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Pano de fundo inessencial para Franz Kafka

Kafkiano: aquilo que em algum momento vai definir os atos extremos do Estado como guardião-meganha da igualdade jurídica liberal ou do Estado utópico do igualitarismo social socialista, convertidos ambos em totalitarismo; aquilo que designa também os excessos da racionalidade impessoal nas funções, cargos e precedimentos que efetivam a lógica da produtividade moderna; o absurdo que subjaz às relações de poder; o afeto que se deteriora a partir da obediência estrita a esse poder mesmo, paterno/patronal; a vida como um pesadelo circular. A recepção contemporânea ou politicamente correta lê o teatro do mundo do ponto de vista de um bom-mocismo de centro-esquerda, por essa razão alguns estudiosos defendem o pessimismo irônico ou as doses pesadas de niilina contidas no pensamento-arte de Kafka como insumos a um texto que exige ou inventa um leitor subversivo, moralista, insubmisso, revoltado consigo mesmo, contra a sociedade e a ordem, etc. Na verdade há uma confusão entre o que obra de K...

Dá licença, meu branco!

Irene preta, Irene boa. Irene sempre de bom humor. Quem quer ver Irene rir o riso eterno de sua caveira? Parece que só mesmo no espaço sacrossanto da morte, onde deparamos a vida eterna, está permitido ao negro não pedir licença para fazer o que quer que seja. Não se pode afirmar, mas talvez Manuel Bandeira tenha tentado um desfecho ambíguo para o seu poema: essa anedota malandramente lírica oscila entre “humor negro” e humor de branco, o que, afinal de contas, representa a mesma coisa. No além-túmulo – e só mesmo aí –, não nos será cobrado mais nada. Promessa de tolerância ad eternum , e sem margens, feita por um santo branco, esse constante leão de chácara do mais alto que lança a derradeira ou a inaugural luz de entendimento sobre a testa da provecta mucama. Menos alforriada que purificada pela morte, Irene está livre de sua “vida de negro”, mas, desgraçadamente, só ela dá mostras de não ter assimilado isso ainda; quando a esmola é demais o cristão fica ressabiado. Na passagem dest...

um normal e limitado ás da poesia

É impressionante como a série de bolso da coleção “Ás de colete” da Cosacnaify, cuja coordenação é de responsabilidade do poeta Carlito Azevedo, conseguiu agrupar ao longo dos últimos anos cerca de uma, duas dezenas de poetas que alcançam escrever todos com uma idêntica sensaboria poeticamente correta. De ordinário demonstram notável adestramento técnico, em que pese o mesmo ser pueril; praticam esse movimento inconcluso que parte de um “repetir para aprender” e não chega sequer a roçar as margens de um “aprender para criar”; aplicam-se em uma escrita minuciosa, feita à medida da acuidade de scholars , e cumprida a medo, porque o que está em causa é a ratificação do continuum dessa recente tradição da competência e das consagrações recíprocas a que eles mais se submetem do que problematizam. De resto, esses poetas encaixam seus ombros dentro de uma moldura a que fazem jus por obra de seu obediente comportamento. Feito esponjas, eles se empapam com os e stímulos sobre sua sensibilida...

Dois dedos de crítica sobre poesia e prosa

Desencantado carrossel e a decadência da infância Um dos traços da modernidade de Cervantes na composição do Quixote diz respeito à (in)definição de quem narra de fato as aventuras dessa novela paródica dos romances de cavalaria. A multiplicidade de narradores estabelece uma ambiguidade contínua de tempo e de pontos de vista relativamente ao motivo central do livro. O romance moderno inspirado no clássico cervantino leva às últimas consequências, embora sem propor-se a uma resolução, a dúvida de quem seria a voz narrativa. Tal condição impõe ao romance similitudes com o poema moderno. Paul Valéry, a partir dos ensinamentos de Mallarmé, diz que quem fala no poema é a própria linguagem. Com efeito, em muitos poemas de agora-agora se pode dizer que nem mesmo uma voz lírica se faz ouvir. Chegamos, por assim dizer, a uma opacidade ou a uma enunciação átona no campo do discurso literário. No entanto, lendo o livro de Diego Grando, Desencantado carrossel , percebo uma possibilidade expressi...

O simbolismo bauhaus de Sob a faca giratória

A divisa carrolliana segundo a qual, no que toca à poesia, “a questão é fazer com que as palavras signifiquem tantas coisas diferentes”, preside a gestalt esotérica, ou o hermetismo compositivo de Péricles Prade. E em favor do que acabo de afirmar, servem de exemplo tanto os livros anteriores (não importando, inclusive, o gênero) deste polígrafo de imaginário radical, como a obra que agora é objeto do breve comentário. Por um momento, e pela via do contraste, submeto Sob a faca giratória a um jogo de plano e contraplano com o hermetismo lato sensu da poesia de Orides Fontela (1940-1998). Para ser mais preciso, antes opaca do que hermética, a linguagem de Orides também se impõe desafiadora, metálica. Seus poemas compõem um tipo de tratactus analógico acerca dos fenômenos, e estes acabam por ser representados como sombras luminosas que se descolam dos nomes que lhes designam. A poeta nos oferece esta sensação de hermetismo pela elisão e pela rarefação dos cortes solares que opera; o i...

Fim das coisas velhas, eu bebo, sim

A primeira impressão não é bem a que fica, mas a que nos engana. O que importa é o que surte depois; a boa poesia nos desengana, o mesmo acontece com o amor. Começo esse comentário sobre o livro Fim das coisas velhas de Marco de Menezes de um modo meio impressionista, sim. É que meu sentimento com relação a esse livro foi ambíguo. Não consegui distinguir, ao primeiro gole (como ensina Hans Magnus Enzensberger), se o conteúdo do barril era de vinho ou de vinagre. Agora já sei. E parafraseando a anedota do bêbado e o gênio da lâmpada, bem que eu gostaria de ter mais barris de vinho como Fim das coisas velhas que jamais se esvaziassem, apesar de toda a minha sede. Muito bem, mas vamos ao que interessa. O livro, até onde vai minha interpretação, não se refere ao parti pris das coisas, mas à própria exaustão delas, tanto quanto à do discurso que as homenageia ou presentifica em tom pós-moderno. No entanto, advirto que essa indicação ao pós-moderno não é feita com o intento de censura o...

"depois a estreia"

Claudio Cruz Não gosto de teatro. Cheguei a fazer alguma coisa, mas pouco (breves atuações, iluminação e sonoplastia). Concordo com Francois Truffaut que em seu filme Beijos proibidos pôs na boca de um personagem a seguinte afirmação: “O exército é como o teatro: um maravilhoso anacronismo”. No entanto, o poeta Claudio Cruz me ensinou a gostar de algumas experiências desse gênero. Gosto, portanto, do teatro inventado pelo ex-encenador (?) Claudio Cruz. Esperando Godot (de Beckett) e Marcos, IV, 23 (versão cênica para um texto de Borges), montadas por ele, e mais uma ou duas peças concebidas por outros diretores formam minha antologia pessoal no âmbito da arte do teatro. Foi o que sobrou. Uma parte mínima de Recordações de um encenador da província quando jovem (ed. Clarília, 2011), dois ou três excertos se não me engano, já está antecipada em A ilha do tesouro e outros poemas . Nesse livro de poemas Claudio entranha alguns textos indecidíveis cuja forma porosa roça a linha da prosa...