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rock’n’roll que masca clichês

Aqui vão algumas anotações (retardatárias talvez) motivadas pela atmosfera dos factóides abobalhados legados pela turnê do Guns N’Roses em nossas terras ( circa 2010), festejada à exaustão por jornalistas de segunda mão e twitteiros de miolo mole. Meu parecer sobre a banda, se é que isso agora tem alguma importância, é: demorou, e já foi tarde. Sem desprezar o grande número de fãs do grupo — embora isso, a cópia de torcedores-fãs, felizmente, não diga muito acerca de sua real qualidade e significância para os rumos da música popular do planeta —, o Guns é uma trivialidade musical superestimada, inflacionada pelo personalismo infanticida de seu vocalista Axl Rose. E prova de que muitos já não levam tão a sério a banda de hard rock de estilo kitsch, foi a enquete caricata que, há época, uma rádio AM local fez com os seus ouvintes, lançando a seguinte pergunta: quem seria melhor, Amado Batista ou Guns N’Roses? Mas, o curioso é que sob a aparente sem-noção da dúvida proposta pelo ra...

breve entrevista à rita dahl

josé inácio vieira de melo, rita dahl, eu e wilmar silva, bhz http://www.arjentola.blogspot.com Rita Dahl nasceu em 1971, em Vantaa, na Finlândia. Publicou os livros de poemas Kun luulet olevasi yksin (Loki-Kirjat, 2004), Aforismien aika (PoEsia, 2007), Elämää Lagoksessa (ntamo 2008), Aiheita van Goghin korvasta (Ankkuri 2009). Publicou também um livro de viagem sobre Portugal, O Encantador de Milles Escadas (Avain 2007) e mais recentemente o livro A liberdade da palavra finlandizada (Multikustannus 2009), entre outros títulos. Foi responsável pela revista de poesia Tuli & Savu, em 2001, e também pela revista cultural Neliö ( www.page.to/nelio ). Rita Dahl foi vice-presidente do PEN Clube da Finlândia durante 2006-2009, e lá realizou um trabalho com escritoras da Ásia Central, que resultou em um encontro internacional e duas antologias. Rita Dahl - Quando e como você começou sua carreira como poeta? Quais influências? Ronald Augusto - Acho que em 1973/74 me dei c...

a cidade à beira do arqvivo

A poesia ocupa um lugar anterior ao surgimento da cidade. Para esta, a poesia seria a representação do atraso, a música do mundo agrário e ágrafo, povoado de bestas mitológicas e divindades bárbaras. A poesia, espécie de pensamento teocrático, finge o deus a quem tão devotamente dessacraliza. O cidadão comparece nessa cena como o hipócrita leitor baudelairiano, mentalidade pública, o caroço mesmo da democracia. Mas “em algum lugar da utopia, ou do ativismo político, operou-se o divórcio entre dirigente e dirigido, entre governo e povo” (Mirko Lauer). A cidade deixa de ser a concreção da possível arte da política e é rebaixada à condição de ruína glamourizada, monturo, despojo dos conflitos ideológicos. Um poema de verdade, poema bom, dizem, parece falar de tudo e de nada ao mesmo tempo, seja quando fala da luz de uma nuvem, do baque de uma onda, ou do inexistente. A memória flui e reflui como uma invenção da poesia; e o imaginário se configura num elemento fundamental perante a ec...

No assoalho duro: o movimento da escolha

por Denise Freitas (*) Nas abordagens dedicadas aos debates acerca de literatura há que se propor, entre outras, discussões referentes à atuação da crítica; considerando nela seu papel de ordenação geral ou seleção. Mesma definição com que Ezra Pound, no livro ABC da Literatura , constitui um de seus argumentos, ao colocar o valor da crítica, antes na qualidade de suas escolhas, do que na excelência de seus argumentos. Contando que não haja “medidas idênticas para duas pessoas” cabe ao crítico tirar suas próprias conclusões a respeito de um texto. A partir daí, talvez, que toda leitura aponte para a configuração de uma crítica; ou, que a primeira apresente já como sua condição uma aproximação em relação à segunda, pelo menos entre leitores com mais acuidade. Em se tratando de poesia, o medíocre, no fim das contas, é sempre o mesmo em toda parte, ou, se encontra nele um mesmo nível de fraqueza, identificado, por exemplo, no uso excessivo, demasiado de palavras. Numa tentativa de inver...

o acabar-começar de memória futura

O alto modernismo, e mesmo a sua transfiguração mais recente, mais hard – em termos de excurso teórico –, isto é, as vanguardas de 1950/60, passam por um processo muito rápido de canonização. Em outras palavras, se historicizam - se a afirmação não fosse um tanto absurda - de maneira abrupta e surpreendente, inclusive porque, não podemos nos esquecer, os registros ou o anedotário da resistência, seja ao modernismo, seja, por exemplo, à poesia concreta, formam uma pequena história à parte. E tal resistência, pelo forte teor arrivista assumido por suas posições e contraposições, não dava, à primeira vista, indícios de fácil assimilação ou trégua. Toda a polêmica em torno do problema contribuiu, ao fim e ao cabo, para fazer da recusa conservadora e alarmista, aceitação incondicional. Cedendo, tolerando a rotina das rupturas (às vezes aparentes), o senso comum ofereceu as condições necessárias para que o alto modernismo viesse a se tornar “uma das manifestações mais oficiais da cultur...

revolta e drogadição anestésica

Dichter bem acompanhado Hans Magnus Enzensberger, em ensaio cuja referência já não sei mais onde recuperar, põe em causa a pretensa periculosidade e os índices de subversão por meio dos quais se representa a poesia. E, talvez, como crença nesse meio-entendimento que nos foi legado por Platão – hoje um lugar-comum –, de que o gênero em questão seria perturbador da ordem e que por isso mesmo se justificaria, por exemplo, a expulsão do poeta da república do poder, acabamos por não dar o devido crédito à problematização irônica levantada pelo poeta e crítico cultural alemão. Inclusive porque, ao longo da história, não são raros os episódios, patrocinados pelo estado ou pela sociedade, em que poetas e escritores são submetidos à censura, às perseguições judiciais e políticas, ao exílio, etc. Segundo Enzensberger, isto não prova, no entanto, o efetivo conteúdo periculoso, insurgente, da linguagem poética, ou artística, contra o pano de fundo do controle social. Na verdade, esses fa...

jogando conversa fora

Machadinho Literatura-arte, poesia, etc, é aquele momento em que o leitor-fruidor abre o livro (ou lê o texto no blog ou site) e diz, talvez em silêncio, “isso é muito bom”. A figura mais importante no processo da comunicação poética é o leitor; e em dois aspectos: 1) porque o leitor é a outra ponta desse gesto, isto é, é a quem se destina o jogo do texto e quem dá continuação à Literatura enquanto sistema; e 2) porque um escritor é, antes de mais nada, um leitor, teoricamente mais aplicado. O leitor é importante, mas não na perspectiva de que o escritor tenha de ser um facilitador da recepção daquele, ou seja, que o seu texto tenha de ser “acessível” a todas as faixas de público. O leitor é importante, pois ele é “o” interlocutor. Em literatura o leitor é um colaborador dos significados. Ele estabelece o fracasso e o sucesso (provisórios) do texto. É paradoxal, pois embora o leitor exerça a prerrogativa de dar ao texto esse aspecto de obra sempre aberta, é o texto, em fim de c...