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Cruz e Sousa: make it new

Ronald Augusto [*]   Falsos Problemas “Entretanto, eu gosto de ti, ó Feio! Porque és a escalpelante ironia da formosura, a Sombra da aurora da carne, o luto da matéria doirada ao Sol...” Eis aí, talvez, o indispensável Cruz e Sousa expondo - à sua maneira ou a quem tiver olhos para enxergar - o âmago daquilo que alguns estudiosos de sua obra consideram a “nota brasileira” do seu simbolismo, a saber, a condição de negro. Este recorte metonímico do poema em prosa “Psicologia do Feio”, que integra o livro Missal (1893), dá uma pequena amostra de quão abrangente é o estrato semântico a movimentar os dilemas e estilemas crítico-criativos de Cruz e Sousa. O Feio representa, a um só tempo, vetor ético e estético. O poeta opera com uma variante do motivo do artista maldito que vai se desdobrar no demiurgo algo monstruoso - porque dotado de “energias superiores e poderes excepcionais” que, no desmedido de sua experiência (húbris), transformam-se em verdadeiras ofensas co...

Sobre Confissões Aplicadas

por Hingo Weber “Há decerto o caso em que alguém, mais tarde, me revela o seu íntimo através de uma confissão: mas lá por isso acontecer não me fornece qualquer explicação exterior e interior, pois tenho que dar crédito à confissão. A confissão é, sim, evidentemente algo de exterior.” (Wittgenstein, Zettel , aforismo 558) Uma confissão tem pelo menos duas personagens: aquela que revela sua intimidade e aquela a quem é revelada a intimidade. Uma confissão acontece “mais tarde”: pressupõe a confiança no confessor (que geralmente é estabelecida no tempo). Se não confio no confessor e, sobretudo, se o confessor desconfia de mim, não há confissão nem confessor. “Explicação exterior” é diferente de “algo exterior”. Uma “explicação”, seja “exterior”, seja “interior”, pode ser verdadeira ou falsa, pode, portanto, ser desacreditada ou posta em dúvida. No caso da confissão, tenho que dar crédito a ela. Dar crédito à confissão é condição para que a confissão a confissã...

o que importa é a curtição

A atividade crítica, como há pouco escreveu o poeta Marcus Fabiano, mantém estreita analogia com a tarefa do jurado de qualquer prêmio ou concurso literário (esse comentário se restringe ao campo da literatura, mas o problema seria o mesmo se falássemos do ponto de vista de qualquer outra atividade artística). Mas num certo momento seus caminhos se bifurcam. O jurado assim como o crítico, a partir de critérios principalmente estéticos (por agora vamos dizer que deveria ser assim), assume a responsabilidade de apontar dentre aquelas obras apresentadas à competição, as mais bem logradas. O crítico, seja por seu próprio apetite, seja por dever de ofício, se dobra sobre a produção do presente e do passado e propõe leituras (eu diria que se dispõe a uma interlocução) a propósito das valências compositivas desses exemplares e avalia os resultados. Enquanto a decisão não vem à público, jurado e crítico estão seguros. “Deixemo-los lá, os dois, fazendo o seu trabalho de su...

A tacanha intransigência de Sergio Miceli com as vanguardas

Ronald Augusto [1] As vanguardas artísticas e literárias da virada do século 19 para o 20 experimentam um processo até certo ponto rápido de consagração. Em outras palavras, se historicizam até de maneira surpreendente, inclusive porque, não podemos nos esquecer, os registros ou o anedotário da resistência, seja aos desdobramentos da vanguarda europeia aclimatados às nossas condições latino-americanas, seja ao modernismo tardio, formam uma pequena história à parte – exemplo disso, no caso brasileiro, é a crítica neurastênica de Monteiro Lobato à pinturas que Anita Malfatti expõe em 1917. Assim, tal resistência, pelo forte teor arrivista assumido por suas posições e contraposições, não dava, à primeira vista, indícios de que essas experiências fossem facilmente assimiladas, sequer que se chegaria a um acordo valorativo em torno à sua estranheza. Portanto, a movimentação e a bibliografia de toda a polêmica relativa ao problema contribuiu, ao fim e ao cabo, para fazer da...