Ofendendo sem ofender: o contínuo da estupidez



Ofendendo sem ofender: o contínuo da estupidez

Ronald Augusto[1]




Sim, Daniela Mercury se “fantasiou” de Elza Soares, isto é, de negra, em homenagem ao dia do empoderamento negro. No próximo carnaval vou me fantasiar de branco em homenagem à imbecilidade da branquitude. Ou ainda, como uma espécie de variante, posso fazer mais radicais essas “ideias de jerico” do preconceito homenageando o dia do orgulho gay travestido de Fred Mercury, isto é, de gay.
A cantora sem noção do axé chiclete inventou uma outra versão para a tola afirmação de Vinicius de Moraes que uma vez se autoproclamou “o branco mais negro do Brasil”, ou seja, disse a baiana animadora de trio: “Eu sou Michael Jackson ao contrário, eu adoro ser negra...”. Quando ela acha que “é negra”, o tempo todo ou lá de vez em quando? Durante o ano fiscal ou apenas nos dias de carnaval? A coitada acha que é moleza ser negra. A branca não sabe o que é viver um dia de negro no Brasil; sequer o que é viver um dia de negra no Brasil.
Contrariados com as minhas críticas ao episódio deplorável, um e outro branco aparentemente solidários com “a causa negra”, paradoxalmente, se sentiram atingidos e desembestaram a repetir a choramingas típica do branco caga-regra, esse cidadão de bem que, felizmente, já não detém apenas para si o poder do discurso. Eles já estavam à beira de invocar a falácia do “racismo reverso”. Por outro lado, não reconheceram que se mantiveram lenientes com o racismo no momento em que pediram para deixarmos a moça se “equivocar”. Não era algo tão grave. O racismo imbecil e cordial à brasileira supõe que, depois, um pedido de desculpas resolve tudo. E, por fim, tentaram, mais uma vez, jogar a responsabilidade sobre os ombros dos negros, quando apontaram que a cantora disse essas asneiras ladeada por dois atores negros. Com isso, esses brancos aparentemente solidários tentam nos convencer de que somos cúmplices do racismo que eles praticam e, portanto, precisamos ir devagar com o andor. Brancos panos quentes.

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O homem branco, como ele se comporta: não treina a escuta; pretende ensinar a três por quatro; para ele só os outros não medem as palavras; não se enxerga; só ele pode falar merda (sem ser informado disso); tendo ou não razão, quer vencer os debates usando todos os meios, lícitos ou ilícitos. É um nostálgico do programa do Chacrinha.

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"Mas como a cor não pega, mulata
Mulata, eu quero o teu amor".

No meu carnaval esse tipo de marchinha é que não pega. Uma saída provisória é estimular a composição de outras marchinhas mais adequadas à nossa época e a uma nova visão que estamos construindo sobre as coisas. “Ah, mas pode?”. Pode, sim, seu tanso! Rever o repertório. A pretexto de manter uma tradição sem outra justificativa a não ser a de “manter uma tradição” ou porque as marchinhas são bonitinhas (para quem?), acabamos reforçando o preconceito autoritário dos idiotas que nunca foram alvo desse riso carnavalesco, tido e havido como “bem-humorado” e “libertador”. O tropicalismo resolvido em impostura reacionária.
O que me espanta (só que não) em alguns argumentos em defesa de marchinhas machistas, homofóbicas e racistas, além da reiteração do bordão “o politicamente correto” relacionado a quem faz a crítica necessária às formas sutis ou não de preconceito, o que me espanta é a concepção elitista do artista soberano. No fundo o argumento defende a tese de que o artista tem o direito de falar merda. A afirmação segundo a qual o artista canta o que lhe der na veneta e o que restaria à recepção seria a vaia ou o aplauso, é fraca e elitista. Se de fato a arte é algo complexo, então a vaia e o aplauso são coisas de menor importância. O esforço de crítica é o que interessa aqui, mas isso, de acordo com esses debatedores, não é outra coisa que censura ou chilique de “justiceiros”. De resto, persiste a negação da discussão ou mesmo da mera menção relativa ao racismo, ao machismo e à homofobia, quando essas manifestações parecem que não estão ofendendo, quando, de fato, estão. Ofendendo sem ofender: o contínuo da estupidez. Em outras palavras, se por acaso o preconceito venha a ser debatido, só o será nos termos do macho branco. Os questionamentos vindos de gente que não faz parte desse recorte são tachados, no mínimo, de equivocados. A branquice masculina se jacta de ver o “quadro completo”, mas não consegue (ou acha que é desnecessário) se enxergar a si própria. E é por esta razão que atrás do clichê “o politicamente correto é muito chato”, usado para negar a crítica às variadas formas de preconceito, geralmente você encontrará um homem branco. É preciso discutir o problema do branco.

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A narrativa da negação do racismo à brasileira de tempos em tempos volta ao seu ponto de origem: somos um cadinho de raças, a casa-grande e a senzala amorosamente conciliadas. “O Brasil é um país mestiço”. “O ‘movimento negro’ quer dividir o país: de um lado negros, do outro lado brancos”. Quando você for dizer algo a respeito de “movimento negro”, pense um pouco e considere a possibilidade de que talvez existam “movimentos negros”, isto é, do mesmo modo como há uma infinidade de pessoas e identidades negras.
Os negros (e, ok, os brancos solidários em sentido forte) que combatem o racismo entranhado em nossa sociedade estão piorando a situação? É isso? Só não vê quem é ou muito branco ou muito burro que as relações entre negros e não-negros no Brasil são extremamente assimétricas quando se leva em conta a dinâmica da distribuição de vantagens e desvantagens sociais. A defesa de um Brasil mestiço e bem brasileiro apagaria o problema da hegemonia da branquice?
Sob a ideologia dominante da visão e do privilégio brancos, a mestiçagem cria a seguinte lógica: o pardo ou mestiço convidado a se situar no quadro da estima social ocupa, na régua do dégradé da cor, o espaço para o mais claro e, naturalmente, isso sabe a uma vantagem: segurar o chicote pelo cabo.
É bom lembrar aqui o baixo índice de tolerância do senso comum com relação ao negro como possibilidade de autoimagem. Em contrapartida estamos familiarizados com a maior tolerância desse mesmo senso comum com relação à “morenidade” enquanto clichê identitário da “brasilidade”.




[1] Ronald Augusto é poeta, músico, letrista e ensaísta. É autor de, entre outros, Homem ao Rubro (1983), Puya (1987), Kânhamo (1987), Vá de Valha (1992), Confissões Aplicadas (2004), No Assoalho Duro (2007), Cair de Costas (2012), Oliveira Silveira: poesia reunida (2012), Decupagens Assim (2012) e Empresto do Visitante (2013). Dá expediente no blog www.poesia-pau.blgspot.com e é colunista do site http://www.sul21.com.br/jornal/


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