quando um não quer dois não brigam



Em matéria publicada há poucos dias (embora a conversa feita comigo e com o Ronaldo Machado seja de 2007), o Suplemento Literário da revista Critério (http://www.revista.criterio.nom.br), editada pelo Marcelo Chagas (Santos/SP) quis saber mais sobre a empreitada, os desafios, escolhas e planos para o futuro da editora Éblis (http://editoraeblis.blogspot.com). Eis aqui alguns trechos da entrevista. Bom proveito.

“…a Editora Éblis vem à luz com uma proposta editorial simples e impertinente: a edição de livros de poesia.”

Critério Apesar de tantas facilidades de meios de produzir e divulgar textos, na opinião de vocês, por que ainda é impertinente a edição de livros de poesia no Brasil? Ou afinal, qual a pertinência da edição de livros de poesia no Brasil?

Ronald Augusto: Há, naturalmente, uma intenção crítica (ou uma provocação) contida nesta idéia de impertinência quanto à publicação de poesia. Nossa iniciativa parece ser algo “fora-do-lugar” se pensarmos a poesia num lance de rivalidade com a prosa, e tomando como arena de combate o mercado livreiro-editorial; além do mais, o mundo virtual tem cumprido um papel de descompressão de uma grande produção literária que até há pouco não dispunha destas facilidades de divulgação oferecidas pelos meios eletro-eletrônicos. Recentemente uma amiga escritora, ainda inédita em livro, me perguntava sobre a necessidade de publicar em livro. O questionamento dela levava em conta a questão da distribuição do livro e o número infinitamente menor de leitores. Como todos nós ela mantém uma página na internet. Diante de tais condições a poesia sempre levará porrada. Mas, a questão não é bater de frente com este fait accompli contemporâneo. Na verdade não há pertinência nenhuma na edição de livros de poesia. No nosso caso, a editora Éblis é apenas o desdobramento de um gesto estético (e, também, crítico) implicado no quadro mais amplo das relações literárias. Como um poema: um golpe de linguagem. E como um poema, não precisa ser explicado. Basta o prazer, o apetite pela poesia, ou o mal-estar que às vezes ela provoca em alguns.

Ronaldo Machado: Em primeiro lugar, a impertinência da edição de livros de poesia se vincula, justamente, ao próprio caráter e função da poesia: como gesto de contestação, de contra-argumentação, ao sistema literário. Depois, respondendo a segunda parte da pergunta, a impertinência que nosso editorial declara se refere ao fato de que concebemos a empreitada editorial da Éblis como um gesto político afirmativo da possibilidade de se publicar poesia no Brasil. E publicar em livro. Ai esta a rabugice de Éblis, sua “impertinência”: afirmar a necessidade do livro, do objeto-livro, como lugar da poesia. Isto sem negar, de modo algum, outros meios e lugares para a poesia ser escrita e lida. “O foco da nova editora é pôr em circulação a poesia que não se contente com a corriqueira satisfação da moeda literária vigente, que cai, ora com a cara cult, ora com a coroa provinciana. A editora Éblis pretende jogar sobre a mesa uma outra moeda, revendo assim a economia poética contemporânea a partir de outros valores.”

CritérioQual a moeda que a Éblis pretende cunhar nessa economia poética contemporânea? Que opções e valores estão em jogo no conceito e nas práticas da editora?

Ronald Augusto: Esta moeda poética que gira a contrapelo dos interesses dos grupelhos de poetas bem relacionados e “dos tarados defensoras das letras”, como disse Lezama Lima, já está cunhada, não é uma invenção do nosso projeto editorial, não queremos cunhar nada, do contrário estaríamos reproduzindo as mesmas imposturas desse sistema. Os poetas e textos que pretendemos publicar são realidades e movimentos efetivos com os quais nos identificamos. Eu e o Ronaldo Machado os queremos como nossos interlocutores. Com eles a editora estará bem acompanhada, pois como diz o poeta Souzalopes: “contra o tédio/ contra a morte/ contra o bode/ ou nóis se une/ ou nóis se fode” (cito de memória). Os valores da editora são os mesmos da tradição, isto é, inventar a tradição, ou as tradições, e, quanto às práticas: não desprezar as traições, os desvios, etc., sempre que a maturidade amortecida, ou a voz melíflua da consagração estiverem farejando nosso afazer e nossa afasia.

Ronaldo Machado: Fui eu que escrevi esta imagem monetária no editorial da Éblis, no momento em que discutia com o Ronald o cenário da poesia atual, mais detidamente em relação ao palco e aos personagens de Porto Alegre, onde a coroa provinciana é muito ativa e a cara cult muito cansativa. Mas a imagem vale para todo o Brasil. Então – continuando com a metáfora - se impõe uma moeda de cotação mais alta e estável frente às flutuações dos câmbios estéticos, com o lastro assegurado na lucidez de que a criação poética é sempre uma confrontação com a linguagem, é um fazer frente à exaustão da linguagem, e que seu resultado, o poema, o livro de poemas, é sempre inconcluso. São esses os valores da Éblis. E contra eles é que o cult e o provinciano coincidem: no levar barato a reflexão sobre a poesia, seja pela “expertise” de um ou pela ingenuidade do outro. As práticas, por sua vez, se mostram na opção que a editora faz de publicar e por em circulação poetas que tenham presente, de uma forma ou de outra, a consciência da “dificuldade” da poesia, o que envolve a experimentação e a negação de clichês retóricos.

