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decupagens críticas

http://www.facebook.com/letras.contemporaneas Sabor da crítica vadia / Cândido Rolim   Há críticos e artistas que evitam comentar sobre seu tempo, quem sabe, aguardando a estação passar para, na carona de alguma aprovação unânime, emitir suas impressões com base em uma opinião digna de figurar no elenco dos juízos “confiáveis”. É na contracorrente desses esforços débeis de consagração que atulham a nebulosa literária que alguns pensadores, dentre eles o poeta-crítico Ronald Augusto, atentos à “fruição do indeterminado do discurso literário”, vão revolvendo tópicos e questões supostamente “consumados”. Ronald é um poeta que periodicamente realiza cursos cuja matéria prima é a leitura e a confecção de objetos verbais (textos). Portanto, convive à exaustão com os impasses da linguagem poética e também com os logros, as imposturas e os embustes realizados por nomes e obras preservados pela política cultural do entorno. Não assusta que apareça em seus artigos, a...

A leitura noturna de Breu rendado

Borges escreve em algum lugar, a propósito do jogo entre o fortuito e o forçoso, que quando alguma coisa acontece apenas uma vez estamos frente ao acaso; se acontece pela segunda vez pode ser que indique uma coincidência feliz ou não. Por outro lado, se o evento ocorre uma terceira vez trata-se já de uma confirmação. Pois bem, o leitor está prestes a mergulhar entre as capas do terceiro livro de poemas de Deisi Beier intitulado Breu rendado. Deisi daria a entender com essa metáfora sua apetência por uma linguagem mais fechada ou rente a uma obscuridade virtuosa, espécie de corolário da razão poética? Não precisamos tentar responder à questão, inclusive porque seria limitador do estranho prazer proporcionado por tal poesia. Mas voltemos à ilusão de Borges.  De acordo com a imagem triádica do escritor argentino poderíamos, por outro lado, indagar: com que espécie de confirmação, em fim de contas, nos deparamos lendo Breu rendado? A pergunta não pretende projetar conclus...

revisitanto fragma de cândido rolim

          Fragma  menos evoca que revoga enquanto desenha,  in absentia , sentidos como: permeio, incisão, inciso, separação, que são, por sua vez, congeniais ao prefixo  dia , aqui, à primeira vista, apagado, recusado. No entanto, embora  Fragma  pareça lhe dar as costas, continua afetado por ele. Isto é, o signo lexical  dia atravessa-o feito ressonância indicial.  Fragma , então, problematiza-se: assignatura defectiva, traços grafológicos de Cândido Rolim. Pulsão neográfica em que a dobra alusiva se projeta sobre a elisão material: o efeito do rasgo seco desmembrando o vocábulo “dia/fragma”. Sopro de prosa que trava e trova o espírito em espiras ao redor de si mesmo.           Cândido Rolim embaralha prosa, poesia e filosofia inventando um verdadeiro magma de linguagem que se esgalha em sintagmas, fraseados atordoantes e atordoados por filosofemas reif...

autores e livros

POESIA BRASILEIRA EM CALLALOO

maria helena vargas, oliveira silveira, joão batista, jorge fróes e eu (1995) POESIA BRASILEIRA EM CALLALOO 1          Em 1995, o volume 18, n.º 4 da revista Callaloo , Fall – Estados Unidos –, foi integralmente dedicado à literatura negra contemporânea produzida no Brasil. A partir de então – e efetivando um compromisso assumido pelo seu editor, Charles H. Rowell –, a obra criativa dos escritores afro-brasileiros vem sendo estampada em suas páginas com acentuada regularidade. Provam isso os volumes posteriores de Callaloo . No vol. 19.1, Winter (’96), excertos da obra Livro de Falas , do poeta mineiro Edimilson de Almeida Pereira, aparecem junto a uma entrevista concedida pelo autor. E agora, mais recentemente (’97) o vol. 20.1, Winter, apresenta ao leitor de língua inglesa uma perspicaz análise teórica e a tradução de poemas que aderem a um aspecto bastante significativo da cultura brasileira, isto é, a religiosidade. A desempe...

blackface em welles

( Othello , 1952) (fotogramas de Touch of evil , 1958) No filme A Marca da maldade ( Touch of evil , 1958), de Orson Welles – cuja ação se passa na fronteira entre México e Estados Unidos –, o personagem principal, ao lado do próprio Welles (na figura do reaça e asqueroso policial Quinlan), se chama Vargas, um oficial mexicano do Deptº de Narcóticos interpretado por Charlton Heston sob o verniz opaco de uma incômoda blackface . Ambos investigam um atentado à bomba que mata um político estadunidense em plena aduana. A fábula contém elementos extremamente atuais: terrorismo, conflitos étnicos e de fronteira. A esposa do justiceiro latin lover Vargas (impossível deixar de lado a condição de galã de Charlton Heston) é uma americana caucasiana ( blonde ) que por pouco, a certa altura da narrativa, não é seviciada por uma gangue de jovens mexicanos. Para o americano médio seria duplamente ofensivo testemunhar a nívea estrela de Hollywood Janet Leigh (musa esfaq...

os outros eus com que o poeta se mascara

Augusto dos Anjos é e não é o poeta do hediondo; é e não é um poeta kitsch ; é e não é um poeta barroco; tem um pé no pop e outro no cult. Por ser talvez o poeta mais popular da tradição poética brasileira, Augusto dos Anjos é de todos e é de ninguém. Só quando nos situamos poeticamente entre as capas do seu livro Eu (e a primeira pessoa do título trata-se de uma persona , isto é, de um símile “através do qual” o poeta faz soar uma voz) percebemos que Augusto dos Anjos se multiplica, na verdade, em outros eus . O paraibano Augusto dos Anjos (1884-1914) morre aos 30 anos. Seu único livro publicado, Eu (1912), aparece dois anos antes de sua morte. Augusto dos Anjos produz sua poesia num complexo enclave temporal de estilos poéticos e concepções de mundo. Sua formação de poeta incorpora, de um lado, os contributos do simbolismo e do parnasianismo e, de outro, se deixa contaminar (entre outras ilusões deterministas) pelo positivismo e pelo darwinismo. O filósofo alemão S...