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versos de verdade

Versos de verdade Ricardo Silvestrin [1] A imprensa, atrás do fuxico literário, sempre martelou as motivações amorosas dos poemas de Quintana. O poeta tinha que didaticamente esclarecer: uma amada não é um ponto de chegada de um poema, mas um ponto de partida. Ou, como também escreveu, que não fazia versos para ti, mas versos de ti. A questão estética colocada por Quintana é o que está também em jogo nesse novo livro do poeta Ronald Augusto. Ou seja, mesmo que os poemas nasçam de uma motivação real, de alguém com nome, endereço e cpf, o que resulta como texto criativo é o que conta. Nesse sentido, num primeiro momento, salta aos olhos a fluidez com que cada poema do livro é lido. Contrasta com grande parte da produção do Ronald, com aquela sua arte que coloca pedras no caminho do leitor, propondo a quem o ler que se vire. Aqui, mesmo que, de quando em quando, uma outra palavra, uma ou outra referência exijam uma pausa para entender do que se trata, o texto é predom...

contra a cafonice amorosa

Contra a cafonice amorosa Eduardo Vicentini de Medeiros [1] Cometer poemas carrega lá seus perigos. Quando a amada é alvo do verso então, avista-se tenebroso triângulo das bermudas com seus vértices de naufrágio: a cafonice, o sentimentalismo e o derrame lamuriante sem beiras nem eiras.  E cantar musa viva e poetisa, quem se atreve? Ronald Augusto o fez em “ À Ipásia que o espera ” cruzando incólume tais ameaças com língua atesada, vento de popa e verga firme. E quando a maré não estava pra peixe, rumou por terra, “oito horas e meia de viagem/ dentro de ônibus em noturna via”. Diga-se, de passagem, que Ronald articula seu périplo com requinte multimodal. Sua caixa de ferramentas é repleta de surpresas. Destaco um quarteto de pasmos e admirações. Começando pelos caligramas espalhados aqui e acolá, com aquele viço de coisa desde sempre provisória que lembra alegremente o caderno de notas que, ao que tudo indica, está sempre à mão do poeta (e de sua musa) pra conter jor...

Alguém virá

ALGUÉM VIRÁ quem virá lília ou manuel está contido em ipásia da grávida ipásia digo quem virá manuel ou lília o sonho de quem virá lília ou manuel em suas entranhas quem virá manuel ou lília dorme no cerro de ipásia alguém lília ou manuel vai surtir do encerro de ipásia surtirá de ipásia surtidora alguém manuel ou lília

Ofendendo sem ofender: o contínuo da estupidez

Ofendendo sem ofender: o contínuo da estupidez Ronald Augusto [1] Sim, Daniela Mercury se “fantasiou” de Elza Soares, isto é, de negra, em homenagem ao dia do empoderamento negro. No próximo carnaval vou me fantasiar de branco em homenagem à imbecilidade da branquitude. Ou ainda, como uma espécie de variante, posso fazer mais radicais essas “ideias de jerico” do preconceito homenageando o dia do orgulho gay travestido de Fred Mercury, isto é, de gay. A cantora sem noção do axé chiclete inventou uma outra versão para a tola afirmação de Vinicius de Moraes que uma vez se autoproclamou “o branco mais negro do Brasil”, ou seja, disse a baiana animadora de trio: “Eu sou Michael Jackson ao contrário, eu adoro ser negra...”. Quando ela acha que “é negra”, o tempo todo ou lá de vez em quando? Durante o ano fiscal ou apenas nos dias de carnaval? A coitada acha que é moleza ser negra. A branca não sabe o que é viver um dia de negro no Brasil; sequer o que é viver um dia de...

cohab pestano

cohab pestano onde é pelotas, afinal de contas? uns concordam que é no laranjal. ou que é ali no mercado e suas imediações a biblioteca o quindim de nozes. os doces negros dos negros de pelotas muitos juram que é onde pelotas. têm aqueles que vão convencidos de que pelotas é algo dos ramil. de que pelotas agora é outra que é outra onde angélica freitas. onde é giba giba, afinal, pelotas? é ainda pelotas ao final de tantas? pelotas até cohab pestano onde extremo o aeroporto é pelotas. esgoto a céu aberto onde o pestano a contragosto é pelotas. onde é o povo negro no pestano a poeira das ruas de terra e chão. o ir e vir do povo do pestano onde afinal é pelotas, a que eu sei.

fortuna crítica: Poesia Anti-proeza

Poesia Anti-proeza Cândido Rolim [1] Às vezes desconfio que o poeta-crítico Ronald Augusto, dono de uma inusitada forma de ligar-se “ao mundo dias-pórico das letras” e de um salmodio lacunoso e áspero, negue-se a escrever qualquer coisa que possa resultar em algum esboço de realização ou ponto de chegada. A natureza esquiva de seu texto, que a rigor não se presta somente a um projeto definido – livro, tal como acostumamos a manuseá-lo, desvia-o radicalmente dos trilhos de uma estética avassaladora, patética, da poesia como proeza demonstrável. Seu texto, principalmente agora “por ocasião de”   No Assoalho Duro   (Éblis, Porto Alegre, 2007), parece menos resumir uma vontade específica de construção plástica, que cumprir uma etapa de exercício crítico. Tal ousadia, composta pela difícil interligação pensamento-arte, resulta em alguns poemas que, negando uma linha pormenorizada e programável de elaboração e acesso, compõem uma arena de impasses significantes. ...

Os poemas que nos esperam

Os poemas que nos esperam Claudio Cruz [1] O amor está fora de moda nos meios intelectuais. Roland Barthes Less is more . A célebre frase do arquiteto Mies van der Rohe parece acompanhar desde o princípio, como um baixo contínuo , a já longa produção poética de Ronald Augusto. Make it new , a não menos célebre formulação de Pound, também o acompanha desde sempre. Poeta clara e inequivocamente estabelecido dentro de uma tradição da poesia moderna que prima acima de tudo pela invenção , tendo como princípio um construtivismo rigoroso, e que teve e tem no Concretismo o seu programa estético mais consistente no âmbito da poesia brasileira, Ronald Augusto encontra-se aqui com o mais tradicional de todos os temas presentes na literatura do Ocidente, ou seja, o tema amoroso. Para mim, que acompanho mais de perto a sua trajetória poética desde a década de 1990, pelo menos, foi com absoluta surpresa que me deparei com À Ipásia que o espera . Diga-se de imediato que o tema amo...