Pular para o conteúdo principal

Postagens

Sabor da crítica vadia: Decupagens Assim

Sabor da crítica vadia: Decupagens Assim Cândido Rolim [1]    Há críticos e artistas que evitam comentar sobre seu tempo, quem sabe, aguardando a estação passar para, na carona de alguma aprovação unânime, emitir suas impressões com base em uma opinião digna de figurar no elenco dos juízos “confiáveis”. É na contracorrente desses esforços débeis de consagração que atulham a nebulosa literária que alguns pensadores, dentre eles o poeta-crítico Ronald Augusto, atentos à “fruição do indeterminado do discurso literário”, vão revolvendo tópicos e questões supostamente “consumados”. Ronald é um poeta que periodicamente realiza cursos cuja matéria prima é a leitura e a confecção de objetos verbais (textos). Portanto, convive à exaustão com os impasses da linguagem poética e também com os logros, as imposturas e os embustes realizados por nomes e obras preservados pela política cultural do entorno. Não assusta que apareça em seus artigos, aqui acolá, com virilidade nietzs...

Typographo: um outro existe

Typographo : um outro existe Ronald Augusto [1] Talvez o eixo do novo livro de poemas de Ricardo Silvestrin, Typographo (Patuá Editora, 2016), seja o poema “Tu”. Ao redor dessa peça gravita um feixe de sentido que, não obstante aflorar e se dissipar em outros poemas ao longo da obra, é justamente nesse poema que tal área semântica passa a assumir um caráter mais nítido. Em outras palavras, em “Tu” o poeta aposta em duas maneiras de desautomatização da vida da pessoa, uma ligada à reversão do automatismo psíquico e outra vinculada à crise de uma expectativa social que tenta moldar seus desejos. Grosso modo e até onde consigo ver, Typographo se concentra nesse ideograma interpretativo e provisório que proponho ao leitor. Nesta perspectiva, em “Tu”, poema parcelado em 18 movimentos (cada um deles constitui uma estrofe), Silvestrin exercita uma espécie de arte da desilusão. Ou melhor, em alguma medida o poeta se compromete com a ideia de que a criação artística surge...

Qual é a da Feira?

Escritores brancos na 62ª Feira do Livro de Porto Alegre: quantos e quais? Ronald Augusto Em vista dos últimos acontecimentos referentes ao debate que procurei estabelecer publicamente com a organização da 62ª Feira do Livro de Porto Alegre, e considerando que as respostas obtidas em relação à participação de escritores negros na edição de 2016 sugerem um suposto clima de tolerância e diversidade sempre respeitados pela Feira e que, portanto, o mais interessante (para a coordenação do evento) seria aguardar e aceitar de bom grado a visibilidade até aqui “conquistada” – visibilidade entre secundária e ecumênica, pois a Feira estaria comprometida tanto com a qualidade, quanto com a acolhida geral de escritores de todas as raças e etnias – em outras palavras, mesmo a limitada presença de escritores negros tanto nessa, bem como em programações anteriores, ao longo dos sessenta e poucos anos de existência da Feira do Livro, mesmo isso, do ponto de vista dos organizadores, seria melho...

O soft em Racismo no Brasil e afetos correlatos

O soft em Racismo no Brasil e afetos correlatos Ronald Augusto [1] A recusa ao debate público sobre fraturas sociais que, o mais das vezes, se mantêm arraigadas nas esferas do espaço privado, ratifica a sensação de segurança de quem patrocina essa regressão da indiferença ao preconceito – ou à sua naturalização –, tornando os envolvidos diretos aptos apenas a desempenhar os atos, as tarefas e as falas estupidificantes que a sociedade exige deles. Os envolvidos hesitam entre a suposta elegância de jactar-se afirmando que o que o vem de baixo não os atinge e o círculo vicioso da várzea, onde é cada um por si enquanto o preconceito racial chuta as canelas dos desavisados. Em Racismo no Brasil e afetos correlatos (Conversê Edições, 2013) a escritora Cidinha da Silva se dispõe a discutir os dilemas relativos a esse estado de coisas. No que concerne ao nosso modelo de racismo, cuja anedota mais precisa é aquela – conquanto também seja perversa – segundo a qual cada brasileiro...

Escritores negros na 62ª Feira do Livro de Porto Alegre: quantos e quais?

Escritores negros na 62ª Feira do Livro de Porto Alegre: quantos e quais? Ronald Augusto [1] No dia 07 de julho postei em minha página do facebook a seguinte indagação: quantos e quais escritores negros farão parte da 62ª Feira do Livro de Porto Alegre? Como é usual acontecer nessas ocasiões, alguém replicou: “mas escritor tem cor? ”. Ao que eu respondi, de pronto: “escritor tem cor, sexo, cpf e rg”. Desgraçadamente, concepções como essa, que não só eu defendo, mas também muitos outros, ainda provocam constrangimentos. Entretanto, o problema não é nosso se uma parcela de leitores e fruidores segue depositando confiança na crença anacrônica de uma “arte pura”. Recentemente tivemos a chance de testemunhar uma discussão muito importante a respeito da invisibilidade dos escritores negros relativamente às práticas seletivas de prestigiamento e de indiferença vigentes no sistema e no mercado literários. A esse propósito, evoco aqui a polêmica causada pela – para dizer o mín...

Um acervo de fugas

Breve exercício para fugitivos , esse conjunto de textos de Rubens da Cunha, põe em movimento pensamentos-arte que confinam com a ideia de que os discursos poéticos são volições significantes determinadas a uma permanente conquista das imprecisões da razão e da emoção que requerem formas plásticas capazes de apresentá-las. Cada texto é tanto uma vertigem onde o prosaico e o bizarro se atritam, quanto um sumidouro de linguagem que se processa através do corpo a corpo do poeta com a matéria verbal e as noções empíricas e teóricas da função estética. Por essas e outras é que não me parece despropositado afirmar que Breve exercício para fugitivos se situa criticamente aquém e além do conceito consagrado de crônica.  Rubens da Cunha, poeta e autor de Curral (Editora de UFSC, 2015), leva a efeito a ultrapassagem das convenções da prosa, mas também das convenções e das fronteiras entre os gêneros. Se a poesia se deixa perturbar por uma entropia discursiva, a prosa, por seu tur...

As últimas semanas em poucos traços: crônicas-relâmpagos

[fotograma do filme Assalto ao trem pagador (1962) de Roberto Farias] Ronald Augusto [1] Recentemente participei de um encontro muito bacana com os alunos da ocupação da Escola Ernesto Dornelles. Cardápio: literatura negra, homofobia, machismo, racismo, história, política, filosofia, afetos, poesia, enfim, só coisa boa para debater com ganas. * Vocês que apoiaram o impeachment com o pretexto de varrer a corrupção do mundo conhecido estão pagando o maior mico da história, seus manés. Morram de frio mergulhados no laguinho do Parcão. Os apoiadores do golpe agora batem à porta do interino e ele, em agradecimento aos serviços prestados, tem de recebê-los, estejam ou não acompanhados de ex-atores pornôs. * Também não faz muito a Folha de S. Paulo publicou artigo do Cristovão Tezza em que o autor diz que não vê golpe nenhum acontecendo. Muita gente talvez tenha ficado chocada com isso. Eu não. Esse romancista sempre me pareceu conservador e mediano. P...