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fortuna critica : Ronald Augusto abre alas à palavra autoral

Ronald Augusto abre alas à palavra autoral Paulo Fabris [1] Entre uma praia e outra (Editora Artes & Ecos, 2018) de Ronald Augusto acontece como uma festa imodesta, entre cômoros e vegetação espessa, entre a prosa e a poesia dos pagos, ali onde um insuspeito rastreador talvez notasse marcas na areia de Pound. Mas quem o chama para um papo reto é Oliveira Silveira, enquanto a silhueta de Manuel Bandeira é vista em meio à sombra e Mallarmé desponta como uma estrela atrás dos morros. Entre uma praia e outra faz a entrega de poemas artesanais, com palavras cozidas no barro e temperadas com o sal da terra. Escolho, como amostra grátis, um dos poemas do livro, o da pág. 55: sombra da garagem abre alas à passagem do sopro do mar fosco calor onde afundo enorme mas tão caprichoso quanto a imagem que maruja na concha do meu ouvido A leitura do livro me fez lembrar uma matéria de Haroldo de Campos com o poeta europeu (iugoslavo) Vasko Popa, publicada...

sem romantizar o isolamento

Sem romantizar o isolamento Ronald Augusto [1] Entrevista conduzida pelo jornalista Igor Natusch publicada no caderno Cultura do Jornal do Comércio/RS. No link, a versão editada da entrevista: https://www.jornaldocomercio.com/_conteudo/cultura/2020/04/735894-poeta-ronald-augusto-prefere-nao-romantizar-o-isolamento.html?fbclid=IwAR3g3UWhLBaVGHcrbr4tXGZVDq1JJQbDzWh6YGp44lKGzsVLgkfSqrGw1f8#.Xq_s0kKvAKs.facebook Como o isolamento causado pelo coronavírus tem influenciado na tua atuação criativa? Mudou alguma das tuas rotinas? Tens tido mais ideias para escrever ou, ao contrário, a situação tem atuado contra a tua criatividade? Como tens te sentido nesses dias? O isolamento social não afetou meu modo de escrever poemas. Há muitos anos trabalho mais em casa mesmo. Além disso, minha forma de produção é lenta, demorada, e por isso é também escassa. Meu livro Entre uma praia e outra , que ano passado recebeu o Prêmio Minuano de Literatura, categoria poesia, é um c...

O que fazer com o esteta e o moralista?

O que fazer com o esteta e o moralista? Ronald Augusto [1] A estética, ao que parece, é um campo hesitante e algo controverso, capaz de, inclusive, confundir o interessado quando sua consideração a propósito do tema se dá, por exemplo, através dos termos dos pensadores do idealismo. De outra parte, aísthesis , o conceito grego de onde se origina a disciplina, significa sensação, sentimento. Mesmo que, historicamente, seja considerada como um ramo da filosofia, a estética aqui e ali é representada como uma disciplina meio lateral ou menos estável, afinal, a investigação estética não se dedica necessariamente a formas artísticas constituídas; seu interesse, de vocação esclarecida e racional, por experiências da sensibilidade e do afeto que se relacionam a uma série de objetos, a coloca, no entanto, constantemente em situações movediças e fungíveis, ainda mais quando se trata de determinar a precisão dos juízos e conhecimentos pretendidos. Um argumento que sustentaria a te...

Solidariedade maledicente e infernópolis

Solidariedade maledicente e infernópolis Ronald Augusto [1] Todo mundo caiu de pau (e, em alguma medida, com razão) em cima do recém nomeado presidente da Fundação Cultural Palmares por causa de suas declarações e trollagens contra os movimentos negros. Por outro lado, e curiosamente, o antropólogo Antonio Risério há anos vem nos oferecendo a mesma qualidade de leviandades (só que com aquele verniz intelectual que tantos apreciam) e ninguém expressa um par de palavras para contraditá-lo. Mas, sim, Martinho da Vila respondeu aos comentários grosseiros de Sergio Nascimento de Camargo. Sim, o próprio irmão passou um pito neste cidadão. Sim, o pai é um importante escritor e tradicional militante negro. Encontrei essas notícias aqui e acolá, e gente conhecida, com presteza, veio me contar uma e outra novidade. Só que tudo isso ainda é informação irrelevante e maledicente, porque a intenção é demonizar o sujeito isolando-o do conjunto. Vocês não precisam disso para dizer qu...

o 20 e a evasão do racismo à brasileira

[artigo  publicado originalmente em: https://gauchazh.clicrbs.com.br/comportamento/noticia/2019/11/ronald-augusto-o-fim-de-novembro-e-a-evasao-do-racismo-a-brasileira-ck3k501jh00yn01ll4cbxrzuf.html ] Vinte de novembro e a evasão do racismo à brasileira Ronald Augusto [1] No início de novembro postei em minha página do F acebook o seguinte comentário: estamos no mês em que o Brasil finge dar atenção aos desejos e lutas de sua população negra. O sentido da ironia não visava deprimir o ânimo de uns, nem desprezar a empatia de outros em relação ao combate que deve ser movido contra o racismo institucional e individual. Pelo contrário, o interesse era afirmar que devemos pensar a mobilização antirracista como um imperativo moral ao problema estruturante de nossa formação e não apenas registrar uma efeméride sentimental por meio da qual se tenta purgar o trauma racial em que brancos e negros estão implicados, estes como vítimas, aqueles como patrocinadores (indifer...

A explicação no lugar da voz

A explicação no lugar da voz Ronald Augusto [1] A motivação para esse texto nasce de uma postagem [2] do poeta Heitor F erraz em sua página do Facebook a propósito de reportagem publicada no G1 sobre o Prêmio UBC 2019 [3] , con ferido ao compositor Milton Nascimento. Mauro Ferreira, blogueiro do portal, assina a matéria em que defende a posição segundo a qual a arte de Milton Nascimento “é tão grande que nem cabe explicação”. Na opinião do jornalista, durante o evento de premiação, nenhum amigo ou parceiro de Milton deu conta de explicar a grandeza divina dessa obra “vinda ninguém sabe de onde”. De outra parte, Heitor Ferraz questiona – e com razão, pois tudo na reportagem soa irritantemente laudatório – a visão sacralizadora e demasiadamente reificada sobre a arte de Milton Nascimento. O poeta salta para o campo oposto e argumenta que tal concepção acomoda “a cultura negra no campo dos milagres”. Para Ferraz, Milton “tem a voz da escravidão brasileira, voz que vem da...