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4 passagens para dente de cachorro

4 passagens para dente de cachorro [1] ronald augusto [2] i. como personagens de um filme de buñuel os contendores os jogadores embora nada à vista dos olhos os agrilhoe ao lugar não conseguem se afastar da órbita da mesa de sinuca jamais surtirão do limbo desse bar dessa pinga das marcas de giz sobre a carta geográfica da flanela verde dos buracos negros das caçapas desaguadouros sumidouros de sórdidos humores masculinos aquém-líricos. a tabula rasa de jogos pífios buracos pifes canastras vazios de tanto virtuosismo bebum. homens debruçados sobre lances de dados carteados carecidos sem que o saibam de qualquer compaixão por si mesmos. ii. e tudo de roldão vai esbarrar em poemas. os biografemas de cristiano moreira. as leituras e suas indisposições. a noção de que o assédio ao autor de sua eleição aos significados de sua signância as fraturas abertas pela fatura inventiva do objeto de estudo enfim nada disso lhe garantirá a compreensão o tapa nas costas ...

as primeiras bravatas

As primeiras bravatas Ronald Augusto [1] Bolsonaro vetou representantes dos governos de Cuba e Venezuela no dia da possessão. Isso passou em branco. Aparentemente teve o consentimento dos formadores de opinião. Por outro lado, vetos como esse só aconteceram na época da ditadura, um período antidemocrático de nossa infame história. No mesmo momento, PT e PSOL foram acusados de desdém às formalidades da democracia por se recusarem a comparecer à possessão de Bolsonaro. A democracia precisa conviver com a desobediência que desmascara as contínuas contrafações da própria democracia. Com que conceito de politicamente correto trabalha um sujeito cujas ideias são análogas às de uma grande liderança da Ku Klux Klan? Nos "libertar do politicamente correto"? Isso é pauta do humor stand-up. O governo do presidente Bolsonaro é uma ameaça. Seus integrantes e fiéis vaticinam: se isso daí não der certo, então o Brasil vai para o buraco. É a solução final. Afi...

o machado de axévier

[Arnaldo Xavier, 1948-2004] O Machado de Axévier Ronald Augusto [1] Debater as condições de possibilidade de uma literatura negra e, paradoxalmente, não situá-la à margem da nossa tradição literária, como se essa produção de escritores negros aludisse a alguma forma de essencialismo, não é o que nos interessa aqui. Por outro lado, é necessário afirmar que essa literatura, além de se comprometer, o quanto possível, com a instauração de um idioleto literário, com suas linguagens, inflexões e temas irredutíveis e com os riscos decorrentes de tal empreitada, ou seja, os variados objetos poéticos enfeixados no corpo da literatura negra até agora, mais do que se constituírem em um restrito ismo , têm colocado no centro da discussão o conceito de uma literatura universal . Universalidade esta que, enquanto conceito – e do ponto de vista da vontade de estabilização de um determinado estado de coisas –, leva em seu bojo a presunção de falar sem sombra de ruído a todos os hom...

O trágico como vacilo de linguagem

O trágico como vacilo de linguagem Ronald Augusto [1] Aristóteles, em sua Ética a Nicômaco , afirma o seguinte: “Não se deve procurar indiferentemente o mesmo rigor em todas as discussões”. Por outro lado, o desprezo total a uma medida necessária de rigor – lógico, e não rigor mortis – em nossos julgamentos e interpretações, pode levar a resultados, no mínimo, desagradáveis. Neste sentido, isto é, na perspectiva de validação de julgamentos e interpretações, talvez seja possível afirmar que a tragédia funda a necessidade da lógica; a necessidade de comprovação dos discursos, a comprovação das prescrições e das profecias. Essa é uma tese defendida por alguns autores, ou seja, podemos reivindicar a noção de que o “erro de linguagem” – um vacilo interpretativo, por assim dizer – está na fonte do princípio trágico. Dito de outro modo, o que o herói trágico pensa sobre o mundo e o que ele predica a respeito dos fatos em que se vê implicado nem sempre concordam, em última aná...

fortuna crítica: entre uma praia e outra

Generosa e inflexível Guto Leite [1] Escrever a apresentação para um livro de poemas do Ronald Augusto é, antes de tudo, compartilhar da responsabilidade de fazer com que a leitora ou o leitor leve pra casa a obra de um dos maiores escritores contemporâneos do país e que por vários motivos, que vêm ao caso, não goza desse estatuto. Entre uma praia e outra é mais um dos grandes livros recentes do poeta, só que mais robusto, um ponto de chegada de um trabalho cerrado e de excelência. O que o faz chave para a leitura deste tempo, ouso dizer, são suas radicalidades. A primeira: ao investir na independência da palavra em relação ao que expressa e da forma poética em relação ao mundo. O poema não se coloca como continuidade de nossas vidas, mas nos objeta. A segunda: ao tratar de mesma forma o leitor. O poema não embala o leitor. O poema não se curva ao leitor. O poema não serve ao leitor. O poema é um outro. O leitor precisa sair de si para desvendar os termos, a disp...

na encruzilhada

na encruzilhada 1 tebanos morrem às próprias custas sicários do gozo que lhes ressaca atados a deuses dilacerantes e dilacerados tebanos imolam-se jaculatórios  2 diasporitanos que macumbeiros que batuqueiros de juízo e inhame inalam o odor do milho amarelo o repinique da branca pipoca frutas escarificadas gume de eguns galinhas ruivas que apodrecem sua substância sacrificial no pavimento úmido e irregular altar alterno

como eu escrevo

Entrevista publicada originalmente no site COMO EU ESCREVO , idealizado e administrado por José Nunes. Como você começa o seu dia? Você tem uma rotina matinal? Começo o meu dia feito todo mundo, acho. Não tenho uma rotina. Tenho, por enquanto, bastante tempo livre e isso me agrada. De preferência evito compromissos pela manhã. Em que hora do dia você sente que trabalha melhor? Você tem algum ritual de preparação para a escrita? Trabalho em qualquer hora. Não tenho ritual nenhum para começar a escrever. Você escreve um pouco todos os dias ou em períodos concentrados? Você tem uma meta de escrita diária? Um pouco de cada coisa. Não tenho meta. Nem sabia que essa categoria do ramo empreendedor , isto é, a “meta”, tinha se tornado importante para a literatura ou para a prosa. Como é o seu processo de escrita? Uma vez que você compilou notas suficientes, é difícil começar? Como você se move da pesquisa para a escrita? Há situações – nem sempre – ...