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Vagar em Macau com vagar

Vagar em Macau com vagar Ronald Augusto [1] Avanço, saltando por entre escolhos cotidianos – o Texas-tipo, a garrafa pet, a semanária –, por dentro dos poemas de Vagar em Macau de José Antônio Silva. A cidade e o tempo sucateiam os mitos retrógrados da poesia. Noturno/diurno do Tietê e de outros rios que varam cidades e seus muros. Os signos, os símbolos do triunfo e da derrocada sempre presentes na próxima esquina – no próximo virar de página –, avassaladores. Mas, por outro lado, a fruição do olhar em travelling escrutinando o transitório das megacidades que crescem e se anulam enquanto devoram adjacências e nossas entranhas. Os poemas de Vagar em Macau batem sola no asfalto da cultura e da sociedade, pavimento que, entretanto, não alcança desgastar o sujeito duro e bom, misto de cancionista e rapsodo, que os entoa aos quatro cantos de nossos transes geográficos. Um excurso sobre “Quatro mil mortes morridas”, um poema exemplar revisitado: o conhecimento satisfatório, se...

A crítica na internet

A crítica na internet Ronald Augusto [1] Não se sabe se o espaço da atividade crítica será em definitivo o da internet, digamos apenas que, neste momento, é aí que ela tem se manifestado de maneira mais avassaladora e complexa. Por outro lado, quando o jornal e o jornalismo disputam o qualificativo “barato”, na esperança de falar o mais rente possível aos desejos dos seus leitores, o resultado imediato é a depreciação da possibilidade de alguma forma de análise.  O fato de a internet ser um território democrático ou anárquico, parece dar margem tanto para a mais destemperada opinião de seguidores do que quer que seja, quanto para a viabilidade de um pensamento crítico não tutelado. Não podemos afirmar que a migração da crítica de suporte papel para o âmbito virtual é um fato consumado. Cada meio engendra um determinado estilo de crítica que lhe é coerente. Mas o que se publica na internet é de fato uma forma efetiva de crítica?  Talvez o que nos incomode sej...

O racismo e o taco de beisebol

O racismo e o taco de beisebol Ronald Augusto [1] Um modo de interpretar o recente episódio ocorrido em Charlottesville envolvendo supremacistas brancos, esses continuadores neonazistas e devotos do movimento Ku Klux Klan , seria evocar uma cena do filme Manhattan (1979), de Woody Allen. Na cena em questão um grupo de intelectuais comenta a irrupção de um protesto de nazifascistas em NY. Diante do sentimento de preocupação que predomina no grupo em vista do acontecido, um dos integrantes argumenta que talvez fosse interessante encarar o fato com mais humor, de maneira a promover um debate irônico que expusesse a estupidez de tais ideias e atitudes racistas. Por sua vez, o personagem interpretado por Allen, já sem paciência com o cinismo elegante do seu igual, responde que o melhor argumento contra um sujeito de coturnos e cabeça raspada é mesmo um taco de beisebol. Esta breve anedota dá conta, em alguma medida, de um certo estado de ânimo contemporâneo no qual nossas ...

tolerância enquanto fachada (III)

O princípio da tolerância enquanto fachada (III) Ronald Augusto [1] O melhor modo de segurar o chicote Em um dos seus escritos Machado de Assis (ou pode ser que isso se encontre na voz de um de seus personagens...) afirma, com a ironia que lhe é peculiar, que a melhor maneira de segurar o chicote é pelo cabo. Essa é a perfeita metáfora da tolerância minimalista e/ou oportunista. Através dela confirmamos de forma intuitiva que é melhor ser estimado (ou estar no papel do tolerante) do que ser tolerado. O autodeclarado tolerante toma a si mesmo como a medida para estabelecer o modus faciendi do princípio e da atividade de tolerar que, de alguma forma, se apresenta agora como uma passividade de fachada. A tolerância, enquanto normatividade aplicada à experiência do mundo vivido, parece se resignar com a constatação de que, no interior das interações pessoais e sociais, há situações discursivas e práticas em que a discordância não pode ser superada. Em favor disso o senso c...

sem transigir com o tolerável e o fácil

Onde não há facilidade Ronald Augusto [1] Para o leitor, o poema se apresenta, numa primeira aproximação, como que vertido em língua estranha, mas ao mesmo tempo remotamente familiar. Na comunicação poética, a imagem da leitura como algo rente ou similar à operação tradutória se impõe de modo decisivo. A comunicação poética pressupõe uma situação de embate com a dimensão da intraduzibilidade, do hermetismo, entendidos aqui como estilemas da condição de um limite disciplinador imposto pelo jogo de relações requerido ao poema. Mas tal dilema – a razoável impenetrabilidade da poesia, essa tópica dos “ portões fechados ”, como refere Denise Freitas em um poema do conjunto – se resolve, por outro lado, no momento em que o leitor-poeta assume a responsabilidade pela coautoria daquele texto por meio de um gesto de interpretação quase livre, uma vez que a estrutura recorrente do poema em alguma medida também determina o palmilhar da leitura. Todo esse processo resulta em um...

O princípio da tolerância enquanto fachada (II)

O princípio da tolerância enquanto fachada (II) Ronald Augusto [1] Luta pela estima Em certa medida, ser tolerado não deixa de significar uma experiência de desrespeito. Tomando como referência as atualizações que Honneth faz do pensamento hegeliano, é possível dizer que a luta por reconhecimento não é bem uma luta para ser tolerado, porém uma luta para ser amado, para ser estimado. Axel Honneth extrai do “modelo de Hegel” a plataforma da “tese especulativa segundo a qual a formação do Eu está ligada à pressuposição do reconhecimento recíproco entre dois sujeitos” [2] . Isto é, quando dois indivíduos se confrontam (o verbo confrontar é empregado aqui de acordo com a acepção relativa a estabelecer comparação entre; cotejar) , cada um deles tem a possibilidade de ver confirmada a sua autonomia por seu respectivo defrontante. Honneth argumenta que eles têm a chance de chegar “a uma compreensão de si mesmos como um Eu autonomamente agente e individuado”. A figura do tolerant...
O princípio da tolerância enquanto fachada (I) Ronald Augusto [1] Tolerância como desde-que O foco desta sequência de três artigos que divido com o leitor é apresentar algumas questões ou hipóteses relativas ao princípio da tolerância, no sentido de tentar desvelar como esse princípio, quando entremeado à dinâmica das interações dos grupos sociais e dos indivíduos, assume às vezes aspectos de desrespeito ou, mesmo, de franca intolerância. É preciso observar que em outras circunstâncias – quando se considera, por exemplo, a liberdade de expressão ou o direito à expressão de opiniões – a presença do princípio da tolerância, nesses casos, não parece revelar-se insuficiente. Pelo contrário, a tolerância serve aí de condição básica, de ponto de partida mínimo ao diálogo e sua continuação. Em outras palavras, se é verdade que um indivíduo almeja que suas ideias e opiniões sejam consideradas boas, também é verdade que para ele não será de fundamental importância que elas ev...