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item: fortuna crítica decupagens

decupagens assim por Roberto Amaral [1] ronald espraia sua verve crítica, acurada e apurada, do ensaio a polêmicas artísticos-culturais, da prosa à música, da poesia a pintura, com, inclusive (pasme-se), uma imersão na arquitetura, e faz isso brioso e ciente, b em distante da timidez com que o incauto enfrentaria tais assuntos. o cara diz o que diz porque o cara tem rodagem e voltagem. claro que senti falta de uma palavra sobre a forma artística das mais apreciadas pelo ronald, o cinema, conforme o título de seu livro de ensaios sugeria metaforicamente (decupagem: planejamento da filmagem, a divisão de uma cena em planos e a previsão de como estes planos vão se ligar uns aos outros por meio de cortes), mas é certo que ele deve estar urdindo algo a respeito. sem dar moleza ao leitor (‘Quando o poeta resolve escrever crítica, prefácios, ensaios, etc., ele não tem a pretensão de socorrer o leitor’) usa de uma linguagem que o obriga a percorrer de cima a baixo os seus, o...

4:30, sem mais

a fortuna sobre cair de costas

por Eduardo Sinkevisque   (em: http://blogmenos.tumblr.com/post/82800519251/brevidade-de-brevidade-na-boca) BREVIDADE DE BREVIDADE NA BOCA a propósito do  Cair de Costas  (Éblis, 2012), de Ronald Augusto Li com a boca. Com dor de dente, cárie na raiz, gengiva exposta. Inegável manejo com a linguagem, as linguagens  verbivocovisuais,  verbais, visuais. Traquejo. Ronald sabe do riscado. Construção de linguagem, invenção, arranjo, desarranjo de composição compósita que não é composição. Densidades e respiros, disposições, humores,  pathos . Tem Dante, mas não tem Beatriz a nos guiar, embora haja vulto, fantasma dela. Li com o livro na perna. No colo, como dizem, Oswald lia. Não vou teorizar amigo. Nem por isso, li nas coxas. Posso te contar de algumas das exclamações que marquei e as páginas em que na numeração fiz círculos: página 41, a epígrafe de Machado; a página 43, número circundado; páginas 48/49, idem; página 51, onde termina...

futebol-preconceito 1 X 0 futebol-arte

Ronald Augusto [1] Com relação aos últimos acontecimentos envolvendo intolerância racial no âmbito do futebol, chego à conclusão de que não é mais viável levarmos a sério o conceito da "cultura do futebol" no sentido em que esse verdadeiro conceito-clichê gozaria de uma moral toda particular ou de um estatuto próprio. Graças a esse velho guarda-chuva de leniência acabamos justificando uma série de agressões e imposturas: racismo nem tão velado ou bem humorado, homofobia, truculência sicária de torcedores mafiosos, comentaristas esportivos obtusos. Parece que dentro dos estádios estamos obrigados, em nome dessa tal "cultura" ou devido à “natureza” das coisas futebolísticas, a aceitar toda a barbárie e o fogo amigo. Enfim, fora dos estádios ou após os 90 minutos e descontados os de bola parada, voltamos a ser democratas, acreditem. Se há alguma coisa mudando para melhor na sociedade (e há), o futebol e nossa maneira de pensá-lo – que, de resto, fazem parte...

No que você está pensando, meu caro facefriend? (revisto e ampliado)

  I Confess, 1953, drama film directed by Alfred  Hitchcock Que as escolhas ou decisões (não importa a angulação) são precárias, provisórias, e se nos recusamos a fazê-las só nos resta o eterno e as condecorações de praxe. Que todos esses escritores que infestam as redes sociais são competentes e manejam muito bem os fundamentos do ofício, mas tais dotes não realçam espíritos superiores, apenas compensam intelectos medíocres. Que os escritores conectados graças às redes sociais, ou seja, esse coletivo de ativistas propenso a não interpor a menor objeção a um aquecido meio literário forma um campo benfazejo onde prosperou e prospera a ideia – inclusive para que ninguém sofra um surto psicótico – de que não existem mais nem bons nem maus escritores. Que podemos usar a opção “curtir” caso sejamos informados, por exemplo, sobre a morte de algum dos nossos desafetos. Que um homem sozinho não deve ser temido nem estimado. Que, entre outras coisas, o ...

oriki de orixá para giba giba

Giba Giba negro. Giba Giba bom. Giba Giba sempre de bom humor. Em respeito ao que é irredutível ao homem e ao músico Giba Giba, morto recentemente, interrompo por aqui a pequena analogia intertextual em que o ponho em relação com a personagem do poema “Irene no céu” de Manuel Bandeira. Primeiro porque embora a atitude de Giba Giba, no que toca à sua inserção na tradição cultural e musical de Porto Alegre e do estado, tenha traços mais conciliatórios do que de confronto, não me parece possível associar sua imagem à do negro da casa-grande que, como a Irene de Bandeira diante de São Pedro bonachão (cara cor de fiambre) e às portas do céu, talvez se dobrasse humildemente a perguntar: “dá licença, meu branco?”. O riso eterno da caveira de Irene ainda é perversamente desejado. Sequer no recinto sacrossanto da morte é permitido ao negro não pedir licença. Vá que o poeta tenha bolado um desfecho ambíguo: a anedota lírica oscila entre “humor negro” e humor de branco, o que, afinal de co...

Walter Franco, dreaming Ou não

Ro nald Augusto [1] Em uma cena do excelente documentário A história do Jazz de Ken Burns, o compositor Duke Ellington, ao ser indagado por seu entrevistador sobre a questão de onde , de que lugar insondável, tirava as ideias para as suas composições, o músico e maestro responde, de início, que se vê sempre sendo assediado por uma infinidade de sonhos, portanto, o que ele mais faz é sonhar, o tempo inteiro. O jornalista e crítico, sentado senhorialmente em sua poltrona, reagindo à indolente resposta com uma ponta de ironia e como se executasse um xeque enxadrístico, retruca: “mas eu sempre pensei que você tocasse piano” (“tocar piano” = fazer música), e Duke, desguiando – como diria o escritor João Antônio – e encerrando a virtual partida com um mate maravilhoso: “isto não é piano, é sonhar, ouça...”. Neste momento, Ellington, que até então estava preguiçosamente encostado ao instrumento, mão no rosto, de pronto se posiciona e começa a executar uma harmonia ao piano, mas...