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No que você está pensando, meu caro facefriend? (revisto e ampliado)

  I Confess, 1953, drama film directed by Alfred  Hitchcock Que as escolhas ou decisões (não importa a angulação) são precárias, provisórias, e se nos recusamos a fazê-las só nos resta o eterno e as condecorações de praxe. Que todos esses escritores que infestam as redes sociais são competentes e manejam muito bem os fundamentos do ofício, mas tais dotes não realçam espíritos superiores, apenas compensam intelectos medíocres. Que os escritores conectados graças às redes sociais, ou seja, esse coletivo de ativistas propenso a não interpor a menor objeção a um aquecido meio literário forma um campo benfazejo onde prosperou e prospera a ideia – inclusive para que ninguém sofra um surto psicótico – de que não existem mais nem bons nem maus escritores. Que podemos usar a opção “curtir” caso sejamos informados, por exemplo, sobre a morte de algum dos nossos desafetos. Que um homem sozinho não deve ser temido nem estimado. Que, entre outras coisas, o ...

oriki de orixá para giba giba

Giba Giba negro. Giba Giba bom. Giba Giba sempre de bom humor. Em respeito ao que é irredutível ao homem e ao músico Giba Giba, morto recentemente, interrompo por aqui a pequena analogia intertextual em que o ponho em relação com a personagem do poema “Irene no céu” de Manuel Bandeira. Primeiro porque embora a atitude de Giba Giba, no que toca à sua inserção na tradição cultural e musical de Porto Alegre e do estado, tenha traços mais conciliatórios do que de confronto, não me parece possível associar sua imagem à do negro da casa-grande que, como a Irene de Bandeira diante de São Pedro bonachão (cara cor de fiambre) e às portas do céu, talvez se dobrasse humildemente a perguntar: “dá licença, meu branco?”. O riso eterno da caveira de Irene ainda é perversamente desejado. Sequer no recinto sacrossanto da morte é permitido ao negro não pedir licença. Vá que o poeta tenha bolado um desfecho ambíguo: a anedota lírica oscila entre “humor negro” e humor de branco, o que, afinal de co...

Walter Franco, dreaming Ou não

Ro nald Augusto [1] Em uma cena do excelente documentário A história do Jazz de Ken Burns, o compositor Duke Ellington, ao ser indagado por seu entrevistador sobre a questão de onde , de que lugar insondável, tirava as ideias para as suas composições, o músico e maestro responde, de início, que se vê sempre sendo assediado por uma infinidade de sonhos, portanto, o que ele mais faz é sonhar, o tempo inteiro. O jornalista e crítico, sentado senhorialmente em sua poltrona, reagindo à indolente resposta com uma ponta de ironia e como se executasse um xeque enxadrístico, retruca: “mas eu sempre pensei que você tocasse piano” (“tocar piano” = fazer música), e Duke, desguiando – como diria o escritor João Antônio – e encerrando a virtual partida com um mate maravilhoso: “isto não é piano, é sonhar, ouça...”. Neste momento, Ellington, que até então estava preguiçosamente encostado ao instrumento, mão no rosto, de pronto se posiciona e começa a executar uma harmonia ao piano, mas...

Literatura negra: além da recepção convencional

Ronald Augusto [1] Podemos distinguir, esquematicamente, dois tipos de artistas. De um lado, aquele espécime cuja arte se mantém muito rente à vida e ao real; e, de outro, o sujeito que entende a arte como uma transfiguração da circunstância, isto é, sua obra nos faz supor uma indisposição com relação ao real. O senso comum, entretanto, parece disposto a dar mais crédito ao artista do primeiro tipo. Ao contrário do representante do segundo tipo, este artista não pode ser um fingidor. O fruidor admira o poeta que suja suas ferramentas inspecionando os transes do vivido. Assim, o objeto de arte se transforma num sucedâneo sentimental e público de uma singular experiência existencial. Precisei desse preâmbulo pela seguinte razão: há uma percepção de que a verdadeira arte se confunde com a vida e isto, bem ou mal, serve de critério para avaliarmos uma infinidade de manifestações criativas, porém com uma exceção: a literatura negra. Muitos não aceitam que o qualificativ...

felizmente passou

Se os bons escritores apelam à relevância da crítica, os maus escritores a fazem necessária. Bons livros tornam possível e louvável a crítica que reconhece e traz à superfície as qualidades de tais obras. Mas os livros ruins – ainda mais quando tidos e havidos por obras sérias – afirmam o gesto indispensável da crítica que procura revelar esse blefe. Portanto, é justo que sejamos gratos – e críticos com relação – aos livros ruins e àqueles que, seja por boas ou más intenções, tentam nos passar semelhante conversa. Isto posto, passemos ao comentário propriamente dito. Entre as três leituras significativas, deste ano de 2013, que gostaria de destacar – coerente com o parágrafo acima e atendendo à solicitação do Edson Cruz, editor do site de literatura e arte http://www.musarara.com.br/ –, confesso que apenas uma foi efetivamente surpreendente, ou seja, prazerosa, e, por isso, começo por ela. Trata-se do livro Las montañas del oro do poeta argentino Leopoldo Lugones, um do...

a múltipla verdade de pau de mulungo

Daniel Rosa dos Santos é um escritor malandro, quer dizer, sua aposta, sua incisão particular, não está interessada na manutenção da Literatura como sistema; como escritor malandro ele quer perpetuar, na precariedade da fruição, o valor suntuoso do texto; seu ego scriptor não tem muito que ver com a imagem do competente e pálido escritor contemporâneo. A empreitada do livro feito no muque, livro feito à mão (um feito de prazer análogo ao do texto), materializa nesse gesto de oficina irritada (artesanato não-mercantil) a imaterialidade de sua escritura, que é tanto malandragem quanto linguagem. A prosa de Daniel Rosa dos Santos é malandra também na acepção em que Antônio Cândido, no estudo “Dialética da malandragem”, caracteriza o romance Memórias de um sargento de milícias , de Manuel Antônio de Almeida, como o paradigma do “romance malandro”. Um desocupado escritor convoca um desocupado leitor a um jogo de enganos. Pau de Mulungu é mais um lance desse jogo: perpétuo móbile...

a música de madiba

Confesso, em primeiro lugar, que o teor destas anotações relativas a Nelson Mandela e a uma série de coisas que no momento cercam sua figura, será um tanto aleatório e subjetivo; seria descabido tentar fazer as vezes do historiador ou do sociólogo. Meus pontos de vista sobre o assunto são parciais, isto é, por óbvias razões (ao menos para mim) tomo o partido de Mandela. De resto, com um rápido lance de dedos no teclado do computador ou na tela do tablet, o interessado estará às portas da Wikipedia e aí encontrará muita informação sobre Mandela. Ezra Pound disse em algum lugar – se a memória não me engana – que todos os homens deveriam se unir para cantar o Ulysses de James Joyce. Com o pedido entusiasmado, Pound procura dar conta da importância de tal obra, tanto para o seu tempo, como para o que viria a seguir. Trocando duas ou três palavras da frase de Pound, ela caberia à perfeição para traduzir meu sentimento e o de muitos outros em relação a Nelson Mandela e sua simbolo...