em Porto Alegre

        






I

Segue, aqui e ali (talvez mais aqui do que ali), a histeria com relação às cotas. Segue a falácia do racismo reverso cuspida contra os negros que respondem sem comiseração ao melífluo interlocutor. Segue a retranca cheia de dedos de muitos brancos na medida em que percebem que o enfrentamento do preconceito pode se dar, sim, por meio de ações concretas (mesmo porque já estamos de saco cheio de tanta interpolação) e não apenas na base de discussões iniciadas com a quase resignada locução "veja bem...". Segue a tolerância oportunista com a nossa justificada impaciência. Segue a desconsideração de que ainda somos “julgados de forma leviana, burra e preconceituosa” e que as palavras continuam ambíguas e “injustas na boca de quem reclama”, com a barriga cheia de mariola, reagindo à nossa suposta insolência. Segue o crescente conservadorismo da imprensa em geral e do cronista que disputam o qualificativo “barato” na esperança de falar bem de perto ao desejo do leitor-seguidor. Segue se confirmando a percepção de que, mais cedo ou mais tarde, muitos dos que objetam as cotas acabam apelando a argumentos reacionários ligados ao mais incivil senso comum análogo a esse que tem sido visto nas últimas manifestações "apartidárias".

post scriptum:

Fico pensando, se o simples fato de o debate ter ficado um pouco mais áspero (me refiro ao vídeo que motivou a famigerada crônica) foi o bastante para fazer Cíntia Moscovich sair da retranca se assumindo racista, num gesto típico da fanfarronice gaúcha, então chego à conclusão de que o negócio fodeu mesmo.


II

O racismo disfêmico dessa turma (mais evangélica que vegana, menos vegana que intolerante) que pretende varrer do horizonte da diversidade religiosa alguns ritos de matriz africana, coloca em pé de igualdade a luta pelos animais e a luta dos negros por seus direitos. Cito a opinião deles:

"Um dos pontos de “desanalogia” entre o movimento pelos animais e o Movimento Negro, talvez diria o filósofo Naconecy, é que aquelas pessoas do passado, ainda que terrivelmente exploradas, não tinham seus corpos comidos e nem eram trazidos à vida para serem mortos e comidos."

Mas que raciocínio mais cretino é esse! Há muito mais coisa a dizer e a fazer do que apenas dar ouvidos a essa simplificação estúpida, pois de entre "aquelas pessoas " do nosso passado escravista e eugênico saíram, por exemplo, Cruz e Sousa, Luiz Gama, Machado do Assis, André Rebolças, entre outros. Ou seja, o que impediu mesmo (e a tese não explica isso) de "aquelas pessoas" não terem sido devoradas objetivamente pelos brancos da época, foi justamente por causa de negros como esses e pelas provas evidentes de suas existências autodeterminadas (bem como as de muitos outros humanos negros escravizados sem nome), isto é, a capacidade de razão, sensibilidade e inteligência que demonstraram ter tanto quanto ou, às vezes, até mais refinadas do que as dos seus senhores. Para o filósofo Naconecy os negros não viraram ração para brancos por um mero golpe de sorte. Infelizmente para os animais, além de sorte, parece faltar esse impulso organizado para a liberdade. Entretanto, o filósofo e alguns dos seus tacanhos seguidores estão dispostos a empreender essa luta por eles. E, em vista disso, são capazes de fazer essas comparações absurdas.

Assim, segundo o raciocínio do filósofo, suportado pelo movimento de defesa dos animais, há uma similaridade entre o problema da escravidão dos negros e o problema da escravidão dos animais. Se aceitarmos essa tese (cuja intenção é acenar a um sentimento de culpa) o resultado nos levará talvez ao entendimento de que assim como o fim da escravidão se deu porque se provou que os negros não são animais e nem são desprovidos de razão, então agora é a vez de libertarmos os animais, pois está em curso um debate que visa conferir a esses seres o respeito que também merecem. Isto é, se a humanidade mudou (supostamente) com relação aos negros, então ela pode também mudar com relação aos animais. Se, a contrapelo, admitirmos, por outro lado, que o especismo (reductio ad absurdum: comer um bife) não é imoral, então quer dizer que o racismo também não o seria?

Talvez minha leitura tenha sido excessiva, mas o argumento é no mínimo controverso porque parece nos cobrar algo assim: se os homens (vaza um tom paternalista e bom moço nisso) acolheram a luta dos negros por sua liberdade e humanidade, então podemos fazer o mesmo no que diz respeito aos animais e aos direitos que podemos lhes conceder. A noção segundo a qual, no caso do racismo, houve uma evolução do nosso entendimento, uma forma de progresso ou de avanço sem volta (corolário: ultrapassamos o racismo, agora chegou a vez de vencer o especismo), não me convence.

Há algo de vil e falsamente dramático no raciocínio, uma perversa ambiguidade em tal aproximação que visa igualar coisas muito distintas. De uma hora para a outra o sacrifício ritual de animais virou “massacre”. O racismo disfêmico está misturando dois conceitos completamente diferentes: um rito religioso e a produção em larga escala de alimento animal ou de produtos de origem animal.

Repito aqui o que já escrevi em outra ocasião: as determinações de um funcionário de um abatedouro a serviço da indústria de alimentos, não são as mesmas de um sacerdote que imola um animal segundo uma liturgia. Alguém dirá que para os animais não faz diferença alguma. Talvez não faça mesmo. Mas a morte predatória e industrial de animais, ainda que tolerada porque é realizada em vista da alimentação dos seres humanos, é muito mais deletéria para o equilíbrio natural do planeta do que o sacrifício ritual.

Enfim, brancos tendem a se meter em tudo; acham que vislumbram o quadro completo. E quando evangélicos, a coisa fica pior ainda. Mais uma vez (e os episódios aqui apresentados são exemplares a esse respeito) querem determinar como temos que fazer com os nossos espantos e processos simbólicos.  Meu repúdio a isso se materializa na voz do samba: “Vá cuidar da sua vida, diz o dito popular, quem cuida da vida alheia da sua não pode cuidar”, Geraldo Filme.

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