CritérioQuais os principais desafios materiais que envolvem o projeto da Éblis?

Ronald Augusto: O maior problema/desafio é mesmo o da distribuição, fazer o livro de uma editora simples, pequena e impertinente chegar até a prateleira das livrarias. Somos editores recém-nascidos. Há pouco Éblis fez um ano de vida. Vamos experimentar muitos aperreios e prazeres. Mas, aos 46 anos sei que o negócio é levar os projetos sem ansiedade.

Ronaldo Machado: O grande desafio que vejo é o de mantermos a regularidade das edições. Neste primeiro ano publicamos três livros. O meu e o do Ronald, em maio, e o do Paulo de Toledo, em novembro. Esperamos manter este ritmo, equacionando os custos de edição e de divulgação, o que envolve sempre recursos próprios.

CritérioHoje é muito comum que escritores tratem a poesia como gozo egóico estéril, pseudo-estético, ou como produção alienada nesse universo cotidiano de proletarização da atividade cultural, onde a visibilidade midiática e o universo das marcas (de mercado ou institucionais) dão o tom da liquidez e do valor de troca simbólica dos discursos.Pode-se realmente dizer que a inovação da Éblis estaria na ênfase do investimento ético, em substituição ao modelo de fetichismo cult alternativo ?

Ronald Augusto: Vou ser curto e grosso quanto a esse lance de “investimento ético” para não correr o risco de parecer um esquerdofrênico rodando em círculos atrás do próprio rabo virtuoso: não vamos publicar contistas.

Ronaldo Machado: Exatamente, a experiência da Éblis se constitui simultaneamente como investimento ético e como criação estética. Tenho experimentado a compreensão desta inequívoca co-relação entre ética e estética e, ainda, a dimensão da fruição, do prazer, sem impostação. É muito alegre e agradável criar e tocar uma editora que é, no sentido da pergunta, irônica ao “fetichismo cult alternativo” e a poesia “sorriso da sociedade”.

Critério - Quando é mencionado um investimento ético, leia-se um tipo de diálogo diferenciado com os autores, leitores, mídias, formatos e outros editores; mais autônomo, consciente e qualitativo. Ao contrário de usar as mesmas estratégias de alienação dos textos, autores e comunicação como simples mercadorias, sempre atrás de visibilidade espetacular e liquidez simbólica, pode-se dizer que a empreitada da Éblis também procura pensar formas de relação com a literatura, seus atores e o mercado?

Ronald Augusto: Estamos tentando fazer isso, mas ao mesmo tempo não abrimos mão de problematizar a força de qualquer empreitada-arte, e isto me parece interessante porque por meio dessa suspeição irônica nos tornamos mais aptos para compreender a arte e a poesia numa dimensão menos grandiloqüente ou menos esperançosa em relação ao seu poder de fogo. Por outro lado, há poucos meses leventei algumas questões relativas ao tema num dossiê da Critério. Talvez, mesmo a revelia de seus pais fundadores, a editora Éblis venha a ter alguma importância frente à multiplicação libidinosa dessas visibilidades sem fundo ou das novas tecnologias e sua correlata insolvência. Mas isso foge ao nosso controle, pois o futuro pertence à Éblis, ou seja: ao diabo. No entanto, nosso projeto gráfico já afirma uma espécie de vontade não-perdulária no que toca ao aproveitamento dos signos. Se percebe nas capas um gesto severo de calígrafo: uma estocada de nankin sobre a folha branca. A recusa sob a escolha.

Ronaldo Machado: A Éblis se inscreve no sistema literário (nas relações com os poetas, suas obras e com os leitores) sem pedir bença ou favores. Ocupamos os espaços e os meios ao nosso alcance para dar visibilidade ao trabalho; editamos nossos próprios livros, vendemos diretamente os livros, participamos de feiras e eventos literários… mas fazemos escolhas. Vamos onde gostaríamos de ir mesmo se não tivéssemos a editora. Guardamos relações diretas, não-alienadas, com o mercado e seus atores. Não nos enganemos, porém: somos burgueses. Todos somos burgueses, já disse Sartre. E nessa (contra essa) condição - balizada pelo consumo e pelo autoritarismo - é que buscamos espaços e momentos para respirar, para criar uma “lei própria”.

CritérioQual o critério de seleção de textos e autores para a publicação pela Éblis?

Ronald Augusto: Bons poemas (cerca de vinte, pois os livros não ultrapassam as trinta páginas), e com algum grau de inquietação formal; ensaios não-acadêmicos sobre poesia; e, finalmente, traduções, di-versões que não temam perder os “conteúdos inessenciais”.

Ronaldo Machado: Em primeiro lugar escolhemos poetas que gostamos de ler. Depois, textos adequados ao formato de nossos livros: poucas páginas e pequena tiragem. Além disso, o diálogo entre editor e poeta tem de rolar franco e tranqüilo.

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