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Postagens

Um acervo de fugas

Breve exercício para fugitivos , esse conjunto de textos de Rubens da Cunha, põe em movimento pensamentos-arte que confinam com a ideia de que os discursos poéticos são volições significantes determinadas a uma permanente conquista das imprecisões da razão e da emoção que requerem formas plásticas capazes de apresentá-las. Cada texto é tanto uma vertigem onde o prosaico e o bizarro se atritam, quanto um sumidouro de linguagem que se processa através do corpo a corpo do poeta com a matéria verbal e as noções empíricas e teóricas da função estética. Por essas e outras é que não me parece despropositado afirmar que Breve exercício para fugitivos se situa criticamente aquém e além do conceito consagrado de crônica.  Rubens da Cunha, poeta e autor de Curral (Editora de UFSC, 2015), leva a efeito a ultrapassagem das convenções da prosa, mas também das convenções e das fronteiras entre os gêneros. Se a poesia se deixa perturbar por uma entropia discursiva, a prosa, por seu tur...

As últimas semanas em poucos traços: crônicas-relâmpagos

[fotograma do filme Assalto ao trem pagador (1962) de Roberto Farias] Ronald Augusto [1] Recentemente participei de um encontro muito bacana com os alunos da ocupação da Escola Ernesto Dornelles. Cardápio: literatura negra, homofobia, machismo, racismo, história, política, filosofia, afetos, poesia, enfim, só coisa boa para debater com ganas. * Vocês que apoiaram o impeachment com o pretexto de varrer a corrupção do mundo conhecido estão pagando o maior mico da história, seus manés. Morram de frio mergulhados no laguinho do Parcão. Os apoiadores do golpe agora batem à porta do interino e ele, em agradecimento aos serviços prestados, tem de recebê-los, estejam ou não acompanhados de ex-atores pornôs. * Também não faz muito a Folha de S. Paulo publicou artigo do Cristovão Tezza em que o autor diz que não vê golpe nenhum acontecendo. Muita gente talvez tenha ficado chocada com isso. Eu não. Esse romancista sempre me pareceu conservador e mediano. P...

Enquanto o leitor habita a poesia de Liana Marques

Ronald Augusto [1] A poesia de Liana Marques habita a experiência, sim. Ainda quando sua voz poética se lance a habitar as câmaras secretas do poema e seus dilemas construtivos, ela o faz sempre de janelas abertas, ou seja, transportando para o centro compacto desse objeto verbal a instabilidade do seu mundo claro e ensolarado. A poeta carrega sua linguagem com aquela matéria incandescente de que fala a epígrafe de João Cabral, a saber, a matéria-vida explosiva que “não foi feita para ser guardada num cofre”. E talvez seja mesmo por essa curiosa razão que os poemas de Liana Marques conseguem ser indiretos e sugestivos e ao mesmo tempo jamais se revelem fechados a sete chaves. Enquanto habito reúne uma sequência de imagens e processos discursivos evocativos tanto de um cotidiano fortemente transfigurado, como de um espaço de memórias submetido à decupagem estética. Liana Marques se dobra sobre a experiência do real na escolha demorada dos melhores instantâneos verbais com...

Desinteiro, acabar-começar

Cada poema inaugura e exaure uma chance de linguagem. Às vezes nos reportamos às coisas ligadas ao processo de composição de um texto em termos de que tudo não passa de um maior ou menor  acabamento . Nisto depositamos critérios valorativos. Entretanto, no que diz respeito à arte em geral ou, mais precisamente, no que compete à poesia e à sua signagem – e é o que nos interessa aqui – o melhor talvez fosse pensar na perspectiva de um permanente acabar-começar. Em alguma medida a metáfora sísifica também viria a calhar, mas ela admite acepções um pouco exasperantes. Me agrada, antes, imaginar a poesia como um jubiloso movimento de abandono daquele terreno há pouco conquistado. Passagens e fragmentos. Devir, mas sem laivos de bom-mocismo esperançoso. Um lance de dados mallarmaico, por assim dizer. Octavio Paz escreve em algum lugar que o poema, esse ser de linguagem, é um espelho que se rompe em mil fragmentos. E esses fragmentos jamais se unirão. O mundo figurado no poema é, p...

Xirê e a matéria viva do poema ritual

Ronald Augusto [1] Xirê , a festa, a invocação do intelecto que gira sobre si mesmo no redemoinho do mundo. Dança e contradança do ori entre as palavras. Orikis heterodoxos da indeterminação. Por seu turno, Dú Oliveira conhece por contato a determinação da poesia rumo à ambiguidade: “ nas asas/ da/ palavra/ e/ dos/ mistérios/ e/ intenções/ não reveladas// serei/ eu/ a/ dizer/ da/ festa ?”. E aqui vai minha evocação: Roman Jakobson, estudando o “riso ritual” no contexto medieval, argumenta que é “a hilaridade que possibilita ao homem comum terreno reafirmar-se face a face com o Misterioso”. Em termos antropofágicos a alegria é prova dos nove. Em Xirê Dú Oliveira afivela sobre o próprio rosto a persona cambiante do ator ritual e assim se transfigura álacre a cada poema jogado. O poeta feito oficiante experimental. O jogo ritual com a linguagem sabe a uma definição de poesia. E tal jogo alcança o mundo interior na superfície mesma do exterior. O poema sempre como um jogo ...

MONTAIGNE: O ENSAIO COMO AUTORRETRATO

Ronald Augusto [1]   O que se pretende aqui é investigar e comentar que espécie de eu ou de voz narrativa atravessa os ensaios de Montaigne. De saída pode-se afirmar, por meio de uma leitura comparativa, que nos Ensaios não deparamos o mesmo tipo de eu (como mecanismo discursivo) que, por exemplo, serve de instrumento tanto a Descartes como a Agostinho para a consecução e apresentação de seus textos e problemas filosóficos. Sob uma aparente similaridade, isto é, a de que nesses casos temos filósofos escrevendo a partir da primeira pessoa do singular ou conferindo ao pronome pessoal um estatuto mais dramático no que toca às condições de possibilidade do conhecimento, enfim, sob essa virtual aproximação, cabe estabelecer algumas distinções. Distinções estas que, de resto, vão demarcar o que é irredutível a cada um desses percursos filosóficos. Tendo em mente as considerações do poeta T. S. Eliot que no ensaio Las tres voces de la poesía [2] analisa as possibilid